Uma cirurgia inédita realizada no Distrito Federal devolveu a perspectiva de voltar a caminhar à aposentada Celina Araújo Xavier, de 74 anos, moradora do Jardim Botânico, em Brasília. Ela havia perdido grande parte da estrutura óssea da bacia após uma fratura ao redor de uma prótese de quadril que não foi identificada no atendimento inicial.
O procedimento, considerado de alta complexidade, utilizou um enxerto ósseo estrutural obtido em um banco de tecidos para reconstruir a região comprometida e permitir a implantação de uma nova prótese. A intervenção é apontada pelos especialistas como a primeira desse tipo realizada na capital federal.
A operação foi conduzida pelo ortopedista Abner Alberti, especialista em cirurgia e prótese de quadril da clínica MEO – Medicina Esportiva e Ortopedia, e mobilizou uma equipe multidisciplinar durante aproximadamente oito horas.
Além do enxerto proveniente do Banco de Tecidos do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro, o planejamento incluiu reconstrução virtual da anatomia da paciente e impressão de modelos tridimensionais para simular todas as etapas da cirurgia antes da entrada no centro cirúrgico.
Uma queda que mudou tudo
O problema começou após um tropeço. Celina Araújo Xavier já utilizava uma prótese de quadril havia oito anos e levava uma vida ativa. Ela conta ao Correio que a lesão interrompeu uma rotina marcada pela independência e pela prática de atividades físicas. "Eu tinha uma rotina normal de uma dona de casa, fazia minha musculação, saía para passear, era normal."
Depois da queda, exames de imagem apontaram apenas uma lesão muscular, sem que fosse identificada a discreta fratura ao redor da prótese. Sem o diagnóstico correto, ela iniciou sessões de fisioterapia e continuou apoiando o peso sobre a perna afetada, o que permitiu o agravamento progressivo da lesão.
Com o passar dos meses, a limitação tornou-se cada vez maior. "Percebi que era mais grave quando os instrumentos que eu tinha de ajuda já não estavam satisfazendo a minha vontade de caminhar."
Segundo o ortopedista Abner Alberti, foi justamente a fratura não diagnosticada que desencadeou um processo contínuo de desgaste ósseo.
"A prótese tem uma superfície muito áspera, justamente para aderir ao osso. Ela é encaixada sob pressão na bacia do paciente, em uma cavidade chamada acetábulo. Como a paciente sofreu uma fratura exatamente nesse local, a prótese perdeu a fixação. Com o movimento e o atrito constante dessa superfície áspera contra o osso, houve um desgaste acelerado da região, provocando uma perda óssea extensa ao longo do tempo."
O diagnóstico que revelou a gravidade
Ao procurar atendimento especializado, Celina já apresentava um quadro extremamente grave. Grande parte da estrutura óssea que sustentava a prótese havia sido destruída, tornando a reconstrução uma das poucas alternativas para preservar a função do quadril.
Ao analisar os exames, Abner Alberti conta que a equipe encontrou um cenário delicado. "Quando avaliamos os exames, vimos que ela praticamente não tinha mais o osso da bacia do lado direito. A prótese havia migrado para dentro da pelve, muito próxima dos órgãos, vasos sanguíneos e nervo. Era uma situação extremamente delicada e a alternativa capaz de devolver função ao quadril encontrada, foi uma reconstrução com enxerto ósseo estrutural."
Para Celina, a notícia de que existia uma cirurgia capaz de reconstruir o quadril representou uma mudança radical de perspectiva. "Foi muito bom. Sempre tive muita fé em Deus e na evolução da ciência."
Como foi planejada a reconstrução inédita
A preparação para o procedimento começou semanas antes da operação. Em parceria com o Banco de Tecidos do Into, foi selecionado um enxerto compatível com a necessidade da paciente.
Segundo Abner Alberti, o material utilizado correspondeu a parte da pelve de um doador. "Utilizamos como enxerto uma hemipelve, ou seja, metade de uma bacia. Dessa hemipelve retiramos um acetábulo completo, que foi preparado para substituir exatamente a área do quadril onde havia ocorrido a perda óssea."
O médico explica que o planejamento começou ainda antes da obtenção do enxerto, com exames para determinar a extensão da perda óssea e definir exatamente o material necessário para a reconstrução.
"Inicialmente, foram realizados exames para determinar a extensão da perda óssea e o tamanho do enxerto necessário. Com essas informações definidas, entramos em contato com o banco de tecidos do INTO, que ficou responsável pela captação e pelo processamento do enxerto."
Enquanto aguardava a chegada do enxerto, a equipe também preparava todos os detalhes da cirurgia. "Nossa equipe realizou um planejamento extremamente detalhado da cirurgia. Programamos todos os cortes necessários, além do tamanho e da posição de cada parafuso. No dia do procedimento, uma parte da equipe operou a paciente e preparou a área que receberia o enxerto, enquanto a outra preparou o enxerto, executando exatamente o que havia sido planejado."
Como funciona o enxerto ósseo
Antes de chegar ao centro cirúrgico, o tecido passou por um rigoroso protocolo de segurança. "O enxerto passa por um preparo extremamente cuidadoso. Todo o material orgânico do doador é removido para reduzir ao máximo qualquer risco de rejeição. Depois, o tecido é descontaminado, submetido a testes para vírus, bactérias e fungos, permanece em quarentena e é armazenado a aproximadamente 80 graus negativos até o momento da cirurgia", explica Abner Alberti.
Em entrevista ao Correio, o ortopedista detalha que o banco de tecidos remove praticamente toda a parte orgânica do osso doado antes que ele seja utilizado.
"O banco de tecidos realiza a captação do osso de um doador falecido, assim como acontece com outros órgãos, como coração e rim. Esse osso é congelado em temperaturas extremamente baixas e, em seguida, passa por um processamento que remove praticamente toda a parte orgânica aderida a ele, como tendões, músculos, ligamentos, cartilagem e medula óssea, permanecendo principalmente a parte mineral, formada por cálcio, fósforo, magnésio e outros minerais."
Ele completou: "Depois disso, o enxerto passa por um período de quarentena, durante o qual é certificado que não existe contaminação por bactérias, vírus, fungos ou outras doenças. Como resta muito pouca matéria orgânica, a reação de rejeição é mínima. Por isso, não é necessário que o paciente utilize medicamentos imunossupressores."
O especialista ressalta que esse tipo de transplante difere dos transplantes de órgãos sólidos. "Não existe necessidade de medicamentos imunossupressores. Com o passar do tempo, as células da própria paciente colonizam esse enxerto. Aos poucos, aquele osso deixa de ser apenas um tecido transplantado e passa a fazer parte do organismo. É um processo biológico extraordinário."
Outro diferencial do procedimento foi o planejamento em três dimensões. Antes da cirurgia, a equipe simulou toda a reconstrução utilizando modelos impressos em 3D, o que permitiu antecipar cada etapa da operação e reduzir o tempo no centro cirúrgico.
Ao Correio, Alberti afirma que a tecnologia foi determinante para aumentar a precisão da reconstrução. "Com a impressão em 3D, pudemos 'operar' a paciente antes mesmo de a cirurgia acontecer. Simulamos todos os cortes, a colocação de cada parafuso e da nova prótese. Assim, quando chegou o momento da cirurgia, já sabíamos exatamente o que encontraríamos. Sem o auxílio da impressão 3D, o planejamento provavelmente não seria tão realista nem tão preciso."
Segundo o ortopedista, o ensaio prévio permitiu que a equipe chegasse ao procedimento com todas as etapas previamente definidas.
"Nós ensaiamos toda a cirurgia antes de entrar no centro cirúrgico. Fizemos os cortes no modelo, definimos exatamente onde seriam posicionados os parafusos e como seria implantada a nova prótese. Em uma cirurgia dessa magnitude, cada minuto faz diferença. O planejamento reduz riscos e aumenta muito a precisão do procedimento."
Enquanto a equipe finalizava os preparativos, Celina aguardava a chegada do enxerto ósseo, etapa que levou cerca de dois meses. Ela admite que o período foi marcado por ansiedade, mas também pela confiança de que o procedimento poderia devolver sua autonomia.
"Primeiro tive muito medo, demorou dois meses para recebermos o osso, né? Quando acordei da cirurgia foi muito bom porque percebi que estava viva (risos), mas o processo foi tranquilo, sem dor."
A cirurgia durou aproximadamente oito horas. Durante o procedimento, os médicos reconstruíram a região destruída da pelve com um grande bloco de osso doado, fixado por parafusos especiais para criar uma nova base capaz de receber a prótese de quadril.
O ortopedista explica que a complexidade da operação ia muito além da reconstrução da estrutura óssea. "Tudo nessa cirurgia é desafiador: desde conseguir o enxerto adequado até retirar a prótese antiga, que havia migrado para dentro da bacia, muito próxima de órgãos importantes. Também foi necessário realizar os cortes no quadril com extrema precisão para que o enxerto se encaixasse perfeitamente, sempre tomando o cuidado de preservar vasos sanguíneos e nervos importantes. Por fim, o maior desafio é aguardar a integração do enxerto ao osso da paciente."
Recuperação e expectativa de voltar a andar
A evolução clínica após o procedimento tem sido considerada positiva. Segundo o ortopedista, Celina já retornou para avaliação, não apresenta dores importantes e utiliza apenas analgésicos simples enquanto inicia a fase de recuperação.
"A paciente já fez um retorno pós-operatório, está sem dor importante, utiliza apenas analgésicos simples e está extremamente motivada. Agora começa uma nova fase, que talvez seja a mais importante de todo o tratamento", afirma Alberti.
O sucesso definitivo da cirurgia, entretanto, depende da incorporação do enxerto pelo organismo da paciente. O médico explica que esse processo ocorre gradualmente, à medida que novas células e vasos sanguíneos passam a ocupar a estrutura transplantada.
"O enxerto estrutural funciona como um molde rígido, composto por minerais. Gradualmente, ele passa a ser ocupado pelas células da própria paciente. Essas células dão origem a novos vasos sanguíneos e, aos poucos, colonizam o enxerto, conduzindo o crescimento de um novo tecido ósseo na região."
Caso a consolidação ocorra conforme o esperado, a reabilitação deverá começar em aproximadamente três meses. "Tudo depende da incorporação desse enxerto. Se a evolução continuar como esperamos, iniciaremos um programa específico de reabilitação, incluindo treinamento em esteira antigravitacional, que reduz o impacto sobre a reconstrução e permite uma recuperação mais segura", explica Abner Alberti.
Para o especialista, além de demonstrar a capacidade técnica da equipe, o caso também reforça a importância de investigar dores persistentes em pacientes que possuem próteses de quadril.
"O principal sinal de alerta é a dor. Após o período de recuperação da cirurgia, uma prótese de quadril não deve causar dor. Se houver dor persistente, alteração na forma de caminhar ou sinais no local da prótese, como inchaço ou vermelhidão, o paciente deve procurar um médico especialista para que seja feita uma avaliação até que se encontre o diagnóstico e seja proposto o tratamento adequado."
Na avaliação do ortopedista, a cirurgia representa um marco para a ortopedia do Distrito Federal e demonstra que procedimentos altamente complexos podem ser realizados na capital.
"Nosso maior objetivo é devolver autonomia e qualidade de vida. Essa paciente chegou sem perspectivas de voltar a andar e hoje temos uma expectativa muito concreta de recuperação. É um procedimento extremamente desafiador, que só foi possível graças ao planejamento detalhado, ao trabalho multidisciplinar, à colaboração dos colegas cirurgiões o Dr Diogo Souto, Dr Anderson Freitas e Dr Eduardo Duarte, e à cooperação da equipe do Dr Rafael Prinz que nos colocou à disponibilidade um banco de tecidos de alta qualidade como o INTO."
Enquanto aguarda o início da reabilitação, Celina diz que voltou a fazer planos para o futuro. A expectativa agora é recuperar a autonomia que perdeu após a queda e retomar, aos poucos, a rotina que levava antes da lesão.
"Espero que se Deus quiser até o fim do ano, estarei andando novamente. Estamos cumprindo as etapas com disciplina para que isso se torne realidade."
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