
O Cerrado brasileiro é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta e abriga cerca de 1.000 espécies de frutos nativos, sendo que muitos deles já fazem parte da culinária regional e despertam cada vez mais interesse gastronômico e comercial. O biólogo e doutor em botânica Marcelo Kuhlmann, no entanto, alerta que nem todos os frutos encontrados na natureza são seguros para consumo.
“Junto com a riqueza de diversidade dos frutos, também existem espécies que podem causar intoxicação, o que reforça a importância do conhecimento e da identificação correta das plantas antes de consumir qualquer fruto”, explica.
As informações fazem parte do livro Frutos do Cerrado – 120 espécies atrativas para Homo sapiens, no qual o pesquisador apresenta tanto frutos com potencial alimentício quanto exemplos que devem ser evitados.
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Frutos que podem causar intoxicação
De acordo com o especialista, algumas plantas produzem compostos tóxicos como estratégia natural de defesa, entre os exemplos citados ao Correio estão espécies do gênero palicourea, conhecidas por causar intoxicação em animais; plantas do gênero tabernaemontana, que produzem alcaloides potentes; e espécies do gênero cestrum, que contêm substâncias tóxicas como saponinas.
Esses compostos podem provocar sintomas como náuseas, vômitos e até distúrbios neurológicos, dependendo da espécie e da quantidade ingerida.
Esses exemplos mostram que nem todo fruto da natureza é automaticamente seguro para consumo, e que a identificação correta das espécies é fundamental. "Contrariando o mito popular, nem todo fruto que passarinho come é bom para nosso bico." alerta Kuhlmann.
Frutos comestíveis que exigem cuidado
Nem todos os riscos estão relacionados a espécies totalmente tóxicas, há também frutos que podem ser consumidos apenas em determinadas condições. Um exemplo mostrado pelo biólogo é a lobeira conhecida também como fruta-de-lobo ou guarambá (Solanum falciforme - mesma família do tomate e do jiló), bastante comum no Cerrado, que quando ainda verde, o fruto possui altas concentrações de solanina, um alcaloide tóxico presente em plantas da família Solanaceae, por conta disso não deve ser consumido imaturo.
Já quando o fruto está bem maduro, ele pode ser aproveitado principalmente no preparo de doces e geleias, processo que ajuda a reduzir a concentração dessas substâncias. Segundo o biólogo, esse conhecimento faz parte da sabedoria tradicional associada ao uso das plantas nativas.
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Compostos tóxicos presentes em frutos
O biólogo explica que entre as substâncias potencialmente perigosas encontradas em algumas espécies em frutos do Cerrado estão:
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Alcaloides, como a solanina em algumas espécies de Solanum, que podem causar náuseas, vômitos e distúrbios neurológicos.
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Furanocumarinas, presentes em algumas plantas medicinais, que podem provocar fotossensibilização na pele.
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Glicosídeos tóxicos e ácido monofluoracético (MFA), encontrados em algumas Rubiaceae, associados a intoxicações em animais.
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Látex com compostos irritantes, comum em espécies de famílias como Euphorbiaceae e Apocynaceae.
“Essas substâncias fazem parte da estratégia evolutiva das plantas. O efeito depende muito da espécie, da dose e da forma de preparo”, explica o pesquisador.
Falta de conhecimento aumenta riscos
Para Kuhlmann, a principal causa de intoxicações envolvendo frutos silvestres é a falta de conhecimento sobre as espécies: "Minha principal recomendação é nunca consumir um fruto sem ter certeza absoluta da identificação da planta." alerta o biólogo, e também explica que existem guias botânicos confiáveis e a orientação de especialistas podem ajudar a evitar erros.
“Muitas pessoas acreditam que tudo que nasce no mato é seguro para comer. Outras têm medo de qualquer planta nativa. A verdade está no meio: existem frutos deliciosos e nutritivos, mas também existem espécies tóxicas”, afirma.
Potencial gastronômico do Cerrado
Apesar dos riscos associados a algumas espécies, o Cerrado também abriga frutos com grande valor nutricional, gastronômico e um sabor único, entre eles estão o jatobá, o baru, o pequi, a cagaita, o cajuzinho-do-cerrado, a pimenta-de-macaco e a baunilha-do-cerrado. Esses frutos vêm ganhando espaço na culinária e despertando interesse de pesquisadores e chefs.
Para o biólogo, valorizar os frutos nativos também pode contribuir para a preservação do bioma. “O Cerrado é conhecido como o berço das águas do Brasil. Conhecer e consumir seus frutos de forma responsável também é uma maneira de proteger a biodiversidade e as áreas de vegetação nativa”, conclui.
*Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca
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