DIA DOS NAMORADOS

Casal festeja dois anos de união com pedido de casamento inusitado

Os viúvos Lincoln Dimatteu e Carmen de Oliveira reconstróem a vida em Brasília depois de um pedido de casamento impresso em uma página do Correio Braziliense. Hoje, celebram dois anos de união e festejam projetos em comum

"Case-se comigo numa noite de luar." Essa foi a frase escrita nos classificados do Correio Braziliense que mudou a vida de Lincoln Dimatteu, 43 anos, e Carmen de Oliveira, 59, há dois anos. O trecho, retirado de uma música de Isabella Taviani, estampou a página do jornal quando o bombeiro civil decidiu que era a hora de dar um passo a mais no relacionamento, iniciado em 2023.

O pedido de casamento inusitado se assemelha às surpresas que os uniram, após ambos vivenciarem o luto de perder a então esposa e o então marido para a covid-19. O amor de Lincoln e Carmen os salvou da solidão, como gosta de reforçar a gestora de marketing.

"Eu queria algo que fosse marcante e ficasse registrado, sabe? Para, no futuro, nossos familiares conhecerem nossa história. Vou mostrar e dizer 'Olha, foi assim que tudo começou'", explica Lincoln. Resolvidos os preparativos para a publicação do "anúncio", foi a vez de se aliar ao garçom de um restaurante da Asa Sul para que o momento saísse como planejado.

"Convidei-a para jantar e, quando chegamos, lá estava o jornal sobre a mesa. Fingi estranhamento, mas quando comentei que olharia os classificados, o garçom entendeu o sinal e foi buscar o buquê de flores e o petit gâteau, onde também estava escrito o pedido. Disse a ela 'Olha que curioso esse anúncio'", descreve. Quando Carmen leu, ele se ajoelhou e, ali, foi firmada a união. A noite, como diz a declaração, era de luar.

Arquivo pessoal - Exemplar do jornal sobre a mesa na noite do pedido de casamento

A surpresa arrancou lágrimas e deixou Carmen estática por alguns segundos diante da dedicação do companheiro. "Eu já sabia que seria pedida em casamento, mas não imaginava como. Sou muito romântica e preciso desse carinho para conseguir entregar meu coração", confessa. Para ela, aquele gesto confirmou a solidez de um recomeço que os dois, pouco tempo antes, sequer julgavam possível.

A decisão de morar juntos veio na mesma velocidade em que a cumplicidade se estabeleceu no cotidiano. Sem a necessidade de formalidades burocráticas, os dois entenderam que o verdadeiro compromisso já havia sido firmado entre a mesa do restaurante e as linhas impressas do classificado.

"Na verdade, nós não nos casamos legalmente. O pedido de casamento ali naquele momento foi a nossa união, e a partir daquela data passamos a dividir o mesmo teto", relata o bombeiro civil, que encontrou na maturidade e no pragmatismo de Carmen o porto seguro que procurava para esquecer os anos de solidão.

O encontro

Antes de cruzarem os olhares no Condomínio RK, em Sobradinho, o cenário era de reconstrução. Lincoln enfrentava uma depressão severa após a perda repentina da esposa, com quem partilhou duas décadas de vida. "Fiquei muito mal, era uma rotina triste e vazia, com medo do futuro e desconfiado do mundo", relembra o bombeiro civil. O empurrão para a mudança veio por meio de um desafio de sua terapeuta para buscar novas conexões e investir na vontade antiga de aprender a dançar.

Ed Alves/CB/D.A Press - 11/06/2026. Ed Alves/CB/D.A Press. Cidades. Especial Dia dos Namorados. Historia de Lincoln e Carmen.

Uma coincidência com um velho amigo durante o passeio com o cachorro acabou por levá-lo até a aula inaugural gratuita de dança de salão dentro do próprio condomínio. Ali, o destino havia reservado o espaço de Carmen, que também frequentava as aulas de forró, dança do ventre e cigana como um refúgio para amenizar a dor da viuvez e a perda precoce de um filho de 21 anos.

"Eu estava me recuperando de um processo de luto longo, com bastante receio de me relacionar. A gente passa a vida casada e, de repente, o mundo parece diferente demais", pontua Carmen. A diferença de idade de 16 anos também acendeu um alerta inicial na gestora, mas a convivência no grupo de dança dissolveu as barreiras ao longo de dois meses de passos ensaiados.

Lincoln recorda, entre sorrisos, a conexão dos primeiros contatos no salão de dança. "Achei ela cheirosa, bonita, gentil e de um olhar muito terno. Fui me encantando pelo perfume, pelo jeito dela. Me apaixonei." A iniciativa de mudar o rumo das coisas partiu dele, após uma apresentação de dança de Carmen.

Ao caminharem até o estacionamento, o bombeiro civil disparou a frase que selaria o destino do casal. "Vamos 'bagunçar' logo essa amizade." O beijo roubado deu início a um namoro de pouco mais de um ano antes do pedido no restaurante.

Encantamentos

A sintonia entre os dois se estendeu para além dos palcos e das salas de aula. A celebração após o pedido de casamento continuou na chegada ao lar, ornamentado pelo sobrinho de Lincoln com pétalas de rosas e velas em formato de coração. "Ali foi a nossa união definitiva", resume o bombeiro, que se derrete ao falar da resiliência da esposa. "Ela é uma menina no corpo de uma mulher que já viveu muito. Tem um brilho e um alto-astral espetaculares."

Do outro lado, o sentimento de segurança mútua é uma máxima dentro do relacionamento. Para Carmen, o respeito e o caráter do companheiro foram pilares para a renovação de sua afetividade. "O amor constrói muitas coisas, basta estar com o coração aberto. Fui sentindo confiança ao ver como ele tratava as pessoas, sempre muito educado e solícito."

Hoje, a rotina do casal envolve caminhadas no Parque Olhos d'Água, passeios de caiaque pelo Lago Paranoá, sessões de cinema e trilhas sonoras das décadas de 1960 a 1980, como Slave to love,
de Bryan Ferri. Sempre que possível, eles estacionam o carro em um ponto alto do condomínio para tomar açaí de mãos dadas enquanto observam as estrelas e o movimento de Brasília.

A necessidade de partilha, aliás, reflete-se até nos compromissos mais banais da rotina fora dos fins de semana, como as idas ao supermercado ou as consultas médicas, nas quais fazem questão de estarem sempre lado a lado. Para o futuro próximo, a meta é desacelerar o ritmo profissional para colocar o pé na estrada com maior frequência e explorar novos destinos turísticos.

"A gente gosta de fazer tudo junto. Se um vai ao médico o outro acompanha, se vai comprar um pão vamos os dois. O nosso plano para os próximos anos é ter mais tempo livre para viajar bastante e conhecer o mundo, aproveitando cada minuto que temos", projeta Carmen.

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