
Com uma trilha fascinante, percorrida há 44 anos no teatro e 38 na televisão, João Camargo é testemunha ocular da evolução da dramaturgia brasileira, um ofício que exige não só talento, mas uma entrega contínua e apaixonada. Hoje, aos 65, o ator vive uma feliz coincidência artística. Na televisão, interpreta o Padre Lucas, em Êta mundo melhor, de Walcyr Carrasco. Nos palcos, viaja o país com o musical O cravo e a rosa, também de autoria do consagrado escritor.
"É maravilhoso estar fazendo duas obras do Walcyr. É um privilégio, uma honra. Um dos nossos maiores autores", Camargo reflete sobre a dobradinha, satisfeito por ver que o padre, inicialmente uma participação, permanecerá até o final da novela, como ferramenta da vilã Zulma, (Heloísa Périssé) em suas falcatruas.
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Vale tudo
Nascido na Suíça em 1960, a estrada de João começou nos palcos e desembocou na telinha global em 1988, com um marco indelével: o icônico Freitas, da novela Vale tudo, a original de 1988 escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bàsseres. O papel, que começou pequeno e cresceu até torná-lo um dos suspeitos da morte de Odete Roitman, rendeu-lhe o título de revelação do ano. Sobre a época, guarda a memória do encantamento. "Foi maravilhosa. Eu já estava fazendo teatro, e aí a novela parou o Brasil. Foi muita sorte ter estreado em Vale tudo", recorda, com a doçura de quem revive um momento fundador.
Anos mais tarde, viu seu personagem ser reinterpretado por Luis Lobianco no remake da trama. "O Luis me ligou antes da novela, a gente conversou. Desejei boa sorte e falei para ele que tinha certeza que ia fazer bem. E não deu outra, ele fez brilhantemente", comenta, elogiando a reverência do colega mais novo. "Achei um carinho muito grande ele ter me procurado."
Quando questionado sobre qual personagem icônico da televisão gostaria de reviver em um possível remake, a resposta vem repleta de referências clássicas e humildade. "Essa pergunta é difícil. São tantos. Ah, o personagem que eu gostaria de fazer seria o Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro, ou o personagem do Paulo Autran em A guerra dos sexos. Mas que venham personagens maravilhosos para mim. É o que eu desejo.
Seu repertório é vasto e eclético, transitando com naturalidade do drama à comédia. Personagens como o Junqueira, de A força do querer, permitiram abordar temas urgentes, como os perigos da internet para os jovens. "Esse tema foi muito importante, muito bem abordado pela Glória Perez. Foi muito legal fazer esse personagem", afirma.
Já o excêntrico Júlio César, da série Tô de Graça, o trabalho mais recente, trouxe a leveza do humor. "Foi maravilhoso. O personagem gay, tratado com graça, com bom humor. Eu adoro fazer humor, geralmente a maior parte dos meus trabalhos é ligada à comédia."
Vitalidade e fé
Aos 65 anos, sua vitalidade chama a atenção. Perguntado sobre o segredo, atribui ao equilíbrio. "Acho que para manter a vitalidade, principalmente a cabeça tem que estar boa. Tive uma vida de sucesso, de bons trabalhos, bons relacionamentos. Tenho um casamento maravilhoso há 10 anos. E comecei a fazer academia com mais frequência, todo dia. A disciplina é muito importante para quem está na terceira idade", conta, sorrindo. "Como um idoso de 65 anos, eu me sinto muito bem, graças a Deus."
Olhando para trás, para o jovem que um dia começou, a mensagem que deixaria é de fé. "Eu diria para o jovem João Camargo, começando a carreira artística: João, vai dar certo. Acredita." Uma crença que, atravessando mais de quatro décadas de profissão, se transformou não apenas em promessa cumprida, mas em legado. Uma vida em cena, ainda em pleno ato.

Diversão e Arte
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