
O Distrito Federal registrou mais de uma dezena de episódios de violência envolvendo pessoas em situação de rua na primeira quinzena deste mês. Em menos de duas semanas, as autoridades apuraram ocorrências concentradas principalmente no Plano Piloto, mas também em outras regiões, como Ceilândia, inserindo a pauta da vulnerabilidade social e da segurança no debate político. O tema divide opiniões entre a necessidade de assistência social e a aplicação de medidas de combate à criminalidade.
O dado mais recente apurado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (EPEDF), de janeiro de 2025, apontava 3.521 pessoas vivendo nas ruas da capital.
Em 4 de agosto, uma mulher foi ferida com um pedaço de vidro em uma parada de ônibus no Setor Comercial Sul por um homem com 11 passagens anteriores pela polícia.
Três dias depois, na madrugada do dia 7, o zelador Wanderlei Souza Lima, de 53 anos, foi agredido no Comércio Local Norte (CLN) 314, após um desentendimento com um morador de rua. Wanderlei segue internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base, com quadro de falha renal e complicações neurocirúrgicas.
Outro caso ocorreu no dia 11, quando Bruno Batista de Jesus, 30, portando um facão e uma faca, entrou em um edifício na Super Quadra Sul (SQS) 302, feriu um morador e manteve uma idosa de 95 anos como refém, até ser baleado e morto pela Polícia Militar (PMDF).
Na mesma quadra, no dia seguinte, câmeras de segurança registraram Celso Delfino Pinheiro, 41 anos, agredindo uma criança de 5 anos com um chute na cabeça. O histórico recente aponta ainda o assassinato a facadas de uma mulher em situação de rua na QNM 3, em Ceilândia, e um confronto com faca e pedras envolvendo três pessoas também em situação de rua, em Águas Claras.
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Segurança
A sequência de casos dos últimos dias gera leituras distintas. Do ponto de vista técnico, a assistente social, especialista em política social e mestra em psicologia Erci Ribeiro sustenta que a agressividade reflete instabilidades psicológicas ou uso severo de substâncias, e não um traço generalizado da população vulnerável.
"As variações, tanto quanto ao uso quanto à abstinência, levam a ações que destoam das questões do padrão que se tem. Então, elas podem ter impulsos agressivos, quanto também depressivos, como outros impactos e consequências inerentes que se originam desses transtornos ou da dependência de álcool e outras drogas", explica.
A especialista alerta sobre o risco de análises generalizadas, afirmando que "essas impulsividades dessas pessoas que agrediram transeuntes na via pública exigem identificar quem são esses sujeitos para justamente não cair na padronização ou achar que todos têm um mesmo padrão de comportamento, porque isso não procede".
A assistente social, doutora em antropologia social e especialista em direitos humanos Izis Morais critica a infraestrutura de saúde mental na capital. Ao avaliar a Política Distrital para População em Situação de Rua, Izis opina que "o que a gente pode falar é que esses planos de ação que o GDF apresentou são uma carta de intenções. Não é uma política que se tem interesse de implementar de fato".
A Secretaria de Segurança Pública informou ao Correio que "a atuação das forças de segurança é orientada por relatórios de inteligência e análises das manchas criminais, que identificam os dias, horários e locais de maior incidência de cada tipo de crime". Conforme a pasta, esses estudos subsidiam o planejamento do policiamento ostensivo, das operações de prevenção e repressão qualificada da Polícia Militar, e das ações de investigação da Polícia Civil, com o objetivo de identificar e desarticular grupos criminosos especializados.
De acordo com a SSP-DF, as ações também são fortalecidas por uma plataforma tecnológica que integra câmeras públicas e privadas e amplia a capacidade de monitoramento, subsidiando a atuação das forças de segurança e tornando mais rápida e eficiente a resposta às ocorrências. "Há, ainda, ações coordenadas de atendimento humanizado e ampliação do acesso a serviços públicos em regiões e pontos previamente identificados como de maior concentração desse público em todo o Distrito Federal", completou.
Procuradas, as secretarias de Desenvolvimento Social e de Justiça e Cidadania não responderam até o fechamento desta edição.

Cidades DF
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