
A cidade turca de Antália recebe, a partir desta segunda-feira (9), a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), em meio ao agravamento da crise climática e à pressão internacional por medidas efetivas para conter o aquecimento global. A redução da dependência dos combustíveis fósseis, o financiamento climático e a transição energética estão entre os principais desafios da agenda. A edição terá uma configuração inédita: enquanto a Turquia assume a presidência do encontro, a Austrália ficará responsável pela condução das negociações diplomáticas.
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Após sediar a COP30, em Belém, o Brasil passa o comando do encontro à Turquia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou presença. A expectativa é que as discussões avancem na implementação do Acordo de Paris, firmado em 2015, e na definição de medidas para reduzir as emissões e preparar os países para os impactos das mudanças climáticas. A conferência reunirá representantes de quase 200 países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), além de líderes mundiais, cientistas, organizações ambientais e integrantes da sociedade civil.
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Uma das contribuições brasileiras para a agenda será a continuidade dos Mapas do Caminho apresentados pela presidência da COP30. Os documentos propõem estratégias para orientar duas frentes: a transição para longe dos combustíveis fósseis e o combate ao desmatamento e à degradação florestal.
A urgência das negociações é reforçada pelos indicadores climáticos. As políticas adotadas pelos países ainda são insuficientes para limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Ondas de calor, secas prolongadas e enchentes cada vez mais severas evidenciam a necessidade de reduzir as emissões e ampliar as medidas de adaptação, sobretudo para proteger as populações mais vulneráveis.
Para o engenheiro florestal e gerente senior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, André Ferretti, as tensões geopolíticas e econômicas dificultam a construção de consensos, especialmente diante das diferentes responsabilidades e capacidades dos países. Entre as prioridades, ele destaca a aceleração da transição energética, o financiamento de ações de mitigação e adaptação e a promoção da justiça climática.
"Mais do que propor novas metas e anunciar grandes acordos, o foco deve ser garantir a implementação prática do que já foi negociado. A COP31 precisa apresentar resultados concretos e mensuráveis", afirma o especialista.
Combustíveis fósseis
A redução da dependência de carvão, petróleo e gás natural, responsáveis por uma parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa, deve concentrar parte das discussões. O abandono dessas fontes exige mudanças na matriz energética e em setores como transporte, indústria e construção. Apesar da urgência, a definição de um calendário internacional para essa transição ainda enfrenta resistência entre os países.
Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, considera que a ausência de uma discussão formal sobre a eliminação dos combustíveis fósseis nos espaços oficiais de negociação compromete os avanços da agenda climática. Para ele, a dificuldade de colocar o tema na mesa revela uma fragilidade do próprio regime internacional do clima. "Minha expectativa para essa COP31 não é muito alta. É difícil até avaliar o que seria um fracasso, porque, a meu ver, ele já está colocado pela recusa dos países em promover uma discussão séria sobre os combustíveis fósseis dentro das negociações."
Angelo lembra que a elaboração de um Mapa do Caminho para orientar o afastamento dessas fontes partiu de uma iniciativa da presidência brasileira da COP30, já que o tema não avançou nos espaços formais de negociação. "Foi necessário que a própria presidência da conferência elaborasse um roteiro por iniciativa própria, porque os países não conseguiram avançar em uma discussão formal. Isso representa uma falha não apenas de uma COP específica, mas do próprio regime climático internacional", avalia.
Além da redução dessas fontes, a presidência turca pretende estimular a eletrificação das atividades econômicas. Uma das propostas é o compromisso voluntário "35 até 35", que busca elevar de aproximadamente 23% para 35% a participação da eletricidade no consumo final de energia mundial até 2035. Para que a iniciativa contribua efetivamente para reduzir as emissões, será necessário ampliar a geração de energia renovável e investir em redes elétricas, armazenamento e eficiência energética.
Outro eixo central será o financiamento climático, especialmente o apoio às nações em desenvolvimento. Na COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão, em 2024, os países estabeleceram a meta de mobilizar pelo menos US$ 300 bilhões anuais até 2035 para financiar ações climáticas nesses territórios. Em Antália, as discussões deverão avançar sobre a origem dos recursos, a divisão das responsabilidades e as condições para facilitar o acesso ao dinheiro.
Carlos Nobre, climatologista e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o Brasil chegará à COP31 com a missão de defender os mapas do caminho para eliminar os combustíveis fósseis e combater o desmatamento até 2030. Para ele, o país deve manter o protagonismo climático. "Temos que ter algum otimismo para que essas ações levem o Brasil a uma liderança no combate a essa grande emergência climática", afirma.
Nobre também defende maior financiamento climático e demonstra preocupação com as emissões dos Estados Unidos, historicamente responsáveis por cerca de 25% do total acumulado desde 1850. "É essencial que, daqui a dois anos, os Estados Unidos elejam um presidente que deverá contribuir muito para combater a emergência climática", ressalta.
Duas perguntas para:
Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima
O mundo está tentando resolver a crise climática ou apenas aprender a conviver com ela?
A Convenção do Clima e o Acordo de Paris foram criados para resolver o problema, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa e evitando uma interferência perigosa no sistema climático. O Acordo de Paris também prevê a adaptação às mudanças inevitáveis e o alinhamento dos fluxos financeiros a uma economia descarbonizada. O perigo, agora, é jogar a toalha em relação à mitigação e achar que basta se adaptar. É óbvio que precisamos ampliar a adaptação, porque os eventos extremos estão cada vez mais frequentes e intensos. Mas, se não acabarmos com o petróleo, o carvão, o gás fóssil e o desmatamento em um prazo muito curto, não conseguiremos enfrentar mudanças climáticas acima de 2°C ou 3°C.
Por que o dinheiro continua sendo um dos maiores obstáculos ao combate às mudanças climáticas?
Porque o dinheiro não veio. Os países ricos, maiores responsáveis históricos pela mudança do clima, não pagam sua dívida climática e ainda insistem que os países em desenvolvimento também precisam financiar as nações mais pobres. Isso cria um impasse permanente nas negociações. Os países mais vulneráveis precisam de financiamento público, com juros abaixo dos praticados pelo mercado, para realizar ações de adaptação. Não faz sentido que aumentem suas dívidas para enfrentar impactos climáticos causados, principalmente, por outros países. É uma questão de equidade e justiça. Além disso, países que eram considerados em desenvolvimento na década de 1990, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, hoje são muito ricos e também precisam contribuir. O problema é que países como Estados Unidos, Canadá, Japão e os europeus ainda não chegaram perto de sua contribuição justa. Por isso, se tivesse que apostar no que vai causar confusão em Antália, apostaria que será o financiamento climático.
Palavra de especialista
Expectativa
Como cientista, espero que a COP31 seja um espaço em que a ciência esteja cada vez mais próxima das decisões políticas. Produzimos conhecimento, dados e evidências que podem contribuir muito para enfrentar as mudanças climáticas, mas ainda precisamos avançar para que esse conhecimento seja efetivamente considerado na construção de políticas públicas e ações concretas. Também espero que os oceanos recebam maior atenção nas discussões climáticas. Eles desempenham um papel fundamental na regulação do clima e no ciclo global do carbono, e compreender melhor suas respostas às mudanças climáticas é essencial para entendermos o futuro do nosso planeta. Outra expectativa é que haja mais investimentos em ciência, especialmente em pesquisas de longo prazo, monitoramento ambiental e infraestrutura científica. Precisamos de continuidade nas observações e de condições para que os pesquisadores possam desenvolver seus trabalhos e produzir conhecimento de qualidade. Espero também que a COP31 fortaleça a cooperação científica internacional, incentivando parcerias, trocas de experiências e compartilhamento de dados, porque os desafios climáticos não respeitam fronteiras e precisam ser enfrentados coletivamente.
Celina Rodrigues, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) apoiada pelo Instituto Serrapilheira
Estagiária sob a supervisão de Marcelo Abreu
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