Investigação

Polícia prende onze agiotas que extorquiam feirantes do DF

Grupo oferecia empréstimos de R$ 5 mil a R$ 35 mil, com juros que passavam de 20% ao mês. Principal alvo eram comerciantes do DF, que recebiam ameaças de morte por meio de aplicativos de mensagens. Uma suspeita está foragida

Grupo atraia as vítimas em feiras do Distrito Federal -  (crédito: PCDF/Divulgação)
Grupo atraia as vítimas em feiras do Distrito Federal - (crédito: PCDF/Divulgação)

A denúncia de uma filha que perdeu o pai, vítima de suicídio, levou a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) a uma organização criminosa de agiotas que extorquiam e ameaçavam comerciantes do DF. Onze investigados, entre eles um sargento reformado da Polícia Militar de Goiás, foram presos, nesta sexta-feira (11/9), por suspeita de conceder empréstimos com juros abusivos, além de fazer cobranças diárias a comerciantes endividados na capital, em Goiás e no Tocantins. Segundo a investigação, os integrantes do grupo ofereciam empréstimos que variavam de R$ 5 mil a R$ 35 mil, com juros que passavam de 20% ao mês.

Por meio de aplicativos de mensagens, os investigados cobravam entre R$ 100 e R$ 200 por dia, além de ameaçar as vítimas de morte. De acordo com o delegado Rogério Henrique Oliveira, coordenador da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri), a Operação Iustitia Victis (justiça aos vencidos) investiga dois núcleos criminosos distintos e independentes de agiotas colombianos e brasileiros.

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A organização internacional foi alvo da primeira fase da operação, deflagrada em 2025. "Os feirantes, necessitados desses valores para manter o comércio funcionando, aceitavam. As cobranças eram feitas e, quando não pagas, eles ameaçavam", descreveu o delegado.

Ainda segundo ele, em casos mais graves eram feitas ameaças com armas de fogo, geralmente pelo sargento da PMGO. O grupo teria recebido mais de R$ 10 milhões entre janeiro e agosto de 2025.

Pesadelo

Sofrendo constantes ameaças dos integrantes do grupo, a filha de um comerciante falecido procurou a polícia. Antes de morrer, o idoso de 68 anos, responsável por um comércio na Feira dos Goianos, contraiu diferentes empréstimos com os dois grupos de agiotas, aceitando os juros abusivos. Ele recebeu R$ 4 mil, quantia destinada a manter a banca comercial que ele mantinha em Taguatinga.

A vítima contratava os empréstimos por meio de áudios enviados pelo celular da filha, além de utilizar a conta bancária dela para receber o dinheiro e pagar as parcelas. Ameaçado para quitar o débito, o homem cometeu suicídio no próprio comércio, em 21 de março do ano passado. De acordo com a PCDF, os criminosos "transferiram" a responsabilidade pelo pagamento da dívida para a filha do idoso, que passou a ser pressionada constantemente, especialmente por Maria Luiza da Silva Araujo Lopes, integrante da quadrilha que está foragida, com um mandado de prisão em aberto. 

Maria Luiza da Silva Araujo Lopes é procurada por integrar organização criminosa de agiotas
Maria Luiza da Silva Araujo Lopes é procurada por integrar organização criminosa de agiotas (foto: Divulgação/PCDF)

Em áudios enviados à vítima, ela aterrorizava a família. Quando tinha as chamadas rejeitadas pela filha do comerciante, respondia agressivamente. "Vou encher a sua cara de balas. Hoje não consegui entrar na casa, mas vou ficar te esperando do lado de fora, uma hora você tem que sair", ameaçava Maria Luiza em áudios. 

Os agiotas enviavam fotos da casa da vítima para intimidá-la. Ainda assim, a mulher não assumiu a suposta dívida e, com medo do grupo, a família se mudou do local e procurou a polícia.

Operação 

Na quinta-feira, a Corpatri, em colaboração com a Divisão de Repressão a Sequestros (DRS), cumpriu 18 mandados de busca e apreensão e 17 bloqueios de ativos financeiros. As contas de 14 pessoas físicas e de três empresas foram bloqueadas, com o limite de R$ 10.178.544. Segundo a Polícia Civil, o grupo contava com um sistema organizado e hierárquico, com líderes, gestores financeiros, cobradores e os integrantes responsáveis por intimidar as vítimas, apoio logístico e ocultação patrimonial.

De acordo com o delegado Rogério Henrique de Oliveira, três mulheres do grupo eram responsáveis pela captação de novos clientes, distribuindo cartões em grandes polos comerciais, um deles a Feira dos Goianos, em Taguatinga. Uma vez que as vítimas eram atraídas, essas mesmas três integrantes realizavam a cobrança diária. "É uma modalidade conhecida na agiotagem como 'pinga-pinga', na qual o grupo se aproveita de pessoas vulneráveis, com baixa escolaridade, e passa a estorquir", explicou o delegado.

As buscas e apreensões ocorreram em residências, pontos comerciais e propriedades rurais nas cidades de Palmas e Araguaína (TO), Formoso, Goiânia e Senador Canedo (GO). Com apoio das polícias civis de Tocantins e de Goiás, a PCDF apreendeu cartões de divulgação de empréstimos rápidos, registros de cobranças, documentos, lista de devedores organizada por rotas e cidade, além de armas de fogo, munições e veículos de luxo usados pelos criminosos.

Oliveira esclareceu que emprestar dinheiro, por si só, não configura crime, uma vez que a legislação brasileira permite que sejam cobrados juros de até 12% ao ano. Entretanto, juros acima dessa porcentagem e a prática de ameaças e extorsões caracterizaram a periculosidade do grupo criminoso, cujos integrantes poderão responder pelos crimes de organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, extorsão e usura.

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postado em 12/09/2026 04:00
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