
A conexão com o Paraguai foi um dos pontos identificados pela Polícia Civil (PCDF) durante a operação Narciso, que desarticulou quatro núcleos suspeitos de atuar na fabricação e distribuição clandestina de anabolizantes e medicamentos falsificados. De acordo com o delegado da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf/ DDCON), Rodrigo Carbone, os grupos importavam os materiais utilizados na produção das substâncias, que depois eram fabricadas de maneira improvisada e distribuídas no mercado nacional.
A operação cumpriu 43 mandados de prisão, 31 preventivas e 12 temporários, e 64 mandados de busca e apreensão. Além disso, também foi determinado o bloqueio de R$ 32 milhões em contas dos investigados, além do sequestro de veículos importados. A ação ocorreu, simultaneamente, em oito estados. A investigação havia identificado uma estrutura interestadual, com atuação no Distrito Federal e ramificações em diferentes unidades da Federação.
De acordo com o delegado Carbone, a atuação internacional foi fundamental para localizar integrantes que tentavam escapar da polícia. A Polícia Federal colaborou nas ações na fronteira do Brasil com o Paraguai, enquanto a polícia paraguaia também participou da operação. Com o trabalho conjunto, investigados de outros crimes, que estavam foragidos, foram presos no território paraguaio.
A investigação também identificou um núcleo responsável pela lavagem do dinheiro obtido pelas organizações. A estrutura estava concentrada em Foz do Iguaçu, no Paraná, onde os integrantes do grupo atuavam em conjunto com doleiros para ocultar e movimentar os valores. “Esse núcleo era o responsável por participar com doleiros da lavagem desse dinheiro, para que esse dinheiro pudesse ser reintegrado na cadeia produtiva dessas substâncias”, afirmou.
A atuação em Foz do Iguaçu levou à prisão de sete pessoas por suspeita de envolvimento com a lavagem de dinheiro. Segundo Carbone, os investigados mantinham um padrão de vida elevado e ostentavam patrimônio em bairros nobres nos estados onde a organização mantinha atuação. No DF, as equipes cumpriram mandados em diferentes localidades, inclusive em imóveis considerados de alto padrão, onde também foram encontrados carros importados e bens de luxo.
Para o investigador, o principal impacto da investigação está relacionado ao risco à saúde dos consumidores. “Não se trata apenas de comercialização de anabolizante, que por si só já é uma substância nociva. O anabolizante mesmo dentro dos padrões e mesmo com precisão médica já tem os efeitos deletérios, no entanto, esses grupos tinham um viés da falsificação, o que é muito pior, muito mais grave”, disse.
Mercado
Segundo a investigação, cerca de 80% do mercado de consumo de anabolizantes no Brasil seria composto por produtos falsificados. Carbone relacionou esse cenário ao lucro obtido pelos grupos criminosos, que conseguiam fabricar as substâncias com baixo custo e colocá-las no mercado como se fossem produtos legítimos.
A operação também alcançou pessoas que tinham diferentes formas de participação na cadeia criminosa. Entre os alvos estão influenciadores, nutricionistas, biomédicos e farmacêuticos. “Com uma geração que demanda mais da estética desses produtos de redes sociais e tudo, a situação se agrava muito mais”, afirmou Carbone. Segundo ele, há relatos de pessoas que morreram em decorrência do uso indiscriminado dessas substâncias.
A investigação apura os crimes de falsificação de medicamentos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O delegado também citou a possibilidade de enquadramento por tráfico de drogas, uma vez que algumas substâncias encontradas estão entre aquelas vedadas pela Portaria 344, que estabelece substâncias sujeitas a controle especial e que podem ser enquadradas como entorpecentes.
A análise dos materiais apreendidos durante a operação deverá contribuir para o avanço das investigações e para a identificação de outras possíveis ramificações da organização. As penas podem chegar entre 40 e 50 anos de prisão.

Cidades DF
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