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De loja de tarô a clínica: como esquema de bets movimentou milhões no DF

Esquema de casas de apostas clandestinas utilizavam empresas de fachada em Sobradinho e Ceilândia para lavagem de dinheiro. Criminosos podem ter movimento mais de R$ 1 milhão

Esquema de casas de apostas clandestinas atuava utilizando empresas de fachada para lavagem de dinheiro -  (crédito: maurenilson)
Esquema de casas de apostas clandestinas atuava utilizando empresas de fachada para lavagem de dinheiro - (crédito: maurenilson)

Uma loja de tarô, uma clínica de assistência psicossocial e dezenas de outras empresas sem relação aparente com apostas estão no centro de uma investigação sobre um esquema bilionário de bets ilegais. Empresas de fachadas localizadas em Sobradinho, Ceilândia e Sobradinho II serviam como mecanismo de repasse para fintechs, um delas localizada na Faria Lima - bairro empresarial de São Paulo (SP). 

Segundo a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), empresas no DF e no Goiás eram usadas para receber e movimentar dinheiro de plataformas de apostas que funcionavam sem autorização federal. A investigação aponta que o grupo utilizava empresas de fachada para esconder a origem dos recursos, dificultar o rastreamento das transações e redistribuir os valores entre pessoas físicas, empresas e instituições financeiras. Parte do dinheiro também teria sido convertida em criptomoedas.

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As movimentações financeiras identificadas nas empresas investigadas chegam a aproximadamente R$ 739 milhões. Já as operações envolvendo uma fintech de São Paulo e empresas do mesmo grupo financeiro somam cerca de R$ 1 bilhão.

A operação, batizada de AZZARDO, foi deflagrada na manhã desta quinta-feira (5/11). Cerca de 200 policiais civis do DF e de outros cinco estados participam das diligências, que incluem o cumprimento de mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens e valores dos investigados.

Como funcionava o esquema?

A investigação começou há cinco meses, depois que a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda identificou plataformas de apostas esportivas, conhecidas como bets, que operavam sem autorização federal.

O esquema chamou a atenção porque os pagamentos feitos pelos apostadores via Pix não eram direcionados diretamente às plataformas. Em vez disso, o dinheiro caía em contas bancárias de empresas que, oficialmente, atuavam em outros segmentos. Entre elas estavam uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de tarô, ambas com endereços em Sobradinho, no Distrito Federal.

Na prática, quem fazia uma aposta pela internet podia transferir dinheiro para uma empresa que aparentemente não tinha qualquer ligação com jogos ou apostas.

Os investigadores identificaram dezenas de empresas com características suspeitas. Muitas foram abertas entre fevereiro e julho de 2026, tinham o mesmo capital social e estavam registradas em endereços concentrados em Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia. Em alguns casos, os endereços informados não correspondiam a estabelecimentos em funcionamento. Em um único lote de Ceilândia, dez empresas diferentes indicavam o mesmo número de telefone.

Para a polícia, essas empresas eram utilizadas como intermediárias para receber os pagamentos dos apostadores, concentrar os valores e depois distribuí-los por diferentes contas, dificultando a identificação dos verdadeiros responsáveis pelo dinheiro.

Fintech também entrou na mira da polícia

Outro ponto importante da investigação envolve uma fintech de São Paulo, instituição financeira autorizada pelo Banco Central a funcionar como sociedade de crédito direto. Em testes realizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas, os pagamentos via Pix feitos nos sites investigados eram direcionados a contas de diversas empresas de fachada mantidas nessa fintech.

A instituição também mantinha contas de outras empresas suspeitas, algumas delas com sucessivas trocas de procuradores. A análise financeira identificou aproximadamente R$ 1 bilhão em movimentações envolvendo a fintech e empresas do mesmo grupo, incluindo repasses a uma das empresas investigadas e pagamentos relacionados a casas de apostas sem autorização.

Em julho de 2026, o Banco Central já havia divulgado a intenção de cancelar a autorização de funcionamento da instituição. A fintech, duas empresas ligadas ao mesmo grupo e seus dirigentes estão entre os alvos da operação. A Justiça, porém, determinou que o bloqueio atinja apenas os recursos próprios da instituição, preservando as contas de clientes que não são investigados.

Empresas com autorização estadual também são investigadas

A apuração também chegou a três empresas que tinham autorizações para explorar loterias nos estados da Paraíba e do Rio de Janeiro. Essas permissões, no entanto, eram limitadas a determinados territórios, marcas e sites. Segundo a PCDF, nenhuma das plataformas investigadas estava incluída nas autorizações apresentadas pelas empresas.

A polícia também identificou relações societárias e movimentações financeiras consideradas suspeitas entre essas companhias e outras empresas apontadas como parte do esquema. Uma delas, por exemplo, tinha sucessivas mudanças de sócios e procuradores e mantinha a maior parte das contas em instituições que não eram credenciadas pela loteria estadual.

Outra empresa estava ligada a um consórcio que reunia companhias apontadas como destinatárias de dinheiro de vítimas de estelionato e que também realizavam transações com empresas de fachada. 

Justiça determina bloqueio de bilhões

A dimensão da investigação também aparece nas medidas determinadas pela Justiça. O Juízo das Garantias de Sobradinho autorizou o bloqueio de contas e ativos financeiros de 64 pessoas físicas e 120 empresas, até o limite global de R$ 3,483 milhões.

Também foi determinada a indisponibilidade de bens dos investigados mantidos em instituições supervisionadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Outras medidas incluem:

  • Suspensão dos registros no CNPJ e nas juntas comerciais de 100 empresas e empresários individuais.
  • Proibição de abertura de novas contas bancárias pelos investigados durante 90 dias.
  • Quebra dos sigilos bancário e fiscal de 82 pessoas físicas e 83 pessoas jurídicas.
  • Possibilidade de apreensão de veículos pertencentes aos investigados.

Além do Distrito Federal, a operação conta com equipes das polícias civis de São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte. No DF, são cumpridos 24 mandados de busca e apreensão em diferentes regiões administrativas. Em São Paulo, as diligências ocorrem em endereços na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em Pinheiros, na Vila Olímpia e em outros locais.

Em Goiás, as equipes atuam em Goiânia, Planaltina de Goiás e Valparaíso de Goiás. Os policiais procuram documentos, celulares, computadores e outros materiais que possam ajudar a identificar os responsáveis pelas plataformas de apostas, rastrear o caminho do dinheiro e esclarecer se houve prejuízo aos apostadores.

Os investigados poderão responder por exploração de loterias não autorizadas, estelionato mediante fraude eletrônica, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e organização criminosa. Somadas em abstrato, as penas previstas para esses crimes podem chegar a 31 anos de prisão, ou até 33 anos em uma das hipóteses de falsidade ideológica envolvendo documento público.

A investigação continua. O objetivo agora é identificar quem comandava as plataformas, quem participava da estrutura financeira e quem efetivamente se beneficiava das movimentações. O nome da operação, AZZARDO, faz referência à expressão italiana gioco d'azzardo, que significa jogo de azar.

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postado em 05/11/2026 09:53 / atualizado em 05/11/2026 10:11
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