Cinema

Histórias de amor e luta vividas na maternidade ganham telas de cinema

Filmes como 'Mar de dentro', 'Pureza' e 'A mãe' mostram do extremado amor das mães até emoções bastante particulares trazidas pela gestação

Ricardo Daehn
postado em 20/04/2022 06:00 / atualizado em 20/04/2022 06:09
 (crédito: PHILIPPE LOPEZ)
(crédito: PHILIPPE LOPEZ)

Ainda que, à primeira vista, temas relacionados a trajetórias de mães tragam a sensação de conforto e acolhimento, as nuances exploradas no audiovisual apontam para enredos multifacetados e apoiados em reflexões até mesmo sombrias. A perda um filho, o percurso de uma mãe batalhadora que luta, até o último momento, pela libertação de um rebento engolido por sistema escravagista contemporâneo e a relutância e os fortes tropeços de uma maternidade não perfeitamente assimilada fazem parte dos retratos de enredos dispostos em longas como A mãe (representante do Brasil, no festival espanhol de Málaga), Pureza (drama prestes a estrear) e Mar de dentro, este último, em cartaz na cidade.

Diretora do longa Mar de dentro, Dainara Toffoli, no longa protagonizado por Mônica Iozzi, pretendeu retratar um processo íntimo da libertação de uma mulher com independência financeira, centrada, e que se depara com gravidez não planejada. "Existe uma automação mental de modelo da mulher, de uma forma geral. Quando comecei a pensar nesse projeto, fui questionada, inúmeras vezes, se a maternidade, em si, daria um filme. Queriam saber qual seria o plot, qual seria a 'grande história'. Para a maioria das pessoas, falar sobre maternidade não seria suficiente. Foram muitos anos para conseguir o financiamento", explica a cineasta.

  • A 24ª edição do Festival de Málaga trará a estreia mundial de A mãe Fotos: Bela Filmes/Divulgação; Bela Filmes/Divulgação; Netflix/ Divulgação; Elástica Filmes/Divulgação
  • Mar de dentro: drama sobre maternidade, com Mônica Iozzi e Rafael Losso Elástica Filmes/Divulgação
  • Mães paralelas: com o traço de Pedro Almodóvar Netflix/ Divulgação
  • Dira Paes, na filmagem do longa Pureza Magno Barros/Divulgação

Dainara integra a lista de diretoras empenhadas em transformar as feições do audiovisual, a exemplo das colegas que admira: Anna Muylaert, Caroline Leone, Petra Costa, Laís Bodansky, Lô Politti, Suzana Amaral, Gabriela Amaral Almeida, Caru Alves de Souza e Viviane Ferreira. Para a renovação no registro de personagens femininas — e que incluem dilemas da maternidade — Dainara assume que telefona para veteranas como Tata Amaral e Ana Luiza Azevedo, a fim de captar "conselhos e dicas". Num cotidiano moderno, de pouco apoio e muita insegurança no trabalho, a maternidade vem forjada sem muito gosto. "Percebi que a maternidade real era um tema tabu. Mas eu precisava falar sobre isso e tinha uma intuição forte de que as mulheres se identificariam. Queria fazer um filme onde eu pudesse falar de algo que tivesse experimentado na minha própria vida, que eu pudesse ser mais intuitiva e sensorial", explica a cineasta.

Perseverar, frente a inúmeros obstáculos, foi meta firme da diretora iniciante em longas-metragens, e lembrada pela presença em séries como De volta aos 15 (Netflix) e Antônia (Globo). Abordar a maternidade, com a gestação de Manu (Mônica Iozzi) movida a fadiga e cobrança, dependeu em muito da atriz central. "Ela é tudo neste filme: inteligente e intuitiva. Desde a primeira leitura, fiquei apaixonada pela composição da protagonista. A presença da personagem que a Mônica trouxe é tão forte que Willem Dias, o montador do filme, e eu, cortamos muitas cenas que, concluímos, diluíam a potência da personagem", conta.

Lançamentos previstos

Com a estreia mundial marcada para junho, o longa A mãe revolve memórias e lutos que cercaram o diretor Cristiano Burlan que, em 2003, lançou o documentário Mataram meu irmão e, há 10 anos, tratou de feminicídio, cinco anos após o assassinato da mãe, em Elegia de um crime. "O filme A mãe mergulha no périplo da personagem Maria, que, em muito, se aproxima da vida da minha mãe, Isabel. Meu irmão foi assassinado por uma quadrilha comandada por policiais militares no bairro em que morávamos, o Capão Redondo. Quando eu penso na maternidade, impossível não pensar na minha mãe, que é uma das tantas inspirações para o filme, assim como todas as mães das periferias do Brasil que perdem seus filhos nas mãos da violência policial", avalia Burlan.

Num painel de mães representadas no cinema nacional, Burlan enaltece o vigor de Elisabeth Teixeira, vista em Cabra marcado pra morrer (1984). "A força, a inteireza na luta e a resistência firme de Elisabeth são inspirações constantes para mim. Maria (interpretada por Marcélia Cartaxo), assim como Elisabeth, é paraibana. Maria e Elisabeth enfrentam o terrorismo do estado, ainda que em épocas distintas", comenta o cineasta, lembrado pelo longa Fome (2015). Em A mãe, com roteiro de Ana Carolina Marìnho e Burlan, a vendedora ambulante Maria, ao voltar de jornada de trabalho, não encontra o filho Valdo, cujo paradeiro, pelo que informa um traficante, estaria ligado a "policiais que lhe retiram inclusive o direito de enterrar o corpo do filho".

Apesar de contar ficção, o filme dá continuidade ao desejo de Burlan denunciar "a letalidade da força policial nas periferias e o círculo de violência e abandono do poder público diante dos problemas de inúmeras famílias pobres", pontua, ressaltando a impunidade. Atuação de milícia, denúncia e violência do estado integram a história de Maria, num diálogo com Débora Silva, uma das lideranças do movimento Mães de Maio, outra inspiração da fita. "Vivemos uma guerra civil em que corpos periféricos seguem sendo o principal alvo. Espero que o público termine o filme com o incômodo de saber que aquela história não foi concluída na sala de cinema, infelizmente, ela continua fora da sala, com muitas mães e filhos. Somente falando sobre isso conseguiremos desnaturalizar o terrorismo do Estado", conclui.

Três perguntas / Dira Paes

Numa escala de esforços capazes de mobilizar entidades como o Fórum Nacional de Combate à Violência no Campo, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, além de fiscais do Ministério do Trabalho, a dona de casa e ceramista Pureza Lopes Loyola fez o possível para resgatar um dos filhos de uma prole, sistematicamente, explorada. Saída do interior do Maranhão, Pureza, avançou rumo a garimpo paraense, e não se deu por vencida, frente a fazendeiros, empresários e politicagens. A fim de dar corpo à heroína capaz de quebrar um cotidiano de cárcere privado, em situação análoga à da escravidão, reservada ao filho Pureza, em filme conduzido por Renato Barbieri e coproduzido por Marcus Ligocki Jr., desponta uma vistosa estrela: Dira Paes. O filme, em parte rodado na capital, estreia em breve.

Como foi ter a oportunidade de honrar o nome de uma mãe transformadora da realidade brasileira?

Ao ser chamada para interpretar Pureza, já conhecia de nome a sua história e sabia que aquilo não era um convite: era uma convocação. Havia uma representatividade que ia ao encontro de tudo que eu acredito ser necessário para um futuro melhor. A Pureza era um arquétipo dessa mulher-mãe que não desiste de seus filhos. Acho que essa é uma mensagem fundamental que contribui muito para ser uma mulher que transforma a sua realidade e o seu entorno. A Pureza representa esse perfil e, para mim, que acredito muito na força dos direitos humanos como o grande remédio para uma sociedade mais justa e humana, isso traz uma satisfação pessoal. Foi um trabalho que me proporcionou não apenas um personagem magnânimo para interpretar, mas também uma saciedade muito grande, de estar fazendo a minha parte.

Em algum momento, pensou em experiências pessoais, para compor a personagem central?

Sem dúvida minha mãe é uma grande inspiração: é dessas mães que têm sete filhos, né? São mulheres que entendem isso muito rápido: saber como se dividir, como se multifacetar, como criar forças para o cotidiano que vai desde os trabalhos domésticos do dia a dia até aquela subjetividade de saber da particularidade de cada um dos filhos. Isso é uma das destrezas maiores que alguém pode ter na vida, e geralmente você encontra essas qualidades na figura feminina, na figura da mãe. Acho isso um grande aprendizado, um grande jogo de cintura: tocar a vida com qualidades e com virtudes. Sou muito orgulhosa de ver como mamãe nos deu tudo isso, proporcionando uma educação primorosa para todos nós (filhos), dentro de suas possibilidades. Vejo que a Pureza, em nenhum momento, desistiu de encontrar seu filho e isso é muito muito, muito próprio de quem tem um super poder dentro de si. Vem de uma heroína que, com certeza, tem, como sua grande arma, o amor.

Ser mãe incrementou a tua atuação no filme?

Ser mãe me tornou uma mulher mais madura e mais resistente. Talvez perceba que tenha ampliado minhas forças, como quem amplia suas redes de acolhimento. Sou naturalmente uma pessoa ligada no maternal, mas, sem dúvida nenhuma, são outros vieses também que compõem a personagem da Pureza. Acho que enxergar isso me fez muito bem: eu destacaria nela a palavra coragem. É preciso ter coragem para seguir nas suas lutas pessoais e cotidianas, sempre.

 

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