
Crescer, muitas vezes, não é uma tarefa fácil. Ingressar no universo adulto é um processo lento e exigente, especialmente para jovens de instituições de acolhimento. Pensando nisso, Gabriela Speziali e o marido dela, Tiago Batista, conceberam o projeto Filhos da Nação, com o intuito de acolher e empoderar crianças e adolescentes de abrigos institucionais. O programa investe na "remoterapia" para oferecer suporte psicológico aos jovens, ganhando notoriedade internacional pelo seu método.
Com sede na Associação dos Servidores da Câmara dos Deputados (Ascade), a iniciativa foi pauta no Campi da Harvard University, nos Estados Unidos. Gabriela foi escolhida para ser a embaixadora do Centro-Oeste no Brazil Conference 2026 — reunião internacional criada para discutir ideias sobre o futuro do Brasil. Lá, o projeto Filhos da Nação ganhou um prêmio na categoria Impacto Social, devido aos resultados alcançados por meio da metodologia criada pela dupla.
Orgulhoso, o presidente da Ascade, Francisco Morais, relembra o momento em que foi procurado pelo casal que idealizou o projeto. "Foi há 7 anos. Agora, estamos conseguindo trazer recursos para que o projeto tenha um alcance maior", descreve.
A ideia da iniciativa surgiu em 2017, quando o casal perdeu uma filha após 9 meses de gestação. Segundo Gabriela, a dor impactou a família, que aguardava ansiosamente pela nova integrante. Em busca de encontrar um sentido para o trauma passado, Gabriela procurou apoio na terapia junguiana — psicologia analítica, desenvolvida por Carl Jung. Paralelamente, Tiago desenvolvia um apego especial pelo remo. Juntos, eles tiveram a ideia de acolher crianças em situação de vulnerabilidade.
Leia também: Segundo dia de competição de canoagem no Lago Paranoá tem pódio com brasiliense
Remo e psicologia foram integrados. O projeto utiliza as atividades com a canoa havaiana para trabalhar disciplina, foco e sincronia. "O contato com a água reduz a ansiedade. Por meio do imaginário, é possível estimular a integração entre consciente e inconsciente", explica Gabriela. A metodologia funciona com um acompanhamento especializado, focado em ressignificar traumas e experiências negativas.
Aos poucos, o programa ganhou forma. Há pouco menos de um ano, o projeto foi incluído na Lei de Incentivo ao Esporte, o que resultou em um maior alcance. Atualmente, são atendidas cerca de 480 crianças e jovens de instituições de acolhimento. Entre elas, está Maicon Lourenço, de 17 anos. Frequentando o projeto há cerca de um ano, o rapaz se tornou campeão da categoria Júnior 19, no Campeonato Brasileiro de Canoa Havaiana. "Pensei que não ia dar conta. Foi uma experiência única", afirma orgulhoso.
Leia também: Kaluanã avança para a final do Brasileiro de Va’a
O atleta ainda foi classificado para participar do Campeonato Mundial de Canoa Havaiana, em Singapura, na Ásia, em agosto. O projeto busca apoio financeiro para custear a viagem. Isaac Jaques, 17, amigo e Maicon, foi vice-campeão do Campeonato Brasileiro na mesma equipe. A dupla se conheceu no abrigo e investe no esporte em conjunto. "Demos o nosso sangue", brinca o rapaz. Participante da iniciativa há seis meses, ele se orgulha de a equipe ter alcançando o primeiro lugar na competição, realizada em março, em Brasília. Os dois se consideram irmãos e vivem uma parceria que os conecta na vida e no esporte. "O projeto nos incentivou a ter visão de futuro", elogia Isaac com gratidão.
Autoestima
A iniciativa tem duas psicólogas na equipe, além de quatro professores de remo e quatro monitores. Segundo Gabriela, a maioria dos egressos de abrigos institucionais sofrem com crises de ansiedade e baixa autoestima. "Setenta por cento possuem diagnóstico de depressão. É muito comum que eles cheguem aqui com zero expectativa de futuro", relata a organizadora. Com a participação nos treinos, porém, muitos deles desenvolvem boas expectativas e esperanças para o futuro.
O sucesso do projeto entre os jovens levou o casal a investir na diversificação da iniciativa, focada no gênero feminino. Intitulado Filhas da Nação, o novo formato foca em cuidar do psicológico de meninas e adolescentes de instituições de acolhimento e escolas públicas do DF. "Acompanhando os jovens do projeto, percebemos que as meninas costumam internalizar e se fechar frente às dores pessoais", explica uma das psicólogas da iniciativa, Samara Dairel. Dessa forma, o espaço tem o intuito de tornar-se um local onde as meninas consigam externalizar emoções próprias da adolescência feminina.
Leia também: Lago Paranoá vai sediar o Campeonato Brasileiro de Va'a 2026 no fim de semana
Assídua nas aulas de remo, Juliana Alves (nome fictício), de 9 anos, descreve que sofre com crises de ansiedade sempre que a mãe se atrasa para buscá-la nos dias do encontro. Com a agenda cheia, Juliana frequenta o projeto Filhas na Nação às quintas-feiras, pela manhã, e à noite pratica capoeira. "A gente rema, toma banho no lago. É muito legal, sou muito apegada às Filhas da Nação", descreve a menina.
Atualmente, o projeto atende a instituições de acolhimento e a duas escolas públicas do DF: o Centro de Ensino Fundamental (CEF) do Bosque, em São Sebastião, e o CEF 12, em Ceilândia. Mais de 150 meninas fazem parte do projeto. "As portas estão abertas para mais jovens, caso outras escolas tenham interesse em participar", convida Gabriela. O e-mail para contato, assim como para doações ao projeto é o projetofilhosdanacao@gmail.com.

Trabalho & Formação
Mundo
Flipar