
O uso da cannabis medicinal tem avançado em diversas áreas da saúde, incluindo o tratamento de condições neurológicas e comportamentais. Entre elas, está o Transtorno do Espectro Autista (TEA), quadro que pode envolver desafios na comunicação, interação social, ansiedade e sensibilidade sensorial.
Para Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil, a nova resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que amplia o acesso regulatório à cannabis medicinal é especialmente relevante no tratamento do autismo. “Para a população autista, a cannabis medicinal não é um tratamento pontual, mas muitas vezes um recurso terapêutico permanente, integrado ao cuidado em saúde”, aponta.
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Foi nesse cenário que Camila Monteiro optou por tratar o autismo nível 2 da filha de 4 anos, Giovanna, com cannabis medicinal. Diante de comportamentos como dificuldades na fala, atraso no desenvolvimento da linguagem e autoagressão, a neurologia apresentou duas possibilidades de tratamento: iniciar uma medicação convencional ou realizar uma experiência terapêutica com canabidiol. “Após a conversa entre os pais, a decisão foi pela cannabis medicinal, considerando a preferência por uma alternativa natural e a intenção de evitar, sempre que possível, a medicalização tradicional”, lembra.
A escolha não gerou resistência no âmbito familiar, social ou entre amigos, conforme relatado ao Correio. “Ao contrário, a decisão foi bem recebida e acompanhada por um olhar positivo das pessoas próximas”, Camila celebra.
Em cerca de um mês de uso, Giovanna passou a apresentar mudanças significativas. “A fala tornou-se mais clara, com palavras mais completas e formação de frases. O contato visual passou a ocorrer com mais frequência, incluindo a chamada triangulação do olhar, e a socialização apresentou melhora expressiva”, a mãe descreve. “Episódios de heteroagressão e autoagressão, como bater a cabeça com frequência e estados constantes de irritabilidade, praticamente cessaram.”
Atualmente, Camila nota eventuais desregulações da pequena, desencadeadas em situações pontuais de frustração. “Com o uso do canabidiol, a rotina tornou-se mais organizada. Antes do tratamento, possivelmente já havia desconfortos ou incômodos que não podiam ser identificados com clareza, em razão da dificuldade de comunicação. Com a evolução da fala, tornou-se mais fácil compreender o que ela sente e precisa”, argumenta.
O acompanhamento médico de Giovanna ocorre, em média, a cada seis meses. “Após cerca de nove meses de uso do canabidiol, as mudanças são consideradas extremamente positivas”, diz Camila. “A convivência tornou-se mais estável. Ela brinca, cria histórias, realiza trocas com amigos e interage com terapeutas. O tratamento inclui acompanhamento em fonoaudiologia, terapia ocupacional e método Denver, todas potencializadas com o canabidiol. Hoje nós temos outra criança em casa.”
Cannabis e autismo: o que a ciência diz
No corpo humano, existe um sistema responsável por interagir com compostos semelhantes aos presentes na cannabis: o sistema endocanabinoide. Ele é formado por receptores espalhados pelo cérebro, sistema nervoso e diversos tecidos do organismo, além de moléculas produzidas naturalmente pelo próprio corpo. Esse sistema atua como uma espécie de regulador interno, ajudando a manter o equilíbrio de diferentes funções fisiológicas, como humor, sono, dor, apetite, memória e respostas inflamatórias. Quando ativado, contribui para ajustar e modular esses processos, participando da manutenção do que a medicina chama de homeostase, ou seja, o equilíbrio do organismo.
Segundo a médica Juliana Bogado, especialista em canabidiol, tataraneta do cientista Vital Brazil, que criou o Instituto Butantan, e Coordenadora Acadêmica EndoPure Academy, medicamentos a base de canabinoides — em especial formulações ricas em canabidiol (CBD) e com baixos teores de THC — atuam como ferramenta complementar no TEA modulando o sistema endocanabinoide, reduzindo neuroinflamação, regulando a excitabilidade neuronal e a liberação de neurotransmissores.
“Além do efeito neuromodulador, há impacto em vias serotoninérgicas e em receptores TRPV1 e 5-HT1A, contribuindo para efeitos ansiolíticos, estabilizadores do humor, melhora do sono e redução de comorbidades, como ansiedade, epilepsia, infecções respiratórias recorrentes, entre outros”, acrescenta.
Os sintomas que apresentam melhor resposta ao tratamento com canabinóides incluem irritabilidade, agitação psicomotora, auto e heteroagressividade, ataques de raiva, automutilação, hiperatividade, distúrbios do sono e ansiedade. Bogado ressalta que alguns estudos também apontam melhora na atenção, cognição, linguagem expressiva e interação social, embora ainda seja necessário evidências científicas mais robustas.
Para pessoas com TEA, é recomendado níveis reduzidos de endocanabinoides como anandamida. Também têm sido observadas alterações na sinalização de receptores CB1/CB2 em autistas, fato que pode favorecer irritabilidade, agressividade e crises sensoriais. Nesse cenário, a especialista aponta o canabidiol como um restaurador de equilíbrio. “Atuando como um ‘freio’”, ilustra.
Outro ponto observado com o tratamento canábico, principalmente o CBD e o CBN, é a melhora do sono. "Ao promover sono mais reparador, observa-se, em muitos pacientes, impacto positivo secundário em autorregulação emocional, atenção, aprendizagem, consolidação de memória e redução de comportamentos desafiadores diurnos, favorecendo o desenvolvimento global e o engajamento em intervenções terapêuticas como fonoaudiologia e terapias comportamentais", explica Bogado.
Segundo a médica, a modulação global da irritabilidade, agitação, ansiedade e distúrbios do sono pode permitir, em alguns pacientes, a redução gradual de doses de antipsicóticos e outros psicofármacos. "O objetivo é reduzir a carga sintomática, melhorar a responsividade às intervenções psicoeducacionais e, quando possível, reduzir as outras medicações convencionais", afirma.
Apesar dos benefícios apontados, Bogado lembra que o tratamento exige acompanhamento médico. "É fundamental manter acompanhamento periódico, orientar sobre possíveis efeitos colaterais (sonolência, alterações de apetite, irritabilidade paradoxal), interações medicamentosas e garantir que o tratamento siga as normas regulatórias vigentes da Anvisa, do CFM e de princípios de medicina baseada em evidências", destaca.
“Ao reduzir comportamentos disruptivos, melhorar sono, modular ansiedade e favorecer maior regulação emocional, o tratamento com canabinoides pode ampliar a capacidade de participação em atividades de vida diária, terapias e contextos sociais, promovendo maior funcionalidade e autonomia progressiva em muitos pacientes com TEA. Indiretamente, essa melhora se traduz em alívio da sobrecarga dos cuidadores, redução de internações ou intervenções de urgência, e melhor qualidade de vida familiar, com mais previsibilidade da rotina e menor nível de estresse crônico no domicílio”, finaliza Bogado.

Ciência e Saúde
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