
O robô explorador rover Perseverance da Nasa descobriu evidências de que uma camada de rocha antiga com 75 metros de espessura na borda da Cratera Jerezo foi formada por repetidos impactos de asteroides. Apelidada de Broom Point Member pela equipe científica do rover, essa sequência de rochas estratificadas provavelmente tem mais de 3,9 bilhões de anos, o que a torna um dos terrenos mais antigos já examinados por um rover em Marte.
Divulgados nesta quarta-feira (15/7), na revista científica Journal of Geophysical Research: Planets, os resultados oferecem um vislumbre de um dos capítulos mais turbulentos da história do sistema solar.
“Desde que deixou Jezero, a Perseverance tem explorado uma fronteira totalmente nova, tanto geográfica quanto geologicamente, um capítulo da história marciana que antecede a própria cratera”, disse Ken Farley, cientista adjunto do projeto Perseverance no Caltech, em Pasadena, Califórnia. “Na Terra, nossa história geológica mais antiga foi fundamentalmente fragmentada, deformada e apagada pela tectônica de placas. Como Marte não possui tectônica de placas para reciclar sua crosta, esse registro antigo permanece intacto, proporcionando-nos um vislumbre raro de um período geológico que não existe em nosso planeta.”
Após subir na borda oeste da Cratera no final de 2024, o Perseverance começou a examinar as áreas em volta com seus instrumentos científicos. Os dados coletados em Broom Point revelaram seis tipos distintos de rochas, incluindo brechas, que são rochas compostas por fragmentos angulares, alternadas com camadas de pó de rocha fina e pulverizada. Os fragmentos de rocha dentro das brechas apresentam cavidades de bolhas de gás, o que indica que já estavam em estado líquido.
A presença desses fragmentos oferece uma pista sobre como essas rochas se formaram. Isso porque, embora vulcões possam produzir um efeito semelhante, raramente ocorrem em tamanha abundância, o que indica que impactos de asteroides podem ser os principais responsáveis por sua formação.
Ou seja, a muito anos atrás, em vez de chuva ou neve o “clima” naquela época era composto por uma barragem constante de gotas de rocha derretida e poeira pulverizada lançada por impactos de asteroides. Os cientistas descreveram isso ao ler um “relatório meteorológico cósmico” de 4 bilhões de anos atrás.
Um dos mistérios que o Perseverance ajudou a resolver foi a posição estranha das rochas em "Broom Point", que estão quase na vertical, inclinadas em 80 graus, efeito causado por dois eventos catastróficos em sequência. O primeiro deles, foi quando um asteroide atingiu a superfície do planeta e criou a Bacia de Isidis, uma cratera gigantesca com 1.900 quilômetros de largura. Esse impacto foi tão poderoso que virou e inclinou as camadas de rocha que antes eram perfeitamente planas.
Posteriormente, um segundo asteroide, menor, mas ainda devastador, atingiu a mesma região, criando a Cratera Jezero. Esse novo impacto quebrou e empurrou para cima as rochas que já estavam inclinadas, deixando-as nas formações dramáticas e quase verticais que o rover fotografa hoje
Além das descobertas, o rover já garantiu o material para o futuro, ele coletou duas amostras de núcleo de rocha, apelidadas de “Bell Island" e “Main River”, extraídas diretamente dessas camadas antigas. Essas amostras estão agora seladas e aguardam uma missão futura que as traga para nosso planeta.
Embora o Perseverance seja tecnologicamente avançado, ele não possui os instrumentos necessários para determinar a idade exata das rochas. Trazer esse material para a Terra permitirá que cientistas usem laboratórios de ponta para realizar uma datação de precisão, revelando exatamente quando e com que frequência esses asteroides atingiram Marte
Ao estudar as rochas de Marte, estamos aprendendo também sobre a “infância” da terra. Isso porque, como nosso planeta, recicla sua costa, registros de impactos sofridos há bilhões de anos são perdidos.
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