CEARÁ

Fantasma de Ubajara: macaco-prego sem cor é flagrado no Ceará

Manchas brancas em filhote raro acendem alerta sobre variabilidade genética e fragmentação populacional

Sapajus libidinosus, também chamado de macaco-prego barbado ou capuchinho, foi registrado por pesquisadores brasileiros no Parque Nacional de Ubajara, no Ceará  -  (crédito: Tatiane Valença/NePReGo)
Sapajus libidinosus, também chamado de macaco-prego barbado ou capuchinho, foi registrado por pesquisadores brasileiros no Parque Nacional de Ubajara, no Ceará - (crédito: Tatiane Valença/NePReGo)

Pesquisadores brasileiros registraram pela primeira vez um caso de leucismo em um Sapajus libidinosus, espécie conhecida como macaco-prego barbado, no Parque Nacional de Ubajara, na Serra da Ibiapaba (CE). O filhote, apelidado de “Fantasma”, apresenta manchas brancas espalhadas pelo corpo, sinal de perda parcial de melanina na pelagem, condição considerada extremamente rara entre primatas.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

O registro marca o primeiro relato do fenômeno na espécie em ambiente natural. Diferentemente do albinismo, já descrito anteriormente em macacos-prego mantidos em cativeiro, o leucismo é uma condição congênita que reduz parcial ou totalmente a pigmentação dos pelos, mas preserva a coloração escura dos olhos.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

O primatólogo Tiago Falótico observou o animal enquanto instalava gravadores de som na área de estudo. “Primeiro vi um macaco branco, diferente, que nem era do nosso grupo de pesquisa. Fui atrás e encontrei o filhote branquinho”, relatou ao Jornal da USP. O pesquisador é associado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, e preside o Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo).

A equipe avistou o filhote duas vezes, com intervalo de 30 dias. Segundo os pesquisadores, o comportamento do animal é compatível com o de um infante saudável: permanece a maior parte do tempo carregado pela mãe, mas já demonstra curiosidade e explora o ambiente por conta própria. Não houve registro de rejeição no grupo, e o animal segue socialmente integrado.

Hipóteses genéticas e ambientais

O parque, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), abrange cerca de 6.300 hectares e reúne florestas, cavernas, montanhas e cachoeiras. A área apresenta microclimas distintos, variando entre regiões úmidas e frias no planalto e áreas mais secas na transição para o semiárido.

Diante da ocorrência rara, os pesquisadores avaliaram possíveis causas ambientais, como poluição ou deficiência alimentar. No entanto, a hipótese perdeu força. “Se fosse algo ambiental, como contaminação ou alimentação inadequada, esperaríamos ver mais casos distribuídos pelos grupos”, afirma Falótico. Para ele, a explicação mais provável é uma mutação genética espontânea.

A descoberta levou a equipe a revisar bancos de dados antigos. Neles, identificaram um macho adulto conhecido como “Jenipapo”, que apresenta uma mancha branca sutil na cabeça, e também uma leve despigmentação nos testículos. O animal, contudo, pertence a outro grupo e não é pai do filhote. “O pai provável é o Zeca, macho do grupo do Fantasma, que acompanhamos há anos”, explica a pesquisadora Tatiane Valença, coautora do estudo.

Desde o início das pesquisas na área, há seis anos, nenhum outro indivíduo com padrão semelhante foi registrado. O artigo foi publicado na revista Primates.

Sinal de alerta para conservação

A presença de dois indivíduos com alterações na pigmentação levanta preocupações sobre possível redução da variabilidade genética da população. Caso a hipótese genética se confirme, o leucismo pode indicar endogamia em um grupo isolado, com fluxo gênico limitado.

“Um animal com coloração diferente pode sinalizar que a população está restrita a um fragmento e não está trocando genes com outros grupos”, alerta Falótico. O pesquisador também menciona pressões adicionais, como a presença de animais domésticos nas bordas do parque e a expansão urbana.

A preocupação vai além da genética. A população de macacos-prego do Ubajara é reconhecida por comportamentos raros de uso de ferramentas. Além de utilizarem pedras para quebrar cocos, prática já observada em outras regiões, esses primatas usam pedras para cavar e varetas para extrair aranhas de tocas, comportamento registrado anteriormente apenas na Serra da Capivara.

“Conservar essa população é fundamental não só para proteger a espécie, mas também para preservar tradições culturais transmitidas entre gerações”, afirma Tatiane. “Esses comportamentos são essenciais para a sobrevivência dos animais e ajudam a compreender aspectos da própria evolução humana.”

O monitoramento de longo prazo deverá indicar se o caso do “Fantasma” permanece isolado ou se representa um sinal mais amplo de alterações na dinâmica populacional da espécie no parque cearense.

 

  • Google Discover Icon
postado em 18/02/2026 14:37
x