Uma pancada no peito durante uma partida de futebol pode provocar uma parada cardíaca, mesmo quando a vítima é um atleta jovem e sem histórico conhecido de problemas de saúde. Uma das hipóteses para explicar esse tipo de ocorrência é a commotio cordis, condição rara em que um impacto na região do coração desencadeia uma arritmia grave. O mecanismo pode estar relacionado à morte do jogador Jesús de Miguel, do Tenerife, na Espanha, mas ainda não há confirmação sobre a causa.
Segundo o cardiologista e intensivista Hugo Faria, a commotio cordis ocorre quando o impacto atinge o tórax em um momento específico de vulnerabilidade elétrica do coração. Nesse intervalo, a energia mecânica da pancada pode provocar uma instabilidade capaz de desencadear a fibrilação ventricular, uma arritmia em que o coração perde a capacidade de bombear sangue de forma eficaz.
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“Pelas circunstâncias descritas, essa é uma hipótese que precisa ser considerada”, explica Faria ao Correio. O médico ressalta, no entanto, que não é possível atribuir a morte à condição sem conhecer os registros da reanimação, os exames realizados e os resultados da investigação médica.
O especialista também aponta outras possibilidades, como uma contusão cardíaca grave, lesões estruturais provocadas pelo trauma ou uma doença cardíaca que ainda não havia sido diagnosticada.
Como uma pancada pode afetar o coração
A commotio cordis é diferente de uma lesão física no músculo cardíaco. Na primeira, o impacto provoca principalmente uma alteração elétrica no funcionamento do órgão, sem necessariamente causar danos à sua estrutura. Já na contusão cardíaca, o trauma lesiona o próprio músculo, podendo provocar sangramento, inchaço, alterações na contração e também arritmias.
O mecanismo da commotio cordis está associado a uma janela de aproximadamente 20 milissegundos durante a repolarização elétrica dos ventrículos, período em que o coração se encontra mais vulnerável. Se o impacto ocorrer nessa fase, pode desencadear uma arritmia fatal.
Embora seja mais frequente em adolescentes, a condição também pode atingir adultos. Faria explica que não é necessário haver uma doença cardíaca prévia para que o episódio aconteça. “Uma pessoa pode ter excelente condicionamento físico, praticar esportes regularmente e ainda assim sofrer uma arritmia fatal desencadeada por um trauma torácico”, afirma.
Reanimação não elimina risco de lesão cerebral
Quando uma pessoa sofre uma parada cardíaca, o cérebro deixa de receber o fluxo sanguíneo e a oxigenação necessários para funcionar. Mesmo que a equipe médica consiga restabelecer os batimentos, a falta de circulação durante o episódio pode provocar danos neurológicos.
O cardiologista explica que uma das possíveis consequências é a lesão cerebral hipóxico-isquêmica, causada pela redução ou interrupção do fornecimento de oxigênio e sangue ao cérebro. No entanto, em casos que envolvem trauma, também é necessário investigar lesões cranianas e outras complicações neurológicas.
A evolução do quadro depende de fatores como o tempo de parada cardíaca, a qualidade das manobras de reanimação e as condições clínicas do paciente após o retorno da circulação.
Atendimento rápido pode fazer diferença
O reconhecimento imediato da parada cardíaca é determinante para as chances de sobrevivência. Nos casos em que ocorre fibrilação ventricular, a massagem cardíaca e o uso de um desfibrilador podem interromper a arritmia e permitir que o coração retome uma atividade elétrica organizada.
De acordo com Faria, a disponibilidade de desfibriladores em ambientes esportivos e o início rápido da reanimação contribuíram para melhorar as chances de sobrevivência em casos de commotio cordis.
O médico alerta ainda que a perda de consciência após uma pancada no tórax não deve ser tratada automaticamente como um simples desmaio. “É fundamental reconhecer rapidamente uma possível parada cardíaca, iniciar as manobras de reanimação e utilizar o desfibrilador quando indicado. Em situações como essa, cada minuto faz diferença”, afirma.
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