
O espelho-d'água do Lago Paranoá prepara-se para refletir a força e o sincronismo das equipes masculina e feminina neste fim de semana. O cenário, ícone da capital federal, transforma-se na arena oficial do Campeonato Brasileiro de Va'a 2026 entre 6 e 8 de março. Muito além das medalhas, a competição define quem serão os remadores e remadoras que carimbarão o passaporte para o Mundial de Sprint em Cingapura, em agosto. Para os atletas de ambas as categorias, o desafio carrega a pressão máxima do alto rendimento: vencer nesta raia significa o privilégio inédito de representar as cores do Brasil em águas asiáticas.
As provas de velocidade, disputadas nas distâncias de 250m, 500m, 1.000m e 1.500m, exigem dos competidores uma combinação de força física, resistência anaeróbica e uma precisão técnica milimétrica. Seja na modalidade individual, na qual o atleta depende exclusivamente da própria performance, seja na coletiva OC6, em que seis remadores precisam operar juntos em sincronia, cada segundo pode fazer a diferença no resultado final. Equipes de diversos estados brasileiros desembarcam no Distrito Federal para enfrentar uma raia que, para os remadores locais, é uma extensão de suas casas, criando um clima de rivalidade saudável e alto nível técnico que eleva Brasília ao centro do va'a nacional.
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Em casa
Treinar diariamente em um dos mais famosos cartões-postais da capital, enfrentando a altitude e a baixa umidade, oferece aos atletas de Brasília uma resistência diferenciada. O remador Cristian Martins, de 26 anos, destaca que o conhecimento profundo do Paranoá é uma vantagem, especialmente pela característica da água doce, que é considerada mais "pesada" e oferece maior arrasto do que a água do mar. "A gente conhece a raia, sabe que a água é mais pesada. E também é muito bom ter a família ali botando boas energias e nós celebrando", afirma o atleta. Esse vínculo emocional, somado ao suporte da torcida local, transforma o esforço físico em uma missão que transcende a competição.
Na dinâmica da categoria em grupo, o mapeamento é essencial para o sucesso do grupo. O primeiro banco dita o ritmo e a intensidade das remadas. O banco 2 é o espelho do voga. Os bancos centrais, conhecidos como os motores da canoa, são responsáveis pelo deslocamento bruto. No quinto banco, o contraleme. E, no sexto, o lemista, que assume a função de cérebro da equipe, realizando a leitura constante das condições da água e coordenando as estratégias de curva e direção. Em provas de sprint — focadas em altíssimas velocidades em distâncias curtas —, a sincronia precisa ser absoluta, pois qualquer erro na entrada do remo ou uma oscilação na cadência pode comprometer a hidrodinâmica da canoa e custar a vaga para o mundial.
Assista ao vídeo com atletas de canoagem havaiana
Equipes
As equipes de Brasília carregam um histórico de pódios que as destacam. No feminino, por exemplo, a equipe Kaluanã é um fenômeno de consistência, sendo tricampeã invicta do Circuito Brasiliense de Va'a (2023, 2024 e 2025). O grupo já sentiu o gosto da competição global no Mundial do Havaí, em 2024, e agora foca em Cingapura. Para a integrante da equipe Fernanda Kirov, de 44 anos, a experiência é visceral: "A canoa movimenta o corpo e a alma. Você é o motor, é a cabeça, é o ritmo. Toda mulher que tiver vontade deve conhecer esse esporte". Ela ressalta que o maior desafio é o controle interno: "O físico a gente treina bastante. O mental é o mais difícil: você não pode deixar a mente te sabotar. Mas estamos muito confiantes e motivadas."
Martina Negraes, de 35 anos, contravoga da equipe, acredita que o ambiente controlado do lago é um diferencial para quem busca precisão. "Competir no lago é muito legal para a gente. No mar tem balanço, corrente, maré. Aqui a gente conhece o ambiente. A expectativa está grande", comenta. Sob a coordenação de Ana Paula Reis, que vê a torcida local como um privilégio único, as mulheres da Kaluanã buscam uma vaga no mundial por meio das raias lisas do Paranoá. "Ter a torcida aqui dá mais confiança. No lago, ou está muito liso ou o vento é constante. No mar, a leitura é mais complexa, exige outra adaptação. Estamos em casa", explica a capitã.
Já a equipe masculina Va'a Brasília Monkey Rasta, formada em 2018, consolidou uma trajetória sólida e internacionalmente reconhecida. Com títulos de expressão, como o vice-campeonato mundial na categoria V12 Elite em Londres (2022) e o terceiro lugar mundial no Havaí (2023), o time chega para a seletiva com o peso da experiência. Recentemente, conquistaram o quinto lugar no Pan-Americano na Ilha de Páscoa, em 2025, provando que o nível técnico do Planalto Central não deve nada aos grandes mares. Agora, o foco volta-se para as raias de velocidade de Cingapura, onde a força física do grupo será posta à prova mais uma vez.
Estratégia
À frente do grupo de alta performance feminina está Rafael Maia, treinador e fundador do Clube de Remada Kaluanã. Maia testemunhou a evolução do esporte em Brasília, que partiu de uma cidade curiosa para uma potência. "Brasília tinha apenas uma canoa há alguns anos. Hoje o cenário é completamente diferente, com cerca de 14 bases em plena atividade. Isso mostra não apenas o crescimento quantitativo, mas uma evolução técnica que nos permite competir de igual para igual com qualquer equipe do litoral", afirma o treinador.
Rafael Maia enfatiza que o sprint exige uma mentalidade distinta das provas de longa distância. "O nível técnico desta edição está elevadíssimo, especialmente por ser sprint, que exige precisão cirúrgica e técnica refinada nas curvas. Não basta ser forte, é preciso ser exato", explica. Ele também aponta para o valor social e cultural da modalidade, que vai além do pódio. "É um esporte muito bonito, enraizado na cultura polinésia e que promove um trabalho em equipe genuíno. Embora a falta de status olímpico ainda limite patrocínios e visibilidade, o impacto visual e a união que o va'a proporciona são incomparáveis. Estamos prontos para mostrar que o nível técnico do Planalto Central está pronto para o mundo novamente."
Destino final
Além da possibilidade de ostentar um título nacional, a seletiva em Brasília funciona como um funil definitivo para a formação da delegação brasileira que cruzará o mundo rumo a Cingapura. A vitória não é apenas uma conquista esportiva, mas o passaporte para o reconhecimento internacional e a chance de elevar a bandeira do Brasil no topo do pódio asiático.
Para o presidente da Federação Brasiliense de Va'a do DF, João Marcelo Martins, os resultados recentes comprovam a maturidade técnica alcançada pelos remadores locais, que hoje competem em igualdade de condições frente a atletas de regiões litorâneas. "Brasília não apenas acompanha, mas contribui ativamente para a evolução técnica do esporte no Brasil. O Lago Paranoá oferece condições controladas e segurança, o que contribui para competições de alto nível e consolida a cidade como um polo estratégico para grandes eventos mundiais", destaca.
As equipes masculina e feminina têm o mesmo objetivo: vencer. Enquanto a equipe feminina Kaluanã busca um resultado positivo para garantir o retorno ao cenário mundial, o time masculino quer consolidar seu histórico de pódios globais. No encontro entre a estratégia técnica, a força e a conexão profunda com os elementos da natureza, o Lago Paranoá reafirma sua vocação como um encontro de talentos de classe mundial. Para os atletas da casa, cada remada dada neste fim de semana carrega o som da torcida e a chance real de transformar Brasília em uma porta de entrada para Cingapura.
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