
Por Raquel Cândido* — Nos dias 25 e 26 de maio, a OAB/DF realizará a IV Conferência Distrital da Mulher Advogada, e terei a honra de mediar um painel composto por mulheres admiráveis, que venceram toda sorte de dificuldades e "chegaram lá".
O título do painel traz, por si só, uma reflexão urgente: "Liderança, cobrança e julgamento: o custo desigual das decisões em posições de poder".
Chegar à liderança é mais difícil para as mulheres? Sem dúvida. Uma vez no topo da montanha, a vida se torna mais fácil? Não.
Ao me preparar para o evento, pensei nos desafios enfrentados pelas mulheres para alcançar posições de liderança, especialmente nos espaços que exigem articulação política, como promoções por merecimento, vagas do quinto constitucional e representações no CNJ e no CNMP.
Os dados reunidos pela advogada Ana Carolina Caputo, no artigo "A antessala do poder", revelam que, embora tenha havido avanços importantes na presença feminina na advocacia, os espaços de maior poder institucional ainda permanecem marcadamente masculinos. O acesso a eles traz desafios próprios para as mulheres e a mudança dessa realidade demandará tempo, estratégia e disposição para reduzir a distância ainda absurda entre a realidade e o sonho da equidade.
Como apontou Ana Carolina, as articulações para ocupação desses espaços ocorrem dentro de dinâmicas pouco transparentes para as mulheres.
E o que acontece quando a ínfima minoria ascende?
Quando o jogo muda de fase, o desafio contemporâneo já não é apenas garantir acesso, é também naturalizar legitimidade.
A presença feminina em espaços de poder ainda produz estranhamento. Quando ocupamos lugares relevantes, isso continua sendo percebido como um "evento". A verdadeira legitimidade virá quando deixarmos de ser tratadas como exceção.
As regras do jogo são diferentes para homens e mulheres. Não necessariamente nas regras formais, mas nas expectativas invisíveis a que somos submetidas.
Enquanto homens costumam ser legitimados pelos resultados que entregam, mulheres frequentemente ainda precisam administrar a percepção emocional produzida pela forma como lideram e pelos comportamentos que manifestam no exercício do poder.
São os velhos clichês que confundem firmeza feminina com dureza, objetividade com grosseria e a constante exigência de equilíbrio entre autoridade e aceitabilidade.
Recordo-me de uma reunião política difícil em que, visivelmente incomodada com determinado encaminhamento, recebi a mensagem de um colega: "melhore essa cara fechada, você consegue muito mais coisas quando sorri".
Em situação semelhante, ele enviaria esse conselho a um colega homem? Muito provavelmente, não.
A consequência prática dessa diferença de critérios é que nossa liderança exige excesso de performance: acertar mais, justificar mais, comunicar melhor e administrar constantemente os impactos relacionais das nossas decisões.
Em muitos espaços institucionais, mulheres não administram apenas decisões. Gerenciam também a percepção produzida por elas.
O impacto dessas assimetrias vai além da experiência individual. Ele produz desestímulo silencioso, empobrecimento institucional e perda de diversidade nos espaços de liderança.
A ausência de identificação e representatividade também afeta as gerações futuras, que enxergam a paridade com muito mais naturalidade do que aquelas que as antecederam.
Se queremos uma sociedade justa e equilibrada, precisamos naturalizar a liderança feminina e abandonar regras invisíveis que continuam sendo aplicadas apenas a nós.
O verdadeiro avanço institucional acontece quando mulheres deixam de ser permanentemente avaliadas como exceção e passam a ser reconhecidas simplesmente como liderança.
Enquanto esse dia não chega, seguimos defendendo e preservando a equidade e a paridade nos espaços de decisão, não como concessão, mas como parte do amadurecimento das próprias instituições.
Por nós. Pelas que virão. Seguimos em frente.
Advogada, sócia do Magalhães e Dias Advocacia, Diretora-Tesoureira da OAB/DF e Presidente da Comissão Especial de Defesa da Concorrência do Conselho Federal da OAB*
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