Operação Compliance Zero

BRB: vetos da governadora ao texto sancionado dividem o cenário

Distritais divergem sobre possibilidade de a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) derrubar vetos da governadora Celina Leão (PP). Especialistas apontam risco de judicialização do empréstimo de R$ 6,6 bilhões para socorrer o Banco de Brasília (BRB)

Após a sanção da lei que autoriza um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para socorrer o Banco de Brasília (BRB), o mercado financeiro e o cenário político do Distrito Federal se movimentam em torno dos próximos desdobramentos da operação. O texto, sancionado pela governadora Celina Leão (PP) com 14 vetos, trata das medidas adotadas pelo DF, na condição de acionista controlador, para reforçar a situação econômico-financeira do banco. Segundo especialistas ouvidos pelo Correio, os vetos podem ser derrubados pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e, caso mantidos, provocar uma judicialização da questão. 

O deputado distrital Pastor Daniel de Castro (PP) afirmou considerar pouco provável que os vetos sejam derrubados pela Câmara Legislativa. "Sempre tem a possibilidade, porém não vejo razão. A base dela (Celina Leão) na Casa está firme", declarou. "Nós seguimos firmes no propósito de recuperar o banco e salvar os empregos dos servidores do BRB", completou.

Por outro lado, Fábio Felix (PSol) disse esperar que os vetos sejam analisados pela Câmara Legislativa o mais rapidamente possível. "Devem passar pela Câmara Legislativa, conforme manda a Lei Orgânica. Nossa expectativa é de que eles sejam apreciados o quanto antes, sobretudo porque tratam de temas muito importantes para a cidade, como a garantia de concursos públicos e de nomeações nas mais diversas carreiras", declarou.

Desdobramentos

O professor de políticas públicas do Ibmec Brasília Jackson De Toni avalia que os vetos alteram significativamente os mecanismos de controle previstos originalmente pela Câmara Legislativa para a operação de crédito destinada ao BRB. Segundo ele, a retirada de dispositivos que previam o ressarcimento ao DF, a manutenção de pelo menos 52% das ações com direito a voto sob controle estatal e a obrigatoriedade de informar previamente a CLDF sobre as condições do empréstimo ampliou a autonomia do Executivo na condução da operação. "Essa flexibilização diminui o controle legislativo preventivo sobre uma operação estimada em R$ 6,6 bilhões, enfraquecendo as garantias institucionais que visavam resguardar o erário e proteger os acionistas minoritários na reestruturação da empresa pública", afirmou.

Na avaliação do especialista, os próximos desdobramentos devem ocorrer, principalmente, nas esferas política e jurídica. Ele lembra que a Câmara Legislativa ainda pode derrubar os vetos, desde que obtenha maioria absoluta dos deputados distritais. "A consolidação desse cenário representaria o fortalecimento do sistema de freios e contrapesos, impondo à administração pública o retorno de um padrão mais elevado de compliance e transparência", afirmou.

Caso os vetos sejam mantidos, Jackson De Toni considera provável a judicialização da questão. "Para a administração pública, esse cenário de embate jurídico traduz-se em insegurança institucional e morosidade, com potencial de gerar ruídos no mercado financeiro e atrasar a captação do socorro emergencial, prolongando a exposição do banco à crise de liquidez", alertou.

Efeitos econômicos

Professor de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva avalia que a falta de informações públicas pode aumentar a desconfiança do mercado. "A transparência é o antídoto para o risco de governança. Ao vetar dispositivos que exigiam relatórios semestrais detalhados, o Executivo enfraquece o controle social e legislativo", disse. Segundo ele, a ausência de dados sobre fluxo de caixa, taxas de juros e planos de ressarcimento cria um ambiente de incerteza. "Para o mercado, essa opacidade eleva o prêmio de risco sobre os títulos públicos do DF e gera desconfiança sobre a real sustentabilidade do banco", acrescentou.

O professor destacou que o acordo homologado pelo STF impõe metas de ajuste fiscal ao Distrito Federal, o que torna a transparência ainda mais relevante. "Sem transparência, torna-se difícil para a sociedade e para os órgãos de controle verificar se os recursos estão sendo usados exclusivamente para o saneamento do banco ou se estão sendo drenados para cobrir ineficiências operacionais, o que compromete a credibilidade da política econômica do GDF", avaliou.

Renan Silva considera, ainda, que há possibilidade de judicialização da operação. "Uma eventual revisão forçada pelo Judiciário pode travar a operação bilionária quando o BRB mais precisa de liquidez, forçando o GDF a buscar alternativas emergenciais ainda mais custosas ou restritivas para manter o banco operante", destacou.

Esclarecimentos

Na última terça-feira (23/6), o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) determinou a oitiva prévia da Casa Civil, da Secretaria de Economia e do BRB, com prazo de cinco dias úteis, que termina nesta terça-feira (30/6), e abriu apuração sobre a operação de crédito prevista no acordo homologado pelo STF.

A medida atende a representação do deputado distrital Fábio Felix, que questiona a aprovação do Projeto de Lei nº 2.363/2026 pela Câmara Legislativa sem que fossem apresentadas previamente as condições financeiras do empréstimo, como taxa de juros, prazo, carência, custo total da operação e impactos fiscais. 

Segundo o parlamentar, a autorização concedida ao Executivo permitiu a contratação da dívida sem a definição prévia de seus termos, comprometendo o controle orçamentário e financeiro. Na representação, Fábio Felix argumenta que o acordo firmado no STF prevê acompanhamento do TCDF e defende que a operação só seja formalizada após a análise dos documentos e estudos necessários para verificar sua legalidade, impacto fiscal e conformidade com as regras de responsabilidade fiscal.


 

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