Entrevista

"Não podemos ter uma justiça que não é justa", diz arcebispo de Brasília

Ao Podcast do Correio, o cardeal Paulo Cezar Costa, arcebispo metropolitano de Brasília, avalia a atual polarização política no Brasil e defende uma reforma no STF. Para ele, é essencial que a Igreja sirva como força conciliadora em períodos de desavenças como agora

 19/10.2026 Ed Alves CB/DA Press. Cidades. PodCast com Arcebispo de Brasilia Cardeal Paulo Cezar.  -  (crédito:  Ed Alves CB/DA Press)
19/10.2026 Ed Alves CB/DA Press. Cidades. PodCast com Arcebispo de Brasilia Cardeal Paulo Cezar. - (crédito: Ed Alves CB/DA Press)

A credibilidade do Judiciário, especialmente do Supremo Tribunal Federal (STF), é fundamental para a saúde da democracia. Essa é a visão do arcebispo metropolitano de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa, um dos oito cardeais brasileiros da Igreja Católica. Em entrevista ao Podcast do Correio nessa segunda-feira (19/10), o religioso defendeu uma reforma do Supremo e a adoção de um código de ética para os ministros como forma de fortalecer a confiança da população nas instituições.

Para Dom Paulo, a Justiça não pode ser partidarizada nem se furtar a prestar contas à sociedade. O religioso também alerta para os riscos da manipulação da informação e da inteligência artificial e defende o diálogo e a reconciliação como antídotos para o clima de hostilidade e polarização política que marcam os tempos atuais. “A sociedade tem direito à verdade”, afirmou.

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Dom Paulo Cezar Costa defendeu o diálogo, a ética e a reconciliação como caminhos para enfrentar os desafios mundiais. Para o cardeal, a Igreja Católica tem papel fundamental na construção de pontes em uma sociedade marcada pelo ódio e pelas divisões, sem abrir mão de sua missão de formar consciências e promover o bem comum.

Sobre o caso BRB-Master, o arcebispo de Brasília afirmou que o esclarecimento dos fatos e a punição dos envolvidos. “Não pode jogar a poeira para debaixo do tapete”, disse. Confira os principais pontos da entrevista:

Como tirar a sociedade desse ódio e mal-estar que parecem estar tomando conta da população? 

É um caminho difícil. A polarização chegou. É algo que o mundo, de certa forma, vive. Há um elemento de fundo: a passagem da grande racionalidade, a kantiana, para uma mais sentimental. Creio que depois desse momento virá uma síntese. Fomos de um extremo ao outro. A modernidade começou prometendo que a racionalidade resolveria todos os problemas do ser humano. Ela está na vida da sociedade e faz bem a ela. Mas parece que, de repente, o mundo acordou para uma outra forma de racionalidade. Passou-se da grande racionalidade para o mundo das emoções. Nele, as pessoas analisam os acontecimentos e fatos emocionalmente. Então, o ser humano é capaz de sentimentos mais positivos e também dos piores sentimentos. Em uma eleição disputada como esta, nossos sentimentos vão aflorando e causando ódio, divisões, rancores e inimizades. Deveria ser normal as pessoas pensarem de forma diferente. O pensar diferente deveria implicar riqueza. Nesse caminho, a religião tem um papel muito importante. Ela deve conduzir sempre para o bem, para a paz e para o amor. Para valores. A Igreja tem um papel fundamental para ajudar na reconciliação das pessoas. Por isso, ela não pode ficar calada.  

Considera que representantes da Igreja Católica deveriam participar mais da política e da vida pública? 

A função da Igreja é formar consciência para que a pessoa decida por si. É o caminho da maturidade. São dados os elementos para que a pessoa possa tomar a melhor decisão. Estou convencido da posição da Igreja Católica. Ela procura não ser partidária. Ela trata a política enquanto bem comum que se concretiza em saúde, educação, qualidade de vida, cuidado com os pobres e com ecologia. É uma cultura de valores. Não acho que religião deva se envolver com política partidária, responsável por dividir. Religião não pode dividir. Agora, ela deve incentivar que bons católicos, homens e mulheres de boa vontade, se comprometam cada vez mais com a política. Religião tem que unir. Em uma sociedade dividida, é preciso ter polos de união. A Igreja tem que ser um desses locais. O caminho da sociedade é o diálogo. 

O que a Igreja pode fazer para tentar juntar os cacos no dia seguinte ao pleito?

Ela tem um papel fundamental. O grande mandamento de Jesus é amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Quem participa de uma comunidade de fé precisa vencer as paixões no dia seguinte. É preciso dar asa à fé para que ela venha em socorro e ajude na reconciliação. Espero que, na segunda-feira, acordemos, e a vida vá para a frente com tranquilidade. Sempre temos ganhos e perdas. É preciso conviver com as perdas. O processo democrático pode ter suas debilidades, mas é o melhor sistema que temos. É preciso respeitar a escolha da maioria. Nós, líderes de igrejas, precisamos nos colocar no caminho para propor que o dia seguinte seja de reconciliação, de amor e de aperto de mãos. Os vínculos familiares e de amizade são mais importantes. O outro e a outra são mais importantes. 

Como a Igreja vai tratar a questão da inteligência artificial? 

A humanidade entrou em uma nova era. Sou otimista e esperançoso, mas a humanidade entrou em um caminho novo porque temos máquinas inteligentes. Não é mais verdade que o ser humano domina tudo. Precisamos olhar para o futuro com esperança. Para isso, é necessário ter responsabilidade diante desse instrumento poderosíssimo. É preciso conciliar inteligência artificial, tecnologia e humanidade. Não se pode desumanizar o humano. O humano, com sua alegria, tristeza e debilidades, deve ser valorizado. Além disso, é necessária, em toda pesquisa de desenvolvimento da inteligência artificial, a ética. É perceber a força dessa tecnologia, mas também seus limites e não ultrapassá-los.

Corremos o risco de ter uma legião de pessoas sem ocupação substituídas pelas máquinas. É preciso preparar a humanidade para essa nova era? 

Sim. Mas a sociedade precisa se preparar. Vai chegar um tempo em que vai ter uma grande massa de desocupados. As pessoas vão ter que repensar a questão do trabalho. A nova geração nasceu no mundo conectado. Nós, não. Aprendemos a conviver com a tecnologia. É um caminho sem volta. A sociedade vai ter que se repensar de certa forma. Imagine esse povo se revoltando.  

O senhor é favorável a um pacto internacional para regulamentar as big techs? 

É fundamental. A questão ética e da informação na vida de uma sociedade é indispensável. É interessante a análise de Hannah Arendt do julgamento de Adolf Eichmann. Todo mundo achou que ela fosse dizer que Eichmann era um monstro. Ela disse: ‘Esse humano não pensa. Ele executa ordens. Isso é um grande perigo’. A manipulação da informação é um grande perigo em uma sociedade que vai deixando de pensar. As pessoas não percebem mais o que é certo e o que é errado. O sentido mais genérico da moral é faça o bem e evite o mal. Os governos precisam reagir e encontrar saídas. A informação de mercado não pode dominar. O mundo precisa criar mecanismos para se precaver de possíveis manipulações.   

Diante das guerras e do potencial de destruição das grandes potências, estamos perto do fim do mundo? 

Não. Acho que o mundo tem seu percurso. Sempre houve guerras e desavenças. Sabemos a quantidade de conflitos que existem hoje. O Papa Francisco falava em uma Terceira Guerra Mundial em pedaços. Há pouco tempo, havia mais de 25 conflitos armados no mundo. Não saberia dizer o número exato hoje. Seguramente, aumentou. Precisam surgir homens e mulheres convencidos da paz. Aqueles que verdadeiramente assumam esse caminho. Em tantos períodos, esperou-se o fim da humanidade. Acho que ela vai tendo seu percurso.

A credibilidade do Judiciário é fundamental para a democracia?

Sim. O Poder Judiciário é um dos pilares da democracia. Uma sociedade sem justiça é uma sociedade selvagem. É preciso que o Supremo Tribunal Federal tenha coragem de enfrentar suas mazelas. Aquilo que esperamos de qualquer instituição, esperamos também que o Supremo faça. Não adianta ficar criando subterfúgio: um ministro pede vista... A sociedade espera respostas. Não podemos ter um Poder Judiciário corrupto, uma justiça que não é justa, uma justiça partidarizada. Estou convicto de que é preciso uma reforma do Supremo. Pergunto se, para chegar ao Supremo, não deveriam ser juízes de carreira, desembargadores, gente que fez toda uma carreira jurídica, que tem saber jurídico. O problema é que, às vezes, são políticos nomeados, gente de um partido, gente de outro, que é político e continua político. A pior coisa deve ser a sensação de ser julgado por um juiz cuja história não é de ética e de justiça. Há profissões em que é preciso ter uma vida ética. O Judiciário tem um débito com a sociedade e precisa enfrentar a questão. Não dá para terminar em pizza. É preciso dar uma resposta à sociedade, e essa resposta implica fortalecer o Supremo.

É preciso, também, diálogo e respeito entre os poderes?

Isso mesmo. As coisas do Legislativo deveriam ser resolvidas no Legislativo. Claro que, às vezes, o Judiciário é provocado, mas porque alguém perdeu e vai para o Judiciário. É preciso respeito, justa interação e diálogo entre os poderes da República. Não dá para ter conluio entre um poder e outro. Onde o Executivo perdeu, vai para o Judiciário. Onde o Legislativo perdeu, vai para o Judiciário. Vão se criando alianças em que perde o povo e perde a democracia. Em vez de fortalecê-la, vai fragilizando, criando desilusão. Quando um jovem olha as instituições e tem uma sensação de vergonha do país, isso fragiliza a democracia. É preciso fazer o dever de casa. Na minha percepção, é urgente.

Qual é a sua avaliação sobre o caso Master–BRB?

As coisas precisam ser apuradas, e quem deve precisa pagar. Parece que todo mundo recebeu dinheiro desse homem (Daniel Vorcaro), todo mundo. Parece que o dinheiro foi ali mesmo para comprar, para o mal. É preciso ser apurado. Quem deve tem que passar pelo justo processo. A sociedade não pode ficar refém de um camarada, não pode ficar refém desse caso. É preciso resolver as coisas, não pode ir jogando a sujeira para debaixo do tapete. A sociedade tem direito à verdade. Na sociedade da narrativa, é preciso a verdade.


A democracia brasileira continua ameaçada?

Não, acho que não. A democracia no Brasil deu, nas eleições passadas, sinal de muita solidez e está dando agora também. Espero acordar segunda-feira com a sociedade continuando sua caminhada normalmente, a vida indo para frente. É preciso esperança. Vejo sinais de esperança. A democracia é um sistema que precisa ir se aperfeiçoando. Um Executivo que funcione bem, um Legislativo que exerça bem sua função e um Judiciário que exerça bem sua função. E que tratem, principalmente, das questões do povo. Minha impressão é de que uma elite tem acesso ao Judiciário, e suas questões são julgadas. Mas e as questões do povo, que envolvem a vida das pessoas no dia a dia? Uma população não pode ter classes esquecidas, grupos esquecidos. A democracia vai se fortificando quando todos se sentem cidadãos. É preciso que os três poderes sejam verdadeiramente serviço ao bem do nosso amado povo.

*Estagiária sob a supervisão de Ana Maria Campos

 

Assista à entrevista:

 

 

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postado em 20/10/2026 05:00
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