Dentro do recorde do Brasil, representado em cinco categorias do 98º Oscar, com quatro indicações para o filme O agente secreto, jogadores de peso, como o ator Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho, entram em campo, mobilizando a torcida brasileira pelo filme que retrata tentáculos e crimes da ditadura nos anos de 1970. Vale a lembrança de que, em tabelinha, conquistaram, em maio de 2025, prêmios no prestigioso Festival de Cannes.
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Integrada à equipe da produção pernambucana, a produtora Emilie Lesclaux se destaca como a força-motriz feminina, numa linha renovadora da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (que vota o Oscar). "Estou muito feliz de ver esse reconhecimento, com os meus coprodutores. E tenho muito orgulho, e Kleber (Mendonça Filho, diretor e parceiro de vida) também, de lembrar que esse filme é fruto de políticas públicas, de investimento na cultura do país e também da coprodução (França, Alemanha e Países Baixos)", disse Lesclaux, em entrevista exclusiva ao Correio.
Num ano de recordes — entre os quais o thriller Pecadores indicado em 16 categorias (superando os clássicos La la land, Titanic e A malvada) —, O agente secreto se tornou um dos 13 casos de longa estrangeiro indicado tanto na categoria de melhor filme (dentre 202 concorrentes habilitados), quanto na de filme internacional (ao lado do competidor norueguês Valor sentimental). No ano passado, o nacional Ainda estou aqui esteve no mesmo caso, tendo vencido na categoria internacional, no primeiro Oscar genuinamente brasileiro.
Na história da Academia, apenas o sul-coreano Parasita venceu melhor filme e melhor filme internacional, em 2020. Fora do núcleo de disputa nas categorias de melhor filme e de melhor filme internacional, o fenômeno brazuca Cidade de Deus, em 2004, disputou a melhor direção (com Fernando Meirelles) e as categorias técnicas de roteiro adaptado, fotografia e montagem.
Com cerimônia de entrega marcada para 15 de março, o Oscar terá a votação encerrada 10 dias antes. Até lá, o ator Wagner Moura, primeiro ator brasileiro indicado ao Oscar, tem chances de conquistar a maior parte dos 10 mil votantes da entidade que levanta um show televisivo acompanhado por 200 países, com mais de 20 milhões de espectadores. Num ano que traz uma franca favorita a atriz Jessie Buckley (de Hamnet), Wagner Moura, estreante na indicação de ator central (mesmo caso de Ethan Hawke e Michael B. Jordan) embola o meio de campo, pela expressividade do maior competidor, Timothée Chalamet (de Marty Supreme).
Resta saber se a contenção do brasileiro que estrela uma fita em torno da ditadura em 1977 vai superar o magnetismo do jovem Chalamet, uma potência imparável, ao retratar um incipiente esportista de pingue-pongue nos anos de 1950.
O ator baiano está num ano diferenciado: a votação prévia colocou, ao todo, quatro atores de língua não inglesa no páreo de 2026, além de Wagner, competem em outra categoria, três intérpretes do filme Valor sentimental (Renate Reinsve, Stellan Skarsgard e Inga Ibsdotter Lilleaas). O recorde anterior foi em 1976, quando disputaram Liv Ullmann, Giancarlo Gianinni e Marie-Christine Barrault.
Valorizado no Globo de Ouro (com a vitória de Wagner Moura) e no Critics Choice (como filme internacional), a reboque da dupla conquista no Festival de Cannes (onde obteve melhor direção e ator),O agente secreto desponta na lista do Oscar, em categoria inédita — a de melhor direção de elenco (sob comando de Gabriel Domingues, que congregou talentos como Tania Maria, Maria Fernanda Cândido, Buda Lira, Udo Kier, Alice Carvalho e Gabriel Leone) — quesito incluído 25 anos depois da última inovação nas 24 categorias, a da disputa de melhor longa em animação.
Concorrendo com a quarta mulher destacada na lista de melhor direção de fotografia, Autumn Durald Arkapaw (de Pecadores), o brasileiro Adolpho Veloso, despontou num filme de drama intimista com rendimento inesperado: Sonhos de trem, imantado ainda por indicações de melhor filme e roteiro adaptado, além da primeira possibilidade de estatueta para o músico australiano Nick Cave (ao lado de Bryce Dressner).
Posicionado à vaga de melhor filme ao lado de títulos blockbuster do porte de Pecadores, Marty Supreme, Uma batalha após a outra, F1: O filme; e Frankenstein, O agente secreto foi barrado na categoria de melhor roteiro original, na qual competirá o francês Foi apenas um acidente (recheado de implicações políticas do diretor iraniano Jafar Panahi), justo o filme que enfrentará o título brasileiro na categoria de filme internacional, junto com o tunisiano A voz de Hind Rajab, longa que retrata a agonia de uma criança palestina posta em fogo-cruzado, em Gaza.
A celebração americana televisionada para 86 países conta com vencedores e queridinhos. Steven Spielberg, na 14ª indicação como produtor, emplacou o favorito a melhor filme Hamnet: A vida antes de Hamlet, candidato a oito prêmios, e no qual a diretora Chloé Zhao se destacou em várias frentes (a exemplo de Jane Campion, de O piano, há 32 anos).
Pela 14ª vez, o múltiplo Paul Thomas Anderson (de Sangue negro e Trama fantasma) está em triplo páreo para o Oscar com Uma batalha após a outra, que contemplou Leonardo DiCaprio com a sétima disputa à estatueta de interpretação. Dona de dois prêmios Oscar, Emma Stone chega à quinta indicação por Bugonia (candidato a melhor filme, roteiro adaptado e trilha sonora).
Junto com o debut no Oscar do veterano Delroy Lindo (ator habitual de Spike Lee, à frente de Destacamento Blood e Irmãos de sangue), Pecadores ainda projetou a coadjuvante Wunmi Mosaku. Numa das curiosidades do Oscar 2026, a veterana Amy Madigan retorna como melhor atriz coadjuvante, destacada pelo terror (e sucesso de bilheteria) A hora do mal, isso 40 anos depois de estar no romântico Duas vezes na vida.
Indicados nas principais categorias
Melhor Filme
Bugonia // Frankenstein // Hamnet // Marty supreme // Uma batalha após a outra // O agente secreto // Valor sentimental // Pecadores // Sonhos de trem
Melhor Diretor
Chloé Zhao (Hamnet) // Paul Thomas Anderson (Uma batalha após a outra) // Ryan Coogler (Pecadores) // Josh Safdie (Marty supreme) // Joachim Trier (Valor sentimental)
Melhor Ator
Timothée Chalamet (Marty supreme) // Leonardo DiCaprio (Uma batalha após a outra) // Ethan Hawke (Blue moon) // Michael B. Jordan (Pecadores) // Wagner Moura (O Agente secreto)
Melhor Atriz
Jessie Buckley (Hamnet) // Rose Byrne (Se eu tivesse pernas, eu te chutaria) // Kate Hudson (Song Sung Blue) // Renate Reinsve (Valor sentimental) // Emma Stone (Bugonia)
Melhor Filme Internacional
Foi apenas um acidente (Jafar Panahi) — França // O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho) — Brasil // Valor sentimental (Joachim Trier ) — Noruega // Sirât (Oliver Laxe) — Espanha // A voz de Hind Rajab (Kaouther Ben Hania) — Tunísia
Melhor Elenco
Hamnet // Marty supreme // O agente secreto // Uma batalha após a outra // Pecadores
Melhor Fotografia
Darius Khondji (Marty supreme) // Autumn Durald (Pecadores) // Adolpho Veloso (Sonhos de trem) // Dan Laustsen (Frankenstein) // Michael Bauman (Uma batalha após a outra)
Duas perguntas // Emilie Lesclaux, produtora de O agente secreto
Qual o sabor desta conquista para vocês profissionais da indústria do cinema brasileiro?
Estamos recebendo tanto apoio e tantas vibrações positivas do Brasil, e sendo parado na rua por jovens que estão sentindo orgulho dessa projeção internacional, com um sentimento de pertencimento, que é algo realmente especial e nos deixa muito, muito feliz estar podendo fazer isso por meio do filme.
Qual o maior esforço na pavimentação deste reconhecimento?
Fizemos o filme com toda a liberdade, isso é algo que a gente também escuta quando mostra o filme, principalmente nos Estados Unidos, e ouve que os cineastas independentes têm muita dificuldade de fazer os seus filmes do jeito que eles querem, porque tem muita pressão de investidores, principalmente de fazer o filme que eles querem, e eles nos externam a admiração diante do caráter tão livre de O agente secreto. Nesse contexto, sublinho o fato de a gente poder fazer filme através das políticas públicas e com total independência e liberdade.
