
O Brasil amanheceu, nesse domingo (11/1), em luto pela morte de Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, o Manoel Carlos, um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira. O autor faleceu na noite de sábado (10/1), aos 92 anos, no Rio de Janeiro, onde estava internado tratando a doença de Parkinson. Assim se despede um autor que ajudou o país a se reconhecer na ficção, transformando o cotidiano em espelho emocional de gerações.
Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Manoel Carlos escreveu mais de 15 novelas e minisséries, abordando não apenas emoções íntimas, mas temas sociais sensíveis como violência doméstica, intolerância, envelhecimento, doença e as fragilidades humanas. Embora seu universo narrativo estivesse frequentemente ancorado na classe média urbana, sua força dramática ultrapassava qualquer recorte social. Seus personagens falavam com o Brasil inteiro.
O Correio conversou com colegas autores de novelas e com atores e atrizes que interpretaram alguns de seus personagens mais lembrados.
“Autor de grandes clássicos, Manoel Carlos vai deixar uma grande lacuna na teledramaturgia brasileira. A nossa sorte é que vamos ter as suas obras eternizadas pelos serviços de streaming. Além de nos emocionar, as novelas dele são aulas para quem pensa em trabalhar como roteirista. Eu aprendi muito”, afirmou o coautor de Três Graças Virgílio Silva, que recorda um encontro casual com Maneco em um café de shopping e a admiração declarada por Por amor, considerada por ele uma de suas obras centrais. "Ele sorriu, como se avalizasse a minha fala", lembrou.
Para o pesquisador Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP, essa potência vinha de uma base sólida. “A formação literária de Manoel Carlos foi o alicerce de toda a sua teledramaturgia. Desde O Grande Teatro Tupi, ele aprendeu a adaptar grandes obras com rigor, responsabilidade e sensibilidade. Ali se formou um autor que misturava literatura, teatro, jornalismo e memória afetiva para criar novelas escritas como crônicas, capazes de revelar a alma humana sem abrir mão do folhetim”, resumiu. "A base de seu trabalho: literatura, teatro, assuntos do cotidiano registrados em matérias jornalísticas e memória afetiva misturadas ao clássico folhetim. Mas tudo contado como se estivéssemos lendo uma crônica."
Cronista da teledramaturgia
Maneco foi, antes de tudo, um observador atento da vida real. Um cronista que usou o melodrama não como exagero, mas como lente de aumento das contradições humanas. “Manoel Carlos não escrevia histórias. Ele escrevia pessoas”, definiu a atriz Úrsula Corona, que estreou como atriz de novelas, aos 13 anos, em História de amor (1995), e reencontrou o texto do autor em 2009, na novela Viver a vida. “E escrever pessoas exige alma, escuta e um amor profundo pela vida. Havia sempre a sensação de estar sendo cuidada.”
Segundo Úrsula, esse cuidado atravessava o texto e chegava aos atores — e, por extensão, ao público: "Ele nos via, nos escutava. Maneco permanece, em cada personagem, em cada emoção que ainda nos atravessa e, em cada história que continua viva dentro da gente".
Nascido em 14 de março de 1933, em São Paulo, Manoel Carlos iniciou sua trajetória artística ainda jovem, como ator de teleteatro na TV Tupi, nos anos 1950. Foi ali que desenvolveu o ouvido apurado para o diálogo e o respeito pelo tempo da cena, marcas que se tornariam definitivas em sua escrita. Antes de se firmar como novelista, atuou como roteirista, diretor e produtor em diferentes emissoras, passando por humorísticos e programas de variedades, até encontrar na TV Globo, a partir de 1978, o espaço onde sua obra ganharia dimensão histórica.
Nos anos 1980, consolidou um estilo próprio, ancorado no realismo emocional e nas relações familiares. Em Baila comigo (1981), apresentou ao público a primeira de suas protagonistas chamadas Helena, inaugurando uma galeria de personagens femininas que atravessariam décadas da televisão brasileira. “Criador de muitos sucessos, soube como poucos falar do cotidiano, dos sonhos e das aspirações”, lembrou Beth Goulart, que viveu Débora na novela e, até hoje, é chamada pelo nome da personagem.
Foi, no entanto, nos anos 1990 e 2000 que sua obra atingiu o auge do impacto social. Em História de amor, colocou no centro da narrativa a maternidade, o envelhecimento e o desgaste silencioso dos afetos. “Ele foi o pai da Joyce e através dela me transformou, me inspirou e me fortaleceu como atriz, com oportunidade de realizar cenas densas e emblemáticas que atravessam e conquistam gerações. Maneco é um gênio da dramaturgia brasileira. Sua obra seguirá pulsando em nossos corações”, afirmou Carla Marins, lembrando a densidade emocional dos personagens femininos criados por Maneco, cujas protagonistas denominadas Helenas — interpretadas pelas atrizes Lilian Lemmertz, Maitê Proença, Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni, Taís Araújo e Julia Lemmertz — tornaram-se símbolos de mulheres complexas, contraditórias e profundamente humanas.
Dilemas éticos e morais
Pouco depois, Por amor (1997) entrou para a história ao propor um dos dilemas morais mais debatidos da televisão brasileira: uma mãe que troca seu neto morto pelo bebê vivo da filha, acreditando agir em nome do amor. O gesto extremo dividiu o país e transformou a novela em um dos maiores debates éticos já vistos no horário nobre.
"Tenho certeza absoluta de que o Maneco está absolutamente eternizado nas nossas vidas, nos nossos corações. O público pode agradecer eternamente a esse legado que ele está deixando para todos nós brasileiros e para o mundo", comentou Gabriela Duarte, atriz que interpretou Eduarda na novela protagonizada por ela e pela mãe, Regina Duarte.
Em Laços de família (2000), Manoel Carlos voltou a transformar o cotidiano em drama nacional ao abordar a diferença de idade nos relacionamentos, o câncer e a doação de medula óssea. A imagem de uma jovem raspando o cabelo para enfrentar a leucemia tornou-se um ícone cultural e ajudou a ampliar a conscientização sobre a importância da doação no país.
“Foi a personagem da minha vida”, recordou Vera Fischer, intérprete da Helena da trama. “Era uma mulher generosa, corajosa, com um amor pelos filhos desmesurado, assim como tenho pelos meus. Eu entendi que teria que ser muito corajosa para contar essa história.”
Para a autora Rosane Svartman, a força dessas narrativas está justamente na imperfeição de suas protagonistas. “Minhas novelas prediletas do Manoel Carlos são Por amor e Laços de família. Essas duas Helenas, mães que ultrapassam fronteiras éticas e morais por amor às filhas, me comovem e me hipnotizam. A troca dos bebês e os grandes sacrifícios pela filha com leucemia são centrais em novelas com estrutura erguida em cima de escolhas de mulheres imperfeitas e extraordinárias”, defendeu a novelista, autora da recém-concluída Dona de mim.
Realismo cru
Já em Mulheres apaixonadas (2003), o autor expandiu ainda mais o alcance social de sua obra ao tratar frontalmente da violência contra a mulher, do preconceito contra idosos, da homofobia e do bullying escolar. “Nunca existiu um autor que pudesse retratar a alma feminina como ele fez”, afirmou Regiane Alves, que viveu personagens marcantes em suas novelas. “Me deu grandes papéis e me tornou, para o público brasileiro, a Dóris”, resumiu a atriz, que deu vida à vilã que maltratava os avós em uma narrativa fictícia que transformou o Estatuto do Idoso.
Mulheres apaixonadas também foi marcada por uma cena forte, realista e crua da violência urbana, que resultou em um dos momentos mais emblemáticos da teledramaturgia, quando a personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) foi morta em um tiroteio em plena zona sul carioca.
“Manoel Carlos é um dos pilares mais fortes da teledramaturgia no Brasil. Um mestre com as palavras, com os discursos e com uma sensibilidade aguçada para escrever para cada ator, extraindo sempre uma boa performance. Humano, perspicaz, profundo, nada óbvio. Era um deleite preparar e interpretar as cenas que ele escrevia e a minha gratidão por ele é imensa”, lamentou a atriz que foi eternizada pela personagem que mobilizou diversas manifestações pelo fim da violência pelo país.
Ambientadas majoritariamente no Leblon, que se tornou quase um personagem silencioso de sua obra, as novelas de Manoel Carlos refletiam um Brasil urbano, íntimo e atravessado por dilemas universais. Apesar da catarse coletiva, seu olhar nunca foi o da espetacularização, mas o da empatia. Conversas à mesa, silêncios prolongados e decisões tomadas no limite do afeto eram os motores de suas histórias. Para Mateus Solano, que estreou em 2009 na minissérie Maysa, escrita pelo autor, e teve o primeiro destaque no mesmo ano, na novela Viver a vida, onde viveu dois gêmeos, Manoel Carlos era único.
"É um autor que se demora nas humanidades que nos atropelam no dia a dia, nas situações que acontecem na esquina, enquanto a gente está indo do ponto A até o ponto B. Um autor que traz essa poesia do inesperado e também as discussões que a gente tem com a família ou com os amigos. Ele traduzia isso para a novela de uma maneira que eu não vejo nenhum nenhum nenhum outro autor fazer", destacou Mateus Solano.
Úrsula Corona endossou o depoimento do colega. "A escrita do Maneco foi atravessada por humanidade. Ele falava de amor, de família, de escolhas difíceis, de dores silenciosas e afetos profundos com uma verdade que tocava todo mundo aqui e fora do Brasil. Suas novelas marcaram gerações, bateram recordes e criaram uma relação quase íntima com o público, justamente porque eram honestas. Simples na forma, gigantes na emoção", concluiu.
Sua última novela, Em família (2014), marcou a despedida da teledramaturgia, retomando temas caros ao autor: envelhecimento, memória e o peso do tempo sobre os vínculos afetivos. Encerrava ali uma trajetória marcada por coerência estética e sensibilidade rara. "Todas as novelas do Maneco abordam o grande propulsor da existência humana: o amor. Esse sentimento, em diversas camadas, que vai conduzindo os mais variados relacionamentos, em todas as faixas etárias, fazendo até o Congresso Nacional aprovar um estatuto em função de suas personagens tão misturadas ao nosso cotidiano", avaliou o consultor em teledramaturgia Mauro Alencar.
"Manoel Carlos partiu rumo ao céu dos novelistas. Mas a longa e balzaquiana crônica que ele escreveu sobre a classe média urbana brasileira ficará aqui, viva, em imagens como essa retirada de uma de suas novelas", declarou o colega Aguinaldo Silva.
O autor deixa mais do que uma coleção de sucessos. Deixa um legado cultural que ajudou o Brasil a se olhar no espelho. Suas novelas ensinaram que o drama mais potente não está nos grandes acontecimentos, mas nas escolhas íntimas e nos afetos contraditórios. Ao transformar a vida comum em narrativa, Maneco eternizou personagens, diálogos e dilemas que seguem vivos na memória coletiva do país — agora também preservados para novas gerações, que continuarão encontrando em suas histórias um retrato profundo e humano de si mesmas.
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