
Representantes do setor atacadista apontaram, nesta quarta-feira (19/8), os impactos esperados de mudanças tributárias e trabalhistas, além do aumento da inadimplência e da redução do consumo, como alguns dos principais desafios para as empresas em 2026. As questões foram discutidas durante evento promovido pelo Correio Braziliense, que reuniu empresários e representantes do segmento para tratar das perspectivas para a atividade econômica no Distrito Federal.
O presidente do Sindiatacadista-DF, Alaor Gomes Neto, afirmou que o setor enfrenta uma série de medidas que podem elevar os custos das empresas. Entre os pontos citados estão a reforma tributária, a possível extinção da escala 6x1, o adicional de periculosidade para motociclistas e os efeitos da mudança no comportamento dos consumidores.
“Todas essas medidas vão onerar o setor”, afirmou Alaor. Segundo ele, as empresas terão de buscar soluções internas para absorver os novos custos. O dirigente também apontou uma diferença na estrutura de custos entre empresas tradicionais e plataformas digitais. “O setor atacadista paga, enquanto as plataformas digitais não pagam, porque seus trabalhadores são pessoas jurídicas, enquanto os nossos são celetistas (CLT).”
Segundo semestre deve ser mais favorável
O diretor executivo do Sindiatacadista, Anderson Pereira Nunes, avaliou que o segundo semestre costuma apresentar desempenho comercial mais favorável para o setor. Segundo ele, os primeiros meses do ano concentram despesas como material escolar, impostos e outros compromissos financeiros, enquanto o período que antecede as festas de fim de ano tende a estimular o consumo.
"Geralmente o segundo semestre, ele é mais favorável e mais rentável do que o primeiro. O primeiro tem muitas despesas pessoais e a população geralmente fica focada em comprar material escolar, pagar os impostos, IPTU, IPVA. Então, geralmente o segundo semestre, até devido as festas natalinas, ele é mais comercialmente favorável às empresas do setor."
Para 2026, no entanto, o cenário é de cautela. Anderson citou o endividamento da população e a dificuldade dos consumidores em ampliar os gastos.
"Com relação a 2026, tem expectativa de ano eleitoral, a questão toda de uma retração econômica que a gente tá vendo que as pessoas estão mais endividadas e com uma dificuldade de expandir os seus gastos."
Na avaliação do dirigente, a situação do consumidor afeta diretamente os demais elos da cadeia. A redução do poder de compra chega ao varejista, que passa a ter menos recursos para adquirir mercadorias, atingindo também o atacadista e, posteriormente, a indústria.
Reforma tributária e inadimplência preocupam
A reforma tributária aparece entre os principais pontos de atenção para o segmento. Alaor afirmou que as mudanças previstas para entrar em vigor podem representar novos custos para as empresas, enquanto Anderson destacou também o avanço da inadimplência entre pessoas físicas e jurídicas.
“Se o nosso cliente que, que não nos pagar, né, tem uma dificuldade, se o se o consumidor final não tem o recurso para consumir, o cliente varejista não tem o caixa necessário para comprar a mercadoria, nem tampouco cumprir as obrigações junto a fornecedores”, explicou Anderson.
Mudança na jornada pode elevar custos
A eventual adoção da escala 6x1 de trabalho também foi apontada como motivo de preocupação. Segundo Anderson, a alteração poderia elevar em cerca de 10% o custo da folha de pagamento das empresas atacadistas.
Ele ressaltou ainda que parte das operações do segmento ocorre durante a noite, especialmente para permitir que caminhões sejam carregados e que as mercadorias estejam em circulação no início do dia. Nesse cenário, uma redução da jornada poderia ampliar a dificuldade já existente para encontrar profissionais dispostos a trabalhar no período noturno.
“Então, se hoje já é difícil você encontrar profissionais, é, capacitados e que, que se interessem, é, pela, pelo desempenho e por trabalho noturno, na hora que você reduzir aí, a, o tempo de trabalho, o tempo de jornada, vai ser mais escasso ainda”, afirmou.
Bets e canetas emagrecedoras mudam consumo
Outro ponto levantado durante o encontro foi a mudança na destinação do dinheiro dos consumidores. Alaor citou o crescimento das apostas on-line e afirmou que parte dos recursos que anteriormente eram direcionados à alimentação, ao lazer e à diversão passou a ser utilizada nos sites de apostas.
“Isso afeta muito o consumo, já sentimos no faturamento. O dinheiro que seria usado no consumo está sendo usado nos sites de aposta (bets). As pessoas estão tirando o dinheiro da alimentação, lazer e diversão para usar nos sites de aposta”, disse.
O presidente do Sindiatacadista também relacionou a redução do consumo ao uso de medicamentos para emagrecimento, mencionando a importação irregular de produtos do Paraguai como outro fator que, segundo ele, já tem sido percebido no faturamento das empresas.
Já Anderson Pereira Nunes resumiu o impacto como um efeito em cadeia: “se um desses elos está enfraquecido, toda a cadeia é ameaçada e toda a cadeia fica fragilizada”.
Liderança feminina ganha espaço no atacado
O encontro também reuniu as irmães e empresárias Rafaela e Caroline Dal Berto, integrantes da segunda geração de uma empresa do setor atacadista. Após a morte do pai, há cerca de quatro anos, as duas assumiram a gestão da companhia ao lado da mãe.
As empresárias destacaram a presença feminina e jovem em um segmento historicamente marcado pela predominância masculina. Segundo elas, a transição para uma gestão feminina foi acompanhada por receptividade do setor.
“Fomos muito abraçadas pelo setor, onde achávamos que não teríamos espaço por ser um ambiente masculino de homens mais velhos. Fomos muito queridas e bem recepcionadas”, relatou Caroline. Elas também associaram a abertura para a presença feminina ao movimento de ESG, que estimula a participação de mulheres em posições de liderança.
Correio destaca aproximação com setor produtivo
O vice-presidente do Correio Braziliense, André Lamounier, destacou a importância de reunir diferentes representantes do comércio para discutir os rumos da economia. Para ele, o setor exerce papel relevante na movimentação da cadeia econômica.
“Hoje o comércio é um segmento absolutamente importante, que é o papel da bússola da economia. Quando o setor atacado é forte, o movimento da cadeia do varejo faz sentido”, afirmou.
Lamounier ressaltou ainda que encontros desse tipo permitem aproximar o veículo de comunicação do mercado e criar espaço para o diálogo entre diferentes setores. “A importância desse tipo de encontro é de dialogar com o mercado e aproximar os setores”, disse.
O presidente do Correio Braziliense, Guilherme Machado, afirmou que o evento faz parte de um projeto voltado à discussão dos temas relacionados ao empresariado do Distrito Federal. Segundo ele, a proposta é ampliar o espaço para representantes de diferentes setores da sociedade.
“Este é o novo projeto que nós estamos retomando para fazer esse debate no que diz respeito ao empresariado do Distrito Federal. A ideia é trazer para dentro do Corredor Brasil as pessoas que fazem a economia de Brasília se movimentar”, afirmou.
Guilherme também destacou a comunicação como instrumento para promover esses debates e afirmou que a iniciativa pretende abrir espaço para sindicatos, instituições e outros setores da sociedade organizada.
“O objetivo é dar espaço para os setores da sociedade organizada, como sindicatos e instituições de saúde ou caridade, para que tenham voz e espaço no Correio, na TV Brasília e na Rádio, para falar com a sociedade”.
Para Anderson Pereira, a aproximação entre o setor produtivo e o jornal também permite levar ao público as diferentes percepções dos empresários sobre a economia.
“Trazer essa miscelânea de entendimentos para um jornal, para um veículo de comunicação que representa Brasília, é aproximar a sociedade dos empresários do setor produtivo”, afirmou.

Cidades DF
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