Há um ano abria-se um abismo sob nossos pés. A partida de Isaac Vilhena, aos 16 anos, chocou a cidade por tudo o que o assassinato de um menino estudioso, bondoso e alegre representa em qualquer lugar do mundo. Uma enxurrada de "e se" tomou conta da minha mente naquelas horas que seguiram à morte do menino.
E se houvesse ocorrido isso ou aquilo; e se alguém tivesse tomado tal atitude em vez daquela outra? Mas a verdade era só uma: nada disso o traria de volta. Era preciso engolir seco e sentir o amargor que tomava conta do paladar, além do enjoo causado pela impotência.
Brasília já viu semelhantes casos outras vezes. Ainda são poucos para uma metrópole tão grande, mas igualmente revoltantes e assustadores. E é o tipo de coisa com a qual não podemos nos acostumar, sob o risco de perdermos nossa própria humanidade.
Poucos dias depois do assassinato, recebi a mensagem do pai de Isaac, Lucas Vilhena. Eles queriam falar no momento certo. Católicos, procuravam conforto na palavra de Deus e sob a proteção do manto de Nossa Senhora, mas queriam que a Justiça dos homens também fosse feita e que sua memória permanecesse viva.
Desde então, acompanho, sempre que possível, a revolução de amor que a mãe, Jane Vilhena, e toda a família tem proporcionado, inspirada no legado de Isaac. Mesmo tão novo, o jovem deixou testemunhos de fé e de bondade que até hoje ressoam entre seus amigos e toda a família.
A missa de homenagem a ele, no último sábado, quando completou um ano do assassinato, foi exemplo disso. Muitos amigos da mesma idade extremamente emocionados se uniam nos corredores da Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe para honrá-lo e abraçar Lucas e Jane, além do irmão, Júnior.
Mesmo diante da maior dor do mundo, os dois mantiveram sorrisos contagiantes após a cerimônia e ao longo do almoço que ofereceram a todos que vieram, de perto ou de longe, celebrar o amor que Isaac distribuiu. Ele foi um menino gentil, com vizinhos, professores e quem quer que encontrasse na rua. Foi amigo fiel e filho amoroso. O parque onde morreu, antes mal iluminado, agora é um clarão no meio da Asa Sul, e com placa em sua homenagem, uma iniciativa dos próprios moradores.
Isaac merecia muito mais do que pudemos oferecer a ele nessa breve passagem terrena, mas conseguiu emanar amor e impulsionar mudanças até mesmo na partida.
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