MEDICINA

Descoberta revela por que o combate ao câncer nem sempre funciona

Cientistas identificam processo em duas etapas que bloqueia a morte programada de células cancerígenas. Achado pode revolucionar os medicamentos oncológicos

Pesquisadores identificaram um mecanismo detalhado que permite às células cancerígenas resistirem a tratamentos como quimioterapia e radioterapia. O estudo, publicado na revista científica ACS Chemical Biology, mostra como uma proteína chamada Bcl-2 impede que células doentes entrem em um processo natural de autodestruição conhecido como apoptose.

A descoberta ajuda a explicar por que muitos tumores conseguem sobreviver mesmo após terapias agressivas e pode orientar o desenvolvimento de novos medicamentos no futuro.

A apoptose é um mecanismo essencial do corpo humano. Trata-se de uma espécie de “morte programada” que elimina células danificadas, envelhecidas ou potencialmente perigosas. Esse processo é fundamental durante o desenvolvimento do organismo e também para o funcionamento do sistema imunológico. Quando ele falha, como ocorre em muitos tipos de câncer, células defeituosas passam a se multiplicar sem controle, formando tumores.

Grande parte dos tratamentos contra o câncer atua justamente ativando esse sistema de autodestruição. No entanto, nem sempre funciona.

O estudo revelou detalhes inéditos sobre a atuação da proteína Bcl-2, considerada um “guardião” celular. Ela atua impedindo a ação de outra proteína, chamada Bax, que normalmente desencadeia a apoptose. Os pesquisadores descobriram que a Bcl-2 bloqueia a Bax em um processo em duas etapas.

Primeiro, em poucos minutos, a Bcl-2 captura moléculas individuais de Bax e forma pares com elas. Depois, ao longo de horas, esses pares induzem a formação de agrupamentos maiores de Bax, chamados oligômeros.

O ponto central é que essa organização força a Bax a se afastar da membrana da mitocôndria, onde ela deveria agir. Sem conseguir alcançar essa região, a proteína não consegue formar os “poros” que levariam à morte celular.

Segundo o professor Gerhard Gröbner, da Universidade de Umeå (Suécia) e autor principal do estudo, a proteína protetora consegue bloquear simultaneamente várias moléculas de Bax, tornando o processo mais eficiente do que se imaginava. Isso significa que nem mesmo grandes quantidades de Bax, como as geradas durante tratamentos, são suficientes para vencer essa barreira.

Para entender esse mecanismo em nível molecular, os pesquisadores utilizaram técnicas avançadas, como refletometria de nêutrons e espectroscopia ATR-FTIR. Esses métodos permitem observar como proteínas se comportam em membranas que simulam as condições reais das células.

Os experimentos também analisaram o papel de um lipídio chamado cardiolipina, presente na membrana mitocondrial. Normalmente, essa substância facilita a ação da Bax. No entanto, os resultados mostraram que, mesmo em ambientes ricos em cardiolipina, a Bcl-2 continua impedindo a formação dos poros que levariam à morte celular.

O que isso significa para a ciência

A pesquisa ajuda a explicar por que tumores com altos níveis de Bcl-2 costumam ser mais resistentes ao tratamento.

Em cerca de metade dos cânceres humanos, há produção elevada dessa proteína, o que contribui para o crescimento do tumor e para a baixa resposta às terapias. Compreender esse mecanismo em detalhes abre novas possibilidades para a oncologia. Uma das estratégias futuras pode ser o desenvolvimento de medicamentos capazes de bloquear a ação da Bcl-2 ou desmontar os complexos que ela forma com a Bax.

Se isso for possível, os tratamentos poderiam recuperar a capacidade de induzir a morte das células cancerígenas. Segundo Gröbner, esse tipo de conhecimento pode, a longo prazo, contribuir para terapias mais eficazes e direcionadas contra o câncer.

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