intercâmbio cultural

Projeto acadêmico ensina língua portuguesa a migrantes e refugiados

Estrangeiros que s einstalam no Brasil encontram no aprendizado da língua portuguesa uma ponte para a autonomia e o trabalho. Projeto gratuito da Universidade Católica (UCB) ofereceu fluência a 545 estrangeiros desde 2019

O idioma muda a vida das pessoas: aprender a língua do país onde vive significa conseguir se comunicar, adaptar e construir uma nova vida. A colombiana Wendy Johana Velasco, 30 anos, chegou ao Brasil em 2022 com uma bolsa para fazer o doutorado em ciências genômicas e biotecnologia na Universidade Católica de Brasília (UCB). Bióloga, ela estava pronta para se empenhar na pesquisa, mas descobriu que antes precisaria vencer outro obstáculo: o português. "Cheguei sem saber falar nada. Eu não conseguia assistir às aulas", conta.

Durante seis meses, precisou deixar temporariamente as atividades acadêmicas para se dedicar ao aprendizado do idioma. "Eu não sabia nem falar 'oi'", recorda. Hoje, a realidade é outra. A pesquisadora orienta dois alunos de graduação no laboratório de iniciação científica e vê no português uma ferramenta que mudou sua rotina.

A história de Chrystell Esperant, 39, começou com o mesmo desafio. Haitiana, ela chegou em 2018 para passar as férias. O plano era voltar, mas o país que conhecia apenas pela televisão, assistindo aos jogos de futebol, acabou se tornando sua casa. "Quando criança, o Brasil era o meu time preferido. Coloquei na cabeça que, um dia, iria conhecer o país", relata Chrystell, que estudou durante dois anos e, hoje, trabalhando como agente de aeroporto e morando no Novo Gama (GO), afirma se considerar 70% fluente. "Cheguei a um país completamente diferente. Eu precisava me adaptar, porque eu queria ficar aqui, eu gosto daqui", reforça.

Histórias como as de Wendy e Chrystell foram possíveis por meio do Projeto Língua Portuguesa para Migrantes e Refugiados, da UCB. Oferecido gratuitamente a cada semestre, o objetivo é dar dignidade, inclusão e cidadania por meio da educação, além de ampliar as oportunidades de trabalho para estrangeiros.

Mais do que ensinar regras gramaticais e vocabulário, o projeto ajuda a enfrentar situações cotidianas, acadêmicas e profissionais. Os participantes são preparados para o exame de proficiência em português e recebem um certificado reconhecido pelo Ministério da Justiça, documento que pode ser utilizado no processo de naturalização brasileira e contribuir para a inserção no mercado de trabalho. Desde 2019, o projeto aprovou 545 migrantes e refugiados. 

Ed Alves/CB/D.A Press - Wendy Johana pretender adquirir conhecimento no Brasil e levar para o seu país, a Colômbia

Para Wendy, aprender português significou conseguir transformar conhecimento em troca. Hoje, ela trabalha com bactérias resistentes responsáveis pela mastite bovina e busca novas alternativas de tratamento. A intenção é adquirir conhecimento no Brasil para levar à Colômbia. "Aprender português mudou tudo na minha vida!", resume.

Já Chrystell enxerga a língua como uma porta de entrada para um país que escolheu chamar de casa. "É um projeto muito bacana e que acolhe o estrangeiro", afirma.

Ed Alves/CB/D.A Press - Lina Moore e Renata Araújo se voluntariaram para dar aulas de português

Trabalho voluntário

A iniciativa também aproxima os estudantes da UCB dessa realidade ao oferecer a oportunidade de atuar como professores voluntários. Estudantes de relações internacionais da UCB, Lina Moore, 21, e Renata Araújo, 19, vivem a experiência há alguns meses com o desejo apenas de ajudar. Elas passaram por uma capacitação antes de assumir as aulas. As turmas são organizadas de acordo com o nível de compreensão do português, mas a integração entre os participantes também é estimulada em atividades coletivas.

Para Renata, a experiência vai muito além do ensino da língua. "É uma iniciativa muito bonita. O que eles nos pedem é apenas que a gente tenha disposição e vontade para transmitir o conhecimento e disponibilidade", afirma.

A troca acontece nos dois sentidos. Um dos momentos que mais a marcou foi quando um dos alunos assumiu o papel de ensinar. Ela lembra que o estudante escreveu os nomes das professoras em sua própria língua. "Ele parecia muito feliz de nos mostrar como ele também tinha coisas para ensinar para a gente", relata.

Lina guarda na memória momentos de aproximação com os alunos. Em uma das aulas, eles se sentaram em roda e começaram a comentar sobre as comidas típicas de seus países. "Eles estavam com vergonha. Tinham que tentar falar em português e foi muito legal. Eu gosto de conhecer a rotina que as pessoas têm nos seus diferentes países e foi um momento de muita conexão", diz.

A oportunidade de atuar como professora voluntária também amplia a formação das estudantes. Lina conta que entrou no projeto inicialmente por interesse pessoal, mas percebeu que a experiência também contribui para o currículo. "Você sai de estudante e vira professor", resume. Segundo ela, a vivência demonstra habilidades valorizadas no mercado, como adaptação e capacidade de aprender.

Ed Alves/CB/D.A Press - Luiz Henrique, coordenador de extensão universitária, explica que a proposta do projeto é construir vínculos e conquistar autonomia

O coordenador de Extensão Universitária da UCB, Luiz Henrique, sublinha que a proposta nasceu há mais de 15 anos justamente para ajudar quem chega ao Brasil a construir vínculos e conquistar autonomia. "A preocupação era proporcionar às pessoas a possibilidade de melhor socialização dentro da nossa sociedade", explica.

Segundo o coordenador, aprender português significa, também, conseguir realizar tarefas simples do cotidiano. "É uma forma de conseguir se conectar com empresas para arrumar trabalho ou, por exemplo, ir a um restaurante e conseguir pedir um prato", exemplifica.

A formação tem duração mínima de um semestre letivo e, entre os pré-requisitos, está a participação presencial.

 


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