
Maíra Valério começou a escrever os versos de Amarga de um jeito meio experimental e descompromissado. "Uma brincadeira", ela admite. Mas a poesia, até então praticada com timidez, tomou forma e corpo. "Foi virando algo mais sério, com estética e conceito", conta a escritora, que já era autora de dois livros, um de contos e outro de textos publicados em um blog. "Eu tinha alguma experimentação poética em forma de zine, na internet, mas não tinha tido coragem de sair do armário", brinca a escritora, que lança Amarga hoje, na Livraria Circulares, onde participa de bate-papo com Gabriel Pagliuso, criador da revista Retanguilina.
Maíra conta que se apropriar de uma voz autoral e entender as próprias referências motivou a publicação de Amarga, cujos versos se desdobram sobre um cotidiano que recusa a performance e a exposição. "Amarga é uma provocação diante desse imperativo contemporâneo de felicidade, que exige que a gente esteja sempre performando sucesso e jogue o resto para baixo do tapete", diz. "As pessoas que querem viver a complexidade da vida são tidas como amargas. Eu gosto do que diz Hilda Hilst: só não existe amargura onde não existe um ser".
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Publicado pela Orlando, o livro foi o vencedor do 2º Prêmio Tato Literário, criado pela Contato Comunicação, agência literária que representa autores brasileiros e tem como foco temas marginalizados. Dividido em cinco partes — remela, vazio em full HD, mordendo a cutícula, indigestão e trabalhar pra morrer — Amarga foi escrito durante diferentes fases da vida de Maíra, por isso carrega reflexões sobre temas variados.
Trabalho, maternidade, a própria escrita, a onipresença da internet na vida cotidiana, tudo alimenta a poesia da brasiliense. "O livro brinca muito com paisagens urbanas e digitais, tem uma parte que fala de traumas, trabalho, são coisas contemporâneas, das nossas relações atuais." Em Amarga, Maíra Valério escreve com mau-humor bem-humorado: "Um docinho todo dia/depois do almoço, do jantar/vez ou outra, até mesmo/no café da manhã, com chá/mas não adianta, meu deus/sigo tão, tão amarga/a boca toda lambuzada;querendo sempre mandar/todo mundo/praquele lugar".
Amarga
De Maíra Valério. Orlando, 96 páginas. R$ 45. Lançamento hoje, às 16h30, na Livraria Circulares (714/15 Norte, Bloco H, Loja 9)

Diversão e Arte
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