CINEMA

De figurante ao Oscar: a ascensão de Tânia Maria

Aos 79 anos, a atriz, onipresente desde a participação em 'O Agente Secreto', imprime vigor e revela o poder de encanto das narrativas com mulheres nordestinas

Em fins de maio de 2025, dona Sebastiana Maria de Medeiros Filha, aos 78 anos, largou o cigarro — e agora com oito quilos a mais. Se parece conversa de zap de tias novidadeiras, o fato faz toda a diferença na vida da senhora mais conhecida, Brasil afora, por Tânia Maria. Sem cigarros, que antes praticamente a impediam de viagens aéreas, a atriz pode circular com comodidade, e espalhar a alegria que emana. Com prêmios internacionais (foi eleita "melhor atriz com cigarro", pelo The New York Times), agora, uma atriz afirmada, Tânia Maria teve dupla participação em filmes de Kleber Mendonça Filho, responsável por mais uma abertura de janela para o Brasil no vistoso mercado de Hollywood, com a projeção de O agente secreto no Oscar, indicado a melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator (Wagner Moura) e melhor escalação de elenco.

Espontânea em cena, e singular, como verdadeiro chamariz, Tânia — que, em Bacurau, ganhou R$ 50 por dia, como figurante — galga um estrelato peculiar. A potiguar, a reboque da fama, alçada a senhora-propaganda televisiva de vários produtos, desfila, em O agente secreto, como anfitriã de Marcelo (Wagner Moura), pelo Edifício Ofir, no qual abriga refugiados do período da ditadura nos anos de 1970. Nos bastidores da realização do filme, Tânia Maria já segredou, num primeiro momento, desconhecer Wagner Moura e mesmo o conceito de ditadura. Com o filme, fez belamente o dever de casa, aprendeu, e repassa a lição para todo e qualquer espectador.

"Ela é uma pessoa muito auspiciosa, tem uma energia incrível, um cristal", define o candidato carioca ao Oscar (pelo casting de O agente secreto), Gabriel Domingues. Ele ressalta a importância de Tânia ter vindo da região do Seridó, do Sertão do Rio Grande do Norte, qualificado por pedras preciosas e raras. "Tânia é uma pessoa com uma energia fabulosa, fascinante e com certeza ela serviu para o filme, colaborando para a indicação do casting. Dona Tânia colabora para o filme existir, e performa, plenamente, por ser maravilhosa", completa Gabriel, em exclusiva ao Correio. O diretor de casting atribui ainda ao diretor e ao preparador de elenco (Leonardo Lacca) a criação de um ambiente em que a atriz se sentisse segura, algo alinhado à dispersão de seu talento. "Foi muito importante para ela ter essa naturalidade, essa espontaneidade; em cena, tudo se torna impagável", completa.

Em cena, vinculada às espessas baforadas de cigarro, Tânia (impedida de dar entrevistas, por passageiro problema de saúde), no papel de Sebastina, venceu prêmio de melhor atriz coadjuvante pela Associação de Críticos de Santiago (Chile) e teve o nome badalado, nas listas pré-Oscar. Artesã e costureira, desde os 15 anos, se desfez das limitações do povoado de Santo Antônio da Cobra (município de Parelhas), no qual o pai foi agricultor, e em que encarou o impacto de ter sido mãe solo, em meados dos anos 1970. Agora, exaustivamente paparicada, noutra circunstância, em 2019, Tânia percorreu quilômetros pela participação nas filmagens de Bacurau.

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Com a rouquidão e o talento natos, ela, naquele filme, conquistou a plateia ao disparar para o personagem de Silvero Pereira: "Que roupa é essa, menino?!". Motivando concursos de semelhança com Dona Sebastiana, país afora, Tânia tem visto a popularidade disparar. Depois da icônica fala de Fernanda Torres ("A vida presta"), a veterana da vida Tânia reafirmou a satisfação (com os novos dividendos de atriz), num paralelo: "Minha vida agora é outra, e é muito bom viver". A intuitiva atriz se vê gratificada pelo momento de brilho, e por espalhar felicidade para muitos.

Estrela internacional

"Acho que Dona Tânia é, sim, uma grande estrela. Uma estrela do sertão do Seridó, uma estrela do Brasil e uma estrela internacional — independentemente de qualquer comparação. A grandeza dela está justamente nisso: ela é autêntica, não precisa se parecer com ninguém", pontua o cineasta, e agora amigo, pernambucano Tiago Melo.

Depois de convocada para o longa Almeidinha (de Gustavo Guedes e Julio Castro), e de ter participado no longa-metragem Seu Cavalcanti (de Leonardo Lacca), que ficcionaliza parte da existência de um idoso cioso de sua independência, Tânia Maria dá o recado de que está sempre disposta ao trabalho e que não se vê "velha". Lacca comandou a atriz ainda na série Delegado, obra em que ela se gabou da "qualidade" de tomar algumas liberdades com o personagem de Johnny Massaro, no papel de um homem que ingressa na Polícia Civil. Noutro trabalho, a atriz estampará a verve em A adoção, de Allan Deberton, centrado no reajuste emocional de um homem com problemas paternos.

O carinho sempre reservado ao público por Tânia ainda promete se instalar na divulgação de uma obra rodada em Picuí (Paraíba) que interliga urânio, catástrofe, pesquisas de Aedes aegypti e uma cientista nuclear. A trama é de Yellow Cake, filme de Tiago Melo, selecionado para o Festival de Roterdã, em fevereiro.

"Dona Tânia é atriz no sentido mais profundo da palavra: estuda muito o roteiro, gosta de ensaiar, de passar texto, de interagir com o elenco, e tem plena consciência do que está sendo construído no set", destaca Tiago Melo, que se convenceu do carisma transposto para personagens, um predicado da "autêntica e inteligente" Tânia Maria. "A personagem dela, Dona Rita, é inspirada em uma pessoa real, uma moradora de Picuí que eu filmei num documentário e que definiu a criação da nova personagem", conta, ao Correio. Tânia Maria não deixou dúvidas da determinação: do documentário, captou gestos, o modo da fala e presença da personagem real. "Ela é de muito perto de Picuí — conhece, profundamente, a região, a realidade do minério e as histórias", elogia o impressionado realizador.

 

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