
A morte de duas mulheres durante o trabalho de parto no Hospital Regional de Samambaia (HRSam) num intervalo de apenas três dias mobilizou a governadora Celina Leão (PP) e o Ministério da Saúde. A chefe do Executivo local frisou que os casos estão sendo tratados como prioridade e determinou uma investigação rigorosa dos procedimentos das duas gestantes, uma de 25 e a outra de 36 anos.
As crianças sobreviveram ao parto, mas uma delas segue internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ontem, o Correio esteve no hospital e entrevistou o diretor, Rafael Guimuzzi, e o superintendente da Região de Saúde Sudoeste, José Henrique Alencar. De acordo com os representantes da unidade de saúde, na ocasião, as equipes estavam completas e os protocolos de apuração foram iniciados com celeridade.
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"Chamamos várias reuniões. O secretário (de saúde), ontem, chamou toda a equipe, porque a gente não vai tolerar esse tipo de atendimento nos nossos hospitais. Estamos reforçando as nossas diretorias, as nossas chefias, trabalhando muito na humanização. Há também uma previsão de mudar o protocolo do atendimento pré-natal. Isso também está sendo feito pelas equipes e eu tenho certeza de que a gente precisa realmente melhorar", afirmou Celina.
Sobre a apuração dos casos, Celina afirmou que todas as imagens do sistema de monitoramento da rede pública estão sendo disponibilizadas às famílias e às autoridades responsáveis pelas investigações. "Nós temos 100% da nossa saúde monitorada. Não tem como falar o que não aconteceu. Está lá nas câmeras, e a gente está abrindo essas câmeras para todos os familiares, para a polícia também, e apurando. Não vamos passar a mão na cabeça de ninguém", destacou.
O Ministério da Saúde afirmou que está em contato com a Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) para acompanhar a apuração do caso e apoiar na análise técnica, e destacou a importância das consultas de pré-natal para prevenir situações de gravidade durante a gestação, parto e puerpério. "A nova Caderneta da Gestante orienta a elaboração do Plano de Parto, tanto pelo profissional quanto pelas gestantes, para que a mãe registre suas preferências para o momento do parto e nascimento: presença de acompanhante, métodos de alívio da dor e outros cuidados desejados", destacou o Ministério.
Reavaliando etapas
Rafael Guimuzzi afirmou que a unidade instaurou protocolos internos para apurar as duas mortes. Segundo ele, a investigação segue o chamado Protocolo de Londres, metodologia utilizada para revisar todas as etapas da assistência prestada. "Ainda é muito cedo para dizer se houve alguma falha assistencial da equipe ou se foi uma fatalidade inerente ao caso. O que podemos afirmar é que, assim que ocorreu o primeiro óbito, na sexta-feira, a instituição iniciou imediatamente esse processo de revisão. Quando reavaliamos o processo, buscamos identificar fragilidades e corrigi-las para evitar que situações semelhantes voltem a acontecer", explicou.
Segundo relato dos familiares, em ambos os casos, as gestantes chegaram ao hospital em trabalho de parto e pediram cesariana, mas foram submetidas ao parto normal. Guimuzzi ressaltou que a definição da via de parto é uma decisão técnica baseada em protocolos científicos. "A participação da paciente na tomada de decisão é muito importante, mas a ciência mostra quais são as situações em que o parto vaginal é mais seguro. Existem protocolos do Ministério da Saúde e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) que orientam essa conduta. A decisão final é técnica e cabe ao profissional", afirmou.
O diretor acrescentou que, no caso que ocorreu na última sexta-feira (veja o quadro), a equipe identificou sinais de sofrimento fetal e realizou a cesariana de forma imediata. "Entre o início da cirurgia e a retirada do bebê foram cerca de cinco minutos, o que demonstra a rapidez da intervenção para garantir a maior segurança possível". Segundo ele, a definição da causa da morte pelo Instituto de Medicina Legal (IML) será fundamental para esclarecer o que ocorreu e auxiliar nas investigações.
Diante da repercussão dos casos, Guimuzzi reconheceu a preocupação das gestantes atendidas na unidade e afirmou que o hospital revisou todos os protocolos de assistência obstétrica. "Entendemos a angústia das futuras mães, mas posso garantir, como responsável técnico da unidade, que todo o processo de atendimento foi revisado e estamos trabalhando de forma incansável para manter a assistência dentro dos protocolos exigidos. Não há motivo para interromper o atendimento às gestantes. A qualidade do cuidado está garantida", assegurou.
Ao Correio, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) informou que os casos seguem em investigação e que o delegado responsável só irá se manifestar após a conclusão das apurações.
Apoio
José Henrique Alencar explicou que as duas mortes estão sendo investigadas com acompanhamento da SES-DF. "Abrimos um processo específico para cada caso, porque essas informações precisam ser tratadas com sigilo para garantir o direito de defesa e o contraditório. Nossa função agora é evitar recorrências e dar tranquilidade às mães que utilizam a rede pública. A superintendência, a direção e a Secretaria de Saúde estão empenhadas para que todos os fatos sejam analisados com rigor, e eventuais erros serão apurados com a devida cautela", afirmou.
*Colaborou Davi Cruz
Saiba Mais
Hospital de Base
A morte do vigilante Rodrigo Resende do Prado, 48 anos, na recepção do Hospital de Base enquanto aguardava atendimento na tarde do último domingo também alertou à população sobre o sistema público de saúde. Ele foi levado ao hospital pela irmã e o cunhado com fortes dores no peito. O quadro evoluiu para falta de ar, ele perdeu a consciência e morreu, antes de ser avaliado por um médico. O Instituto de Gestão Estratégica (Iges), responsável pela administração da unidade de saúde, informou que também foi iniciado o Protocolo de Londres para avaliar todas as etapas da assistência prestada. "As investigações seguem em andamento e qualquer conclusão será baseada exclusivamente na análise técnica de todas as evidências disponíveis", informou o instituto, que ressaltou que só divulgará o resultado da apuração após a conclusão dos trabalhos.
Relembre os casos
Sexta-feira (10/7)
Maria Graciana Andrade Alves, 36 anos, deu entrada no HRSam com 41 semanas de gestação para dar à luz. Segundo a família, ela relatou que não tinha condições de passar por um parto normal, mas o procedimento teria sido mantido por várias horas.
O quadro evoluiu para uma hemorragia grave, retirada do útero e paradas cardiorrespiratórias. Maria Graciana morreu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A filha sobreviveu e permanece internada.
Segunda-feira (13/7)
Maria Aparecida Caldino dos Santos, 25 anos, deu entrada no HRSam para dar à luz a segunda filha. Segundo relatos de familiares, a gestante queria passar por uma cesariana, mas teria sido submetida a um parto normal contra a vontade dela.
Familiares afirmam que a mulher estava sem forças durante o parto e que os profissionais insistiam para que ela continuasse fazendo esforço. Horas depois, a equipe médica informou o óbito de Maria Aparecida. A bebê sobreviveu e está sob os cuidados de familiares.
Protocolo de Londres
Protocolo de Londres: método internacional de investigação de incidentes na saúde que reconstitui os fatos, identifica falhas no atendimento e propõe melhorias para prevenir novos casos.

Cidades DF
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