O que será o "tapete verde" formado no Lago Paranoá, cartão-postal de Brasília? As imediações do Deck Sul estão tomadas por folhas da espécie aguapé-miúdo, lentilha-d'água ou salvínia, em um contraste visual marcante. As plantas são pequenas, arredondadas e aparentemente inofensivas, mas soam como alerta e indicam o nível de poluição das águas, afirmam os especialistas. A Caesb afirma que faz o monitoramento do fenômeno e que não há perigo para os usuários.
O aparecimento dessas plantinhas não é por acaso. No Deck Sul, elas avançaram até as margens do píer e deixaram apenas uma faixa estreita de água livre ao fundo. Não foram implementadas por ação humana, mas nasceram ali para ecoar ao público brasiliense uma mensagem sobre a qualidade da água, em um processo denominado eutrofização, explica o professor José Francisco Gonçalves Júnior, do Departamento de Ecologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB).
O fenômeno representa o acúmulo excessivo de nutrientes (como fósforo e nitrogênio) em corpos d'água e está atrelado a uma cadeia destrutiva. "Essas algas são como um bioindicador da qualidade ruim da água. A eutrofização é o processo de morte de reservatório do lago em função da entrada do esgoto clandestino e até mesmo dos efluentes provenientes das estações de esgoto", argumenta o professor.
Esse desequilíbrio ambiental não tem relação direta com a mudança climática, mas as temperaturas dessa época do ano — menos ventos e chuvas — agem para a estabilidade das águas. Fármacos, microplásticos e metais, por exemplo, não são completamente retirados do lago no processo de tratamento das estações. A prioridade é a remoção de carbonos, detalha José Francisco. "A água do lago fica parada por um ano, então, muita coisa chega de esgoto e fica acumulada."
Desequilíbrio
Fabricio Escarlate, professor de ciências biológicas do Ceub, explica porque o aparecimento dessas plantas não se enquadra em um processo natural. Segundo ele, a espécie é invasora. "Há um desequilíbrio ambiental, porque você tem a introdução de espécies que não deveriam estar nesse local e não há predadores que as consumam", avalia.
O professor levanta hipóteses para o crescimento acelerado dessa espécie nas águas. Entre as vertentes, o excesso de matéria orgânica ou algo associado ao aporte de nitratos e nitritos. "Pode ser que haja um fator associado à temperatura e à oxigenação. Portanto, tudo deve ser investigado", destaca.
Quanto aos riscos, o contato direto de humanos com a planta não representa perigo. Mas como a aguapé-miúdo é um aviso quanto às condições da água, expor-se ao lago pode ser prejudicial.
Fabrício Escarlate concorda que não há riscos à saúde humana, mas reforça para um problema à biodiversidade. "Elas (plantas) alteram a disponibilidade de nutrientes, competem com plantas nativas, entre outras questões."
Ao Correio, a Companhia Ambiental de Saneamento do Distrito Federal (Caesb-DF) afirmou que desde o início de 2026 removeu aproximadamente 2,5 mil metros cúbicos de plantas aquáticas e segue monitorando a situação, mantendo ações permanentes de manejo e preservação ambiental no lago.
A Companhia destacou que o trabalho de retirada das plantas continua sendo feito. O Correio questionou a frequência desse serviço e se há dias e horários específicos para a retirada, mas, até o fechamento desta edição, não obteve resposta.
Por fim, a Caesb reforçou que a presença de plantas aquáticas é um fenômeno natural, sem qualquer relação com algas ou com os processos de tratamento de água da companhia, "não oferecendo riscos aos usuários do Lago Paranoá".
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