Entrevista

Roberto Corrêa anuncia lançamento de disco em fevereiro

Ao Correio, o instrumentista e pesquisador Roberto Corrêa destaca a importância da viola caipira para a cultura brasileira e seu encantamento nas grandes cidades e nos grotões. Também anuncia novo disco, previsto para fevereiro

Nesta entrevista ao Correio, o instrumentista e pesquisador, que lança mais um disco em fevereiro, detalha sua trajetória e analisa os rumos da viola caipira por esse mundão de sonoridade e de beleza -  (crédito: DIEGO BRESANI/ Divulgação)
Nesta entrevista ao Correio, o instrumentista e pesquisador, que lança mais um disco em fevereiro, detalha sua trajetória e analisa os rumos da viola caipira por esse mundão de sonoridade e de beleza - (crédito: DIEGO BRESANI/ Divulgação)

Brasília tem umas grandezas artísticas que surgem para conquistar o país. É a capital do rock, do chorinho, do rap, da viola caipira... E é com esse instrumento que nos remete ao Brasil profundo, que Roberto Corrêa fez e faz história. Nesta entrevista ao Correio, o instrumentista e pesquisador, que lança mais um disco em fevereiro, detalha sua trajetória e analisa os rumos da viola caipira por esse mundão de sonoridade e de beleza. "A cultura é um sistema vivo, que se preserva enquanto se transforma. Fico otimista em ver universidades e escolas abrindo cursos de viola, luthiers construindo violas cada vez melhores, instrumentistas se interessando pelo instrumento", destaca Roberto, uma de nossas grandezas.

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O Brasil urbano se esqueceu da viola caipira?

Acredito que não. A viola caipira está em expansão no Brasil, principalmente, nos centros urbanos, com escolas de ensino do instrumento e orquestras de viola. O que observamos é uma espécie de movimento cultural da viola se espalhando pelo país. Além da viola caipira, o mesmo acontece com as demais violas brasileiras: a de cocho, a machete baiana, a repentista, a caiçara e a de buriti. Este movimento acontece tanto na música tradicional como na música popular, e mesmo com alguns trabalhos junto ao que podemos chamar de música erudita.

Cantores sertanejos que flertam com o mundo pop estão deixando a viola, seduzidos pela guitarra e o som eletrônico. Isso é culpa do mercado fonográfico?

Esta pergunta, de certa forma, complementa a primeira. A viola caipira teve uma grande importância dentro do mercado da música com o sucesso das duplas caipiras. Entre as várias alterações no estilo dessas duplas até os dias atuais, está realmente a troca da viola por outros instrumentos. Eu acredito que são transformações no mercado musical como um todo, uma cena cultural mutante, que envolve grandes gravadoras, produtores de shows, modismos, referências no "mainstream" internacional etc. A cena cultural da música de viola, assim como de outros estilos, como o choro, por exemplo, está viva no trabalho de músicos, pesquisadores e artistas talentosos que se voltam para as nossas tradições musicais para criar uma música atual, contemporânea, mas com essa inspiração. São nichos, mas estamos fortes, vivos e fazemos um trabalho novo e vibrante.

Qual é a origem brasileira desse instrumento tão refinado e cheio de harmonias?

A viola no Brasil remonta ao início da colonização portuguesa. Era um instrumento muito popular em Portugal e, aqui, se transformou no principal instrumento das práticas populares tradicionais no interior do Brasil.

Como e quando a viola te encantou?

Ainda criança, observando grupos de catira e as visitas das companhias de Reis nas casas de minha cidade natal, em Minas Gerais. Mas foi em Brasília, no ano de 1977, que comecei a tocar o instrumento.

Você tem estudos e discos elogiados pela crítica, ainda te falta reconhecimento?

Tenho a alegria de ter meu trabalho acolhido pela crítica sempre de forma elogiosa. Entendo isso como um grande reconhecimento. Tive também reconhecimentos institucionais como o da Câmera Legislativa do Distrito Federal, que me concedeu o título de cidadão honorário de Brasília, no ano de 2007 e, no ano seguinte, o do Ministério da Cultura e governo federal me homenageando com a Ordem do Mérito Cultural, pela minha "relevante contribuição à cultura". Tenho também, claro, o reconhecimento de meu público que acompanha e prestigia meus trabalhos artísticos. É natural que, como artista, estou sempre querendo falar com mais pessoas, atingir um público cada vez maior. E desejoso de que a beleza e a mensagem que minha música carrega faça sentido para as pessoas, as encante, e contribua para a forma como elas veem o Brasil e a cultura caipira. Eu ainda tenho muitas coisas a dizer com o meu trabalho criativo e sigo fazendo.

Dos grandes violeiros do passado, quais destacaria? Badia Medeiros é um deles?

Com certeza, o Badia Medeiros é um deles. Posso ainda citar outros violeiros com quem convivi no início de minha trajetória musical como Zé Coco do Riachão, João Souza e Zé Mulato. São violeiros com forte ligação com a tradição que muito me ensinaram.

O Brasil profundo ainda tem a viola como principal instrumento nas cantorias?

Sim, a viola é o principal instrumentos das práticas populares tradicionais no interior do Brasil. Na região caipira, o violeiro é quem conduz os rituais das folias de Reis e do Divino, assim como das danças como catiras, curraleiras e lundus.

Há políticas públicas para divulgar e preservar a beleza da cultura caipira raiz? O que precisa?

A cultura é um sistema vivo, que se preserva enquanto se transforma. Fico otimista em ver universidades e escolas abrindo cursos de viola, luthiers construindo violas cada vez melhores, instrumentistas se interessando pelas violas. Cuidar da nossa cultura é cuidar da nossa identidade. Políticas publicas de apoio a cultura nacional, com foco em memória e patrimônio, são importantíssimos para mantermos estas referências vivas.

Quais são seus projetos para 2026?

No fim de fevereiro vou lançar um disco que está belíssimo, chamado "Viola Nova — Roberto Corrêa e Música Antiga da UFF". É um projeto que venho desenvolvendo há mais de um ano com este grupo musical que é mantido pela Universidade Federal Fluminense. O Centro de Artes da UFF é apoiador do projeto. O álbum é resultado deste projeto que conecta a força musical da tradição europeia, renascentista e medieval, com as raízes musicais da região central do Brasil. São composições minhas arranjadas para flautas, alaúde, violas da gamba, vozes, percussão e violas do Brasil interiorano. "Viola Nova" propõe um novo olhar para a música regional e, no contexto do trabalho camerístico do Música Antiga da UFF, a leitura de obras de um compositor contemporâneo vivo. O resultado revela-se ao mesmo tempo singular e harmônico, explorando novos caminhos para a cena atual da música brasileira.

O brasileiro está se esquecendo de suas origens?

Tem pessoas que vivem conectadas com os modismos de sua geração e não se interessam por questões culturais e identitárias. No entanto, ainda tem pessoas ligadas nas suas origens, buscando conexões com o seu passado, com sua gente. Eu não tenho dúvidas que a mudança social e cultural de um povo está fundamentada na educação, na leitura e no conhecimento, e também na arte. E penso que o indivíduo deve fazer a sua demarcação cultural, ou seja, cuidar e proteger o que é seu, sua origem e sua cultura dos modismos globalizantes. Acho que podemos fazer uma analogia com o campo. Enquanto o agro aponta para o lado da monocultura (já viu o que está acontecendo como nosso bioma, o Cerrado?), a gente aponta para o outro, trabalha como um pequeno agricultor, cultivando a diversidade de espécies, cuidando do cerrado, das nossas matas e rios. Não é tão lucrativo, precisa de apoio e incentivo. Mas é o que pode garantir nossa permanência neste planeta. É assim que vejo a minha arte, e o trabalho de tantos outros artistas como eu.

 


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postado em 11/01/2026 12:18
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