Expectativas

Fora o setor público, serviços sustenta crescimento econômico do DF

Com PIB em alta e força da atividade terciária, economia brasiliense avança em 2026. Especialistas projetam transição para 2027 com foco em áreas de tecnologia, crédito imobiliário e qualificação da mão de obra local

O setor da construção civil é um dos que mantêm tendência de crescimento nos últimos anos  -  (crédito: Minervino Júnior/CB/DA Press)
O setor da construção civil é um dos que mantêm tendência de crescimento nos últimos anos - (crédito: Minervino Júnior/CB/DA Press)

Com o avanço da base produtiva e a busca por novas alavancas de desenvolvimento fora do setor público, o Distrito Federal mira o horizonte pós-2026 de olho em quais segmentos serão capazes de acelerar o crescimento regional. Para desenhar esse futuro cenário, gestores econômicos debruçam-se sobre o panorama econômico local. O setor de serviços segue na liderança dos segmentos mais produtivos, mas analistas apontam a necessidade de diversificação e de qualificação.

O relatório mais recente disponibilizado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística (IPEDF Codeplan) — publicado em 2025, e com base em dados de 2023, devido a uma defasagem padrão de dois anos — revela que a economia brasiliense registrou o terceiro ano consecutivo de alta. A expansão foi de 3,3% no volume do Produto Interno Bruto (PIB-DF), com um montante nominal que alcançou R$ 365,7 bilhões.

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O documento detalha que a estrutura produtiva local é amplamente liderada pelo setor de serviços, responsável por 95,4% do valor adicionado bruto da economia distrital. O setor cresceu 3,2% em 2023 e gerou R$ 310,128 bilhões de valor adicionado bruto. Na avaliação do instituto, isso conferiu à região uma resiliência singular diante de oscilações macroeconômicas nacionais.

O subsetor de atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados despontou como o motor mais acelerado de expansão no último ciclo consolidado, com variação de 13,2%, e elevou a participação na economia local de 19,9% para 20,8%. O relatório aponta que "com a presença, em Brasília, de grandes instituições financeiras, o Distrito Federal foi favorecido neste cenário", impulsionado por uma demanda por crédito e pela capilaridade de serviços corporativos de alta complexidade.

Lado a lado com o setor financeiro, o segmento de informação e comunicação se consolida em patamares elevados de produtividade: "A informação e comunicação expandiu 5,4%, em termos reais, corroborada pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, que mostrou expansão de 10,0% no índice de volume de serviços de informação e comunicação, em 2023, confirmando o aquecimento da atividade após o advento da pandemia".

Demais setores

Outro termômetro fundamental para medir a capacidade de expansão da economia brasiliense é a indústria da construção, subsetor que detém 52,7% de todo o valor adicionado da indústria local. Embora o levantamento estatístico tenha captado uma retração pontual de 1,5% no volume, o estudo demonstra que a base estrutural da atividade permanece sólida, respondendo por R$ 7,099 bilhões em valor adicionado bruto.

O relatório evidencia uma tendência gradual de ampliar os nortes da geração de renda na capital federal. "Nos últimos anos, a participação pública vem reduzindo, o que não diminui sua importância, mas deixa vislumbrar uma maior diversificação da economia local", destaca o texto.

Nesse processo, a agropecuária distrital provou capacidade de resposta rápida ao registrar um salto de 9,3% em volume. O documento ressalta que "a pecuária, alavancada pela criação de aves e produção de ovos, e o sistema de integração vertical, que envolve avicultores locais e grandes empresas, impulsionaram a avicultura industrial, atraindo novos produtores".

Expansão

Apesar da defasagem dos dados dos órgãos oficiais, pesquisas experimentais relacionadas à 2026 revelam que a economia brasiliense assumiu a ponta do crescimento regional no segundo trimestre deste ano. Enquanto o PIB do Centro-Oeste avançou 1,6% na comparação com o mesmo período do ano anterior, o DF registrou uma expansão expressiva de 2,9%, impulsionado pelo dinamismo disseminado do setor terciário, segundo dados do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE (NCN).

O cenário desenhado para a capital federal corrobora a tese de que a força dos serviços locais funciona como o principal amortecedor e propulsor da economia regional. De acordo com as estimativas, cerca de 75% de todo o crescimento do valor adicionado no setor de serviços de toda a região Centro-Oeste vieram, exclusivamente, do Distrito Federal. Esse fôlego compensou, inclusive, a retração pontual de 1,2% estimada na indústria local, influenciada por um recuo na atividade da construção civil no período.

Para o restante de 2026, as projeções indicam que a Região Centro-Oeste deverá registrar um ritmo de crescimento inferior à média observada no biênio anterior (2024-2025), quando a taxa média anual alcançou 3,1%. O arrefecimento reflete um ambiente macroeconômico mais desafiador, marcado por patamares elevados de juros, endividamento das famílias e cautela dos agentes econômicos diante de incertezas fiscais e climáticas.

Perspectivas

Apesar do crescimento, o caminho não tende a ser completamente fácil. O economista e professor do Ibmec Brasília Renan Silva avalia que "o potencial de expansão a médio prazo do Distrito Federal é liderado de forma destacada pelo setor de tecnologia da informação e comunicação e pelo subsetor de atividades financeiras, consolidando a capital como um polo de serviços avançados de alto valor agregado". Apesar disso, o ritmo de absorção de mão de obra e geração de renda pode variar.

Nesse sentido, a construção civil e as áreas de comércio atacadista e logística devem ganhar destaque na geração de empregos no curto prazo, enquanto atividades de maior valor agregado podem ampliar a renda no médio prazo. "Despontam como os principais motores de emprego rápido, devido à forte sensibilidade da construção aos estímulos de crédito habitacional e à posição geográfica central do DF, que favorece a instalação de hubs de e-commerce e centros de distribuição", destaca Renan Silva.

Apesar das oportunidades, o especialista ressalta que o DF precisa superar entraves que dificultam a chegada de novos empreendimentos. "Os principais obstáculos para a atração de capital privado no Distrito Federal estão historicamente atrelados ao custo elevado da terra e à insegurança jurídica decorrente dos processos de regularização fundiária e do modelo de concessão de lotes industriais pela Terracap", avalia. 

Professora do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), Andrea Felippe Cabello ressalta que o desafio é fazer com que a presença da administração pública contribua para o surgimento e o fortalecimento de negócios privados. "A dependência da administração pública é ruim quando impede que o setor privado se desenvolva e gere empregos, mas quando ela serve como indutor e impulsionador, ela pode, inclusive, gerar novos polos de desenvolvimento", afirma.

Além dos setores ligados diretamente à economia brasiliense, Andrea chama a atenção para a importância do agronegócio na região e para os efeitos que o crescimento da atividade nas cidades próximas pode produzir no DF. "Cidades como Cristalina (GO) e outras que compõem a Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno ou Ride-DF têm apresentado taxas de crescimento altíssimas e PIB per capita bastante elevados, impulsionando o crescimento local", aponta. 

A economista defende que a qualificação profissional seja tratada como prioridade pelo governo distrital e pelas instituições de ensino, incluindo o Instituto Federal de Brasília. Sem esse ajuste, a falta de trabalhadores capacitados poderá se transformar em um obstáculo para setores com potencial de crescimento nos próximos anos. "Isso vai se tornar um gargalo para esses setores em breve se não virar prioridade para as instituições de ensino distrital e federal", alerta.

A ressalva ganha força quando levamos em conta que a economia do DF deve registrar desaceleração moderada no ano que vem, acompanhando o cenário nacional com expectativa de crescimento de 1% a 1,5% para o PIB e para o setor de serviços. A análise é do economista Willian Baghdassarian, professor do Ibmec Brasília, que aponta que a forte integração com a conjuntura do país e a reforma tributária pressionam o custo das empresas, exigindo cautela do mercado local.

"O serviço público acaba atuando tanto para ajudar no crescimento quanto como estabilizador da economia, porque você tem um salário que se mantém e dificilmente cai, e o governo também é um grande consumidor de bens e serviços", destaca o economista, ao ressaltar que a estabilidade do funcionalismo atenua as volatilidades econômicas vistas em outros estados.

O maior desafio para a estabilidade fiscal do DF no próximo período, segundo Baghdassarian, recai sobre a gestão e os custos operacionais associados ao Banco de Brasília (BRB), exigindo do governo local uma escolha complexa entre absorver um impacto financeiro desproporcional ou buscar alternativas de mitigação social para proteger os cofres públicos e os fundos de previdência.

Economia em números

  • O PIB do DF registrou o terceiro ano consecutivo de alta, com crescimento de 3,3%
  • O setor de serviços responde por 95,4% do valor adicionado bruto da economia distrital, tendo gerado R$ 310,128 bilhões
  • Indústria da Construção detém 52,7% de todo o valor adicionado da indústria local, respondendo por R$ 7,099 bilhões em valor adicionado bruto
  • O setor agropecuário distrital apresentou um salto de 9,3% em volume no período

 


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postado em 29/10/2026 04:00
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