
João Gilberto inventou a bossa nova, mas isso não veio do nada. O baiano de Juazeiro "alterou grande parte da cartografia da música popular brasileira" e fez isso graças a um terreno fértil cultivado durante décadas anteriores àquele 1958 em que apareceu, pela primeira vez, em uma gravação na qual apresentava a "batida bossa nova" acompanhando Elizete Cardoso no disco Canção do amor demais. É o fio da meada da bossa nova que Tárik de Souza se propôs destrinchar em João Gilberto e a insurreição bossa nova: outros lados da história, recém-lançado pela editora L&PM.
No livro, o pesquisador e jornalista faz um exaustivo levantamento da procedência dos bossanovistas para mostrar o quanto o movimento extrapolou seu "estigmatizado campo geopolítico de atuação". "Daí o subtítulo Outros lados da história. Procuro expandir o conceito, documentando a conexão afro (muito pouco estudada), o ramal erudito, as canções de protesto e as "canções de protesto contra as canções de protesto" (também nunca abordadas)", explica Tárik.
O livro tem João Gilberto como espinha dorsal, mas vai muito além: é praticamente uma biografia da bossa nova, muito completa, de antes do nascimento ao pós-mortem, uma tentativa de mostrar que o movimento não foi algo restrito à elite e aos apartamentos da zona sul carioca. Tárik conta que sempre quis fazer um livro sobre a bossa nova. Nos anos 1980, uma entrevista com o violonista Laurindo de Almeida, que morava nos Estados Unidos e veio ao Brasil, foi crucial para dar sequência ao projeto. "Foi ele o primeiro a tentar fundir o jazz e a MPB, a bordo de um quarteto instrumental, numa série de três discos, iniciada por Brasiliance, em 1953", conta Tárik.
Mas a entrevista concedida ao então jornalista, reproduzida no livro, foi muito amargurada, no tom de de alguém que tentou e não logrou encontrar o ponto de fusão que os bossanovistas conseguiram. "A despeito da frustração com o resultado da entrevista, desde essa época fui acumulando vivência e pesquisa para fazer 'o livro'. Acho que consegui, apesar de algumas coisas terem ficado de fora, porque não paravam de surgir fatos ligados ao movimento. Prova de que a bossa continua viva e pulsando", explica o pesquisador, que conversou com o Correio sobre a importância da bossa nova para a música brasileira.
Qual foi o grande acontecimento, na sua opinião, que marcou e possibilitou o surgimento da bossa nova?
Embora Johnny Alf (o criador do ponto de fusão entre o jazz e o samba) e João Donato (outro desbravador) já sedimentassem as mudanças através de composições como Rapaz de bem (Alf) e Minha saudade (Donato), foi a gravação de Chega de saudade de João Gilberto, de 1958, que deflagrou o fenômeno. Há diversos depoimentos no livro de artistas que foram despertados por este divisor de águas.
E qual foi o maior impacto da bossa nova na música brasileira?
A bossa promoveu uma reestruturação da MPB. Digo que ela foi uma plataforma de experimentos de vanguarda das mais variadas procedências e matizes. Do Samba esquema novo, de Jorge Ben, a Nova dimensãodo samba, de Wilson Simonal, os afro sambas de BadenPowell e Vinicius de Moraes, Coisas, de Moacir Santos, Você ainda não ouviu nada, de Sérgio Mendes, Edison é samba novo (Edison Machado) Samba eu canto assim (Elis Regina), Avanço (Tamba Trio), Novas estruturas (Luis Carlos Vinhas), Samba nova geração (Geraldo Vespar), Nova geração em ritmo de samba (Durval Ferreira, Claudette Soares, Eumir Deodato), Jóia moderna (Alaíde Costa) e assim por diante.
No início do livro, fica claro que a bossa nova não foi a invenção de um grupo restrito e muito menos o fenômeno de uma época muito específica, e sim um gênero cujo desenvolvimento começa muito antes e segue muito depois do que é considerado o seu auge na cronologia da música brasileira. Pode falar um pouco sobre a importância de se perceber a bossa nova a partir dessa perspectiva mais abrangente?
Vários artistas antecessores já delineavam dissidências da corrente principal como o canto coloquial de Mário Reis em oposição ao dó de peito vigente. No livro, transcrevo parte de um histórico artigo do ancestral compositor Sinhô, o primeiro “rei do samba”, explicando como ensinou o discípulo a cantar “moderno”. E muitos acordes alterados e dissonantes já povoavam obras de precursores como Garoto, Valzinho, Vadico, Radamés Gnattali, Custódio Mesquita e mesmo Ary Barroso, ao lado de reformistas como Noel Rosa e Orestes Barbosa.
Após a fase considerada do auge do movimento (1958-1965), a bossa continuou impávida, lembrando que Frank Sinatra gravou com Tom Jobim em 1967, e este lançou o megaclássico Águas de março, em 1972. Também foi em 1967 que o pioneiro Johnny Alf emplacou seu maior sucesso popular, Eu e a brisa, ainda que desclassificado no célebre Festival da TV Record daquele ano. João Gilberto mandou seu antológico “álbum branco” em 1973, e o icônico Amoroso, em 1977. E novas gerações continuaram ligadas no estilo, como a estrelinha pop americana Billie Eilish, da geração Z, que veio cantar seu Billie bossa nova, no festival Lolapaloosa, de 2023. Samara Joy, revelação do jazz, aos 25 anos, esteve no Brasil a bordo de sua versão em português de Chega de saudade, em 2025. E a baiana de Vitória da Conquista, Analu Sampaio, cantora e compositora de bossa nova, tinha apenas 14 anos quando começou a fazer shows com o pilar do movimento, Roberto Menescal, de 84, em 2022.
Você costuma dizer que a intenção do livro era provar a importância da bossa nova por meio de fatos. De fato, o livro traz uma quantidade enorme de citações de nomes, discos, canções, ligações entre compositores e intérpretes e muitas entrevistas. Qual foi a dificuldade de organizar tudo isso de maneira que o livro não ficasse, também, uma espécie de enciclopédia?
Subdividi o livro em quatro eixos. Um é o central João Gilberto, como anuncia o título, e os outros três são O ponto de fusão, onde investigo como se chegou à bossa fundindo samba e jazz. E O invólucro mágico, uma dissecação de como uma gíria de época, que queria dizer apenas uma coisa diferente, fora do comum, nomeou um gênero e colou nele a tal ponto que hoje ninguém dissocia uma coisa da outra. O último eixo é Amor de gente moça. A partir do fabuloso título do songbook de Tom Jobim, gravado por Sylvia Telles, em 1959, eu arrolo as ligações (nunca estudadas) entre a bossa, o pop e o rock, com fartura de exemplos. Não me incomodo se o livro ficou uma espécie de enciclopédia. Nada contra. Ele pode ser lido, relido e consultado. Tive a pretensão de escrever algo mais consistente sobre o movimento, que foi tratado meio levianamente em algumas abordagens.
Você mesmo fala que João Gilberto não inventou a bossa nova, mas fez a síntese. Por que escolher João Gilberto como ponto de partida?
Exatamente por ter feito a síntese da bossa, além deter sido, sob vários aspectos, a despeito de sua introversão, um militante. Foi ele quem trouxe Alaíde Costa paraa turma da bossa e desviou os Novos Baianos de sua rota no rock psicodélico para uma fusão brasileira, que osprojetou a partir de Acabou chorare. E, além de tudo, porter sido um artista absolutamente genial que fundiu voze violão de uma forma como nunca tinha sido feita antes,nem foi feita depois dele. Alguns tentaram imitá-lo (até orei Roberto Carlos), mas desistiram, porque era impossível seguir um caminho tão particular e intransferível.
Bossa nova foi moda, com certeza, e popular. Mas chegou a sair de moda? Como a bossa nova é percebida hoje no meio musical e entre as novas gerações?
O modismo é sempre discutível e a bossa teve sua fase de febre, nomeando até o Juscelino Kubitschek um “presidente bossa nova”. Mas ela se perenizou quando você vê a funkeira Anitta fundindo Garota de Ipanema ao Piscinão de Ramos em Girl From Rio; o rapper Marcelo D2 sampleando Luis Bonfá em À procura da batida perfeita. E o veterano Roberto Menescal, um bossa raiz, terçando cordas com o guitarrista Andy Summers do The Police. Sem falar no Iggy pop e na Sinead O’Connor gravando Insensatez. É bem possível que as novas gerações nem saibam que tudo isso é bossa nova, “isso é muito natural”, como cantava o manifesto Desafinado.
Saiba Mais

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte