MEMÓRIA DE BRASÍLIA

Diretamente de 2004: relembre artigo de Zuenir Ventura sobre Brasília

Em caderno especial de 22 anos atrás, o jornalista apresentou uma visão crua sobre a capital federal a convite do Correio Braziliense

Zuenir Ventura conversa com moradora da Fercal, em abril de 2004 -  (crédito: Zuleika de Souza/CBPress)
Zuenir Ventura conversa com moradora da Fercal, em abril de 2004 - (crédito: Zuleika de Souza/CBPress)

"O ovo da serpente": foi assim que o jornalista e escritor Zuenir Ventura, que morreu nesta terça-feira (22/9), classificou a desigualdade social no Distrito Federal, duas décadas atrás. O ano era 2004 e, em comemoração aos 44 anos de Brasília, o Correio Braziliense havia convidado escritores e artistas para visitar a capital federal, com o objetivo de apresentar novas visões e reflexões sobre a cidade.

Além de Ventura, o especial 4+4 contou com a participação dos escritores Luis F. Veríssimo, Adriana Lisboa e Rodrigo Lacerda; dos artistas Marcelo Camelo, Miguel Rio Branco e J. Borges; e do quadrinista Maurício de Sousa. 

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Texto de Zuenir Ventura, publicado em 21 de abril de 2004, no Correio Braziliense, em celebração aos 44 anos da capital
Texto de Zuenir Ventura, publicado em 21 de abril de 2004, no Correio Braziliense, em celebração aos 44 anos da capital (foto: Reprodução)

Em vez de escrever sobre os cartões postais arquitetônicos de Brasília, o escritor decidiu conhecer a capital federal por outro ângulo. O ponto de partida escolhido por Zuenir Ventura durante a visita ao DF foi a Fercal, região administrativa que ainda hoje apresenta índices sociais inferiores aos do restante do quadradinho.

Na época, a Fercal tinha testemunhado cenas de violência policial durante protestos de desabrigados. Acompanhado de uma equipe do Correio, o escritor se dirigiu ao bairro de Engenho Velho, onde encontrou famílias em situação precária abrigadas em um centro comunitário. Outro ponto de parada foi a Estrutural, que também havia sido palco de tensos protestos de catadores de lixo. 

Dez anos antes, em 1994, Ventura publicara o premiado livro Cidade partida, em que analisa a violência e a desigualdade na cidade do Rio de Janeiro. Com a experiência daquela que outrora também foi a capital do país, o escritor comparou a falsa sensação de calmaria que dominava a cidade maravilhosa durante a década de 1950 com a disparidade de realidades encontradas em Brasília, cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) despontava no país, puxado por regiões como o Lago Norte.

Durante um almoço em um restaurante frequentado pela elite brasiliense, o escritor observou o choque entre os ambientes visitados no DF. "Será que aquelas pessoas falantes, animadas, faziam idéia do que ocorre ali perto, em volta da cidade?", analisou. "Será que imaginavam o que é comer todo dia feijão, arroz e angu, quando comiam?". 

Ao concluir o artigo resultante da visita, Zuenir Ventura se questiona se Brasília — chamada por ele de “ilha da fantasia” — despertaria das contradições antes que o ovo da serpente da desigualdade, gerado em uma falsa paz social, fosse irremediavelmente aberto. 

Leia abaixo, o artigo na íntegra.

O ovo da serpente

Uma Brasília que não aparece nos cartões-postais, que não freqüenta palácios, que é feia, pobre e vive entregue à própria sorte — essa a cidade que propus a Carlos Marcelo, editor-executivo do Correio, visitar para descrevê-la por ocasião do 44º aniversário da capital. Seria um olhar sobre o que está encoberto pelo esplendor do óbvio, uma visão do outro lado do paraíso, do avesso da capital da qualidade de vida. Para realizar a tarefa, eu acompanharia alguém da reportagem numa cobertura rotineira.

Foi, portanto, com a disposição de um jovem profissional que este velho escriba desembarcou aqui no último dia 13, depois de um vôo tendo como companheiro de viagem ninguém menos que Waldomiro Diniz. Não chegou a ser um bom começo, não apenas pela companhia, mas por ter perdido a chance de levar para a redação uma matéria exclusiva: ‘‘Waldomiro sentouse, pegou o jornal, dormiu e roncou, babando a gravata’’. Qualquer coisa assim. O problema é que só soube da presença do ilustre viajante ao descer do avião e encontrar a imprensa à sua espera. Quer dizer, a notícia viajou quase sentada ao meu lado e eu não vi!

Me apresentei ao jornal no dia seguinte de manhã para a minha primeira missão. Na véspera, tinha havido duas manifestações de protesto, provocando um engarrafamento que durou até a hora de minha chegada: uma de catadores de lixo na via Estrutural e outra de desabrigados na região da Fercal. Nesta última, a polícia usara de violência, ferindo cinco manifestantes com espada. É para lá que íamos, atrás dos feridos.

Acompanhado de três colegas cujas idades somadas talvez não dessem a minha, parti todo animado para o local onde se dera o confronto. Estava aflito para conhecer a região, que reúne 14 comunidades rurais e semi-urbanas. Mas logo à frente fomos parados num posto policial. Os companheiros de trás não estavam usando cinto de segurança. O curioso é que, enquanto o sargento preenchia o talão de multa, passaram pelo menos três carros com os passageiros na mesma situação, sem serem incomodados. Mas, enfim, estávamos sem razão.

O clima de brincadeira da viagem terminou quando chegamos ao centro comunitário do bairro Engenho Velho, onde há dois meses se encontravam abrigadas 11 famílias, ou 49 pessoas, em condições precaríssimas: sem privacidade, com cobertores pendurados fazendo a vez de paredes, comendo apenas feijão, arroz e fubá. O único banheiro estava entupido. Me senti em casa, achei que estava no Rio de Janeiro, até por aquela solidariedade tão comum entre os pobres e tão rara entre a gente. Lucineide, mãe de um menino de 9 anos, cuida dos quatro filhos de uma colega que trabalha fora. Alguém da nossa classe se imagina tomando conta de tantos filhos dos outros?

Maria Ferri, a repórter que eu acompanhava, entrevistou-a: ‘‘Temos de ter paciência para conviver em meio a tanta gente. Há estresse, discussões, a criançada briga’’. O que mais comovia eram as crianças — sem um brinquedo, uma bola, nada para passar o tempo. Em especial Vinícius, de 2 anos. Sentado, olhava para nós com um certo espanto, mas sem chorar. Quando Zuleika o fotografou, ele sorriu. Depois, pegou meu gravador e colocou na altura dos olhos como se fosse uma máquina fotográfica. Em seguida, avistou Edilson fotografando também, e acho que chegou a fazer pose. Tão carente de afeto, tinha um olhar triste
ao nos ver indo embora.

Saímos com o coração meio apertado, e eu fiquei repetindo para mim a pergunta que me persegue no Rio: o que estamos fazendo com nosso futuro? O que será do Brasil daqui a 10, 15 anos se não dermos condições aos milhões de Vinícius de se tornarem cidadãos? Chovia, andamos por caminhos de lama, quase nos atolamos, paramos nas vendas e botequins para perguntar pelos feridos. Não os encontramos, estavam trabalhando.

Voltamos à redação, onde Carlos Marcelo e Ana Dubeux, a editora-chefe, me prepararam um choque cultural. Depois de uma manhã no atoleiro, um almoço no Piantella. Nunca tinha ido ali de dia, só à noite. Achei que estaria meio vazio. Quando a porta se abriu, levei um susto. Estava superlotado. Fantasiado de repórter, com marcas de lama na calça e um daqueles coletes que guardam gravador, caderno, celular e até garrafa dágua, acredito que, se não estivesse tão bem acompanhado, teria sido barrado e devolvido à Fercal.

Enquanto aguardávamos uma mesa, passei a observar o lugar. Devia estar ali uma boa parte da elite de Brasília. Com certeza, muitos representantes do povo. Será que aquelas pessoas falantes, animadas, faziam idéia do que ocorre ali perto, em volta da cidade com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano do país? Será que imaginavam o que é comer todo dia feijão, arroz e angu, quando comiam? Algumas notícias do dia deveriam inquietá-los: ‘‘Medo no Lago Sul, aumenta a criminalidade’’, ‘‘Governo anuncia medidas para conter a violência’’, ‘‘Dia de fúria: Protestos deixam trânsito caótico’’.

Depois do almoço, me dirigi à via Estrutural, que na véspera fora interditada com barricadas de pneus velhos queimados. Já estava a caminho do aterro sanitário, tínhamos passado por enormes poças dágua, vencido o lamaçal, quando recebemos da redação uma ordem para voltar. Pouco antes, um carro do Correio sofrera ali uma tentativa de apedrejamento.

Me lembrei então do Rio de Janeiro da década de 50, dos anos dourados, quando a cidade maravilhosa, feliz e despreocupada, acreditava ser um paraíso em que ricos e pobres se olhavam sem ódio ou medo. Dos morros só se ouvia o som das cuícas e dos tamborins. Não se percebia que havia um ovo de serpente chocando naquele paraíso. Quando foi acordada de seu sonho pelos tiros de AR-15, já era tarde, era uma cidade irremediavelmente partida. Passei pouco tempo aqui, posso estar enganado, mas levo a ligeira impressão de que a ilha da fantasia precisa acordar de sua indiferença, antes que se abra o ovo da serpente.

 

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postado em 22/09/2026 12:20 / atualizado em 22/09/2026 15:36
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