Guardiões de lembranças

Artesãos ajudam a contar as histórias de Brasília aos visitantes

Memórias vivas do turismo candango, os vendedores de souvenirs que emolduram o Eixo Monumental presenciaram transformações políticas, sociais e urbanas da capital ao longo dos anos a partir do mesmo ponto de trabalho: a Catedral Metropolitana de Brasília

A artesã e vendedora Tânia Bispo já viu de tudo acontecer na Esplanada dos Ministérios  -  (crédito: Letícia Mouhamad/CB/DA Press)
A artesã e vendedora Tânia Bispo já viu de tudo acontecer na Esplanada dos Ministérios - (crédito: Letícia Mouhamad/CB/DA Press)

Uma cidade bonita, calma e organizada. Assim elogiam os turistas que passam em frente à Catedral Metropolitana de Brasília. "Não tem quem não goste daqui", pontua Tânia Bispo, 58 anos, natural de Salvador (BA). Ela chegou à capital há 30 anos, a convite da família, mas confessa ter precisado de três tentativas até fincar raízes de vez no Cerrado — o custo de vida inicial assustou. Moradora do Gama, começou a vida no comércio, transportando cocos no ônibus para vender na área central do Plano Piloto. O tempo passou, a estrutura melhorou e a vocação mudou.

Do seu ponto de venda na Esplanada, hoje com lembranças da capital federal, Tânia já viu de tudo acontecer. Certa vez, uma movimentação estranha próxima à Rodoviária do Plano Piloto chamou sua atenção. Era domingo, dia de manifestação. Diferente das demais que presenciou na Esplanada, aquela a marcou. "Vi começar um quebra-quebra e pensei: 'Rapaz, eu vou é arrumar minhas coisas e me mandar'". Para ela, não dá para esquecer o 8 de janeiro de 2023.

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"É uma lembrança triste, mas acho que serve para reforçar a importância da nossa democracia, não é?", comenta a trabalhadora, enquanto organiza as miniaturas de pedra-sabão que representam os Três Poderes e a estátua da Justiça. Ali, Tânia também vende chaveiros, ímãs de geladeira, canecas e artesanatos produzidos em madeira por ela mesma, como reproduções da Catedral. "Alguns itens eu peço para cortar a base, depois colo e monto. Gosto desse trabalho, até tirei minha carteirinha de artesã", diz ela, entre um atendimento e outro.

A escolha pelo local foi estratégica: "É o nosso maior cartão-postal, afinal, a imagem da Catedral está em todo lugar", observa Tânia, cujos filhos e marido seguiram o mesmo caminho no comércio artesanal e de água de coco entre o Museu Nacional e a Esplanada. Sobre a preferência do público, a lógica é prática. "Chaveiro e ímãs são os itens que mais saem. É barato e leve. Ninguém quer voltar para casa com muito peso ou volume na mala. A maioria chega aqui e compra uns 10 chaveiros de uma vez. Levam para toda a família", conta, rindo.

Tradição que floresce

A poucos passos de Tânia, o cotidiano da Esplanada ganha outros sotaques e memórias que se entrelaçam com a própria história da construção do Distrito Federal. Divino Carvalho de Souza, 70, carrega no rosto e nas mãos as lembranças dos primeiros anos de Brasília. Natural de Cristalina (GO), chegou jovem para ajudar a erguer a cidade. Ajudou no calçamento do Congresso Nacional, assentou mármores nos anexos e trabalhou no Memorial JK.

Há cerca de 25 anos, trocou as ferramentas da construção civil pelas miniaturas em resina e pedra-sabão. Perguntado sobre a rotina sob o sol do Cerrado, "seu" Divino, como é chamado, responde com bom humor: "Aqui tudo que põe vende, mas a Catedral é a campeã", conta ele, que se vira no inglês e no francês para garantir o trocado com os gringos.

A alguns metros está a banca de Guajará Ferreira de Paula, 61, o guardião das flores secas e do capim-dourado que encantam quem passa pela Catedral. O negócio, na verdade, é um legado de família: começou lá atrás, na década de 1960, com os tios — que já vendiam no local bem antes do monumento ser o que é hoje. Em 1983, o cearense chegou a Brasília para ajudar o irmão mais velho na banca. Hoje, já são 44 anos dedicados ao mesmo ofício, mantido a muitas mãos a partir de um galpão em Ceilândia, onde mora.

"Isso aqui é um trabalho braçal, mas é uma terapia", conta Guajará. Para manter a banca viva, ele e os irmãos fazem um rodízio semanal entre a produção artesanal no galpão do P Norte, onde lavam, tingem as sempre-vivas com anilina e trançam as peças manualmente, e o atendimento ao público na Esplanada. "É puxado, mas não troco isso por nada", diz. 

Ao longo de mais de quatro décadas, Guajará viu a história do país passar diante dos seus olhos. Lembra do mar de gente na época das Diretas Já, quando mais de 200 mil pessoas ocuparam a Esplanada. "Para a gente, era bom porque vinha muita gente de fora e comprava. Nunca fomos prejudicados", recorda.

Hoje, entre o protetor solar, o chapéu de palha e a sombra do guarda-sol, ele vira até guia de turismo. "Indico os ministérios, explico sobre a cidade... É gratificante. Teve gente que comprou flor comigo há 15 anos e outro dia passou aqui, me reconheceu e comprou de novo. A gente fica protegido por Nossa Senhora Aparecida e vai tocando."

Mala do visitante

E é justamente para esses visitantes que o trabalho dos três ganha sentido. Vindos de São Paulo após uma esticada na Chapada dos Veadeiros, os amigos Sabrina Cândido e Pedro Henrique Shinohara, ambos de 30 anos, passeavam fascinados pela vastidão monumental da capital. "Tudo é muito grande, bonito e performático", resumiu Pedro. Na sacola, a diversidade que define a banca candanga: miniaturas da Catedral para a fé, ímãs panorâmicos para a geladeira e até réplicas de figuras políticas que agradam aos gostos mais variados da família.

A catarinense Graziele Pelizar, 29, resumiu em poucas palavras o sentimento de quem passa por ali antes de despachar as malas de volta para casa. "É uma cidade muito linda e planejada." Ao levarem uma miniatura, um chaveiro ou um ímã na mala, os visitantes guardam mais do que um símbolo arquitetônico; levam consigo o trabalho de quem faz do coração do Brasil o seu próprio teto e sustento.

  • De São Paulo, Sabrina Cândido e Pedro Henrique Shinohara garantiram souvenirs
    De São Paulo, Sabrina Cândido e Pedro Henrique Shinohara garantiram souvenirs Foto: Letícia Mouhamad/CB/DA Press
  • Miniaturas de pedra-sabão e resina da banca de Divino Carvalho
    Miniaturas de pedra-sabão e resina da banca de Divino Carvalho Foto: Fotos: Letícia Mouhamad/CB/D.A Press
  • Flores secas do Cerrado encantam os turistas que visitam Brasília
    Flores secas do Cerrado encantam os turistas que visitam Brasília Foto: Letícia Mouhamad/CB/DA Press
  • "Seu" Divino trabalha como vendedor de miniaturas há 25 anos Foto: Letícia Mouhamad/CB/DA Press
  • Miniaturas de pedra-sabão e resina da banca de Divino Carvalho
    Miniaturas de pedra-sabão e resina da banca de Divino Carvalho Foto: Letícia Mouhamad/CB/DA Press
  • Guajará Ferreira de Paula trabalha no ramo de flores secas há mais de quatro décadas
    Guajará Ferreira de Paula trabalha no ramo de flores secas há mais de quatro décadas Foto: Letícia Mouhamad/CB/DA Press
  • Flores secas do Cerrado encantam os turistas que visitam Brasília
    Flores secas do Cerrado encantam os turistas que visitam Brasília Foto: Letícia Mouhamad/CB/DA Press
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postado em 15/08/2026 05:00
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