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"Meu nome é movimento", avisa Daniel Berlinsky, autor de "Dona Beja"

Conheça o autor Daniel Berlinsky, que iniciou produzindo elenco para o "BBB", colaborou em novelas da Globo, reconstruiu "Dona Beja" para o streaming 40 anos depois de ser exibida pela Manchete e tem novela aprovada para ser exibida pela TV Brasil

Daniel Berlinsky, autor -  (crédito: Jorge Bispo)
Daniel Berlinsky, autor - (crédito: Jorge Bispo)

Daniel Berlinsky, que define a si mesmo com a frase "meu nome é movimento", chega a mais uma encruzilhada profissional. E, como de costume, avança. Desta vez, o destino é o streaming. Após um processo que durou cinco anos, estreou, na HBO Max, Dona Beja, novela que representa não apenas uma nova leitura da icônica personagem histórica, mas também o encontro de uma carreira construída nos bastidores da televisão com as possibilidades narrativas do novo formato. 

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"Escrever essa novela é forte, mas me sinto preparado para ela há muito tempo", afirma o carioca que, apesar de um nome silencioso, tem um peso gigante na teledramaturgia brasileira. "A arte me desafia e cada dia é um recomeço sempre", observa.

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Formado em comunicação social, Berlinsky traz na bagagem uma experiência incomum: antes de se tornar roteirista, atuou na produção de elenco — ofício que, ele garante, moldou tudo o que escreve até hoje. "Aprendi muito observando atores, entendendo o tempo da cena e como o personagem se constrói no corpo", comenta. "Isso influencia tudo."

O currículo extenso inclui passagens por equipes de algumas das novelas mais populares da televisão brasileira — Morde & Assopra (2011), Gabriela (2012), Amor à vida (2013), Alto astral (2014-2015), Êta mundo bom! (2016) e Pega pega (2017-2018). Em todas elas, o princípio se manteve: o personagem como motor do drama. "Nunca começo uma história querendo explicar algo. Eu começo pelo conflito emocional", resume.

Foi com essa filosofia que ele aceitou o desafio ao autor português António Barreira: assumir o roteiro de Dona Beja? E o desafio veio ampliado: com tantas novelas do século XIX retratando em detalhes o cativeiro, por que não explorar outras experiências?

A pesquisa que se seguiu trouxe à luz um dado revelador: segundo o Censo de 1872, três em cada quatro negros não eram mais cativos. "Veio a missão de fazer história em vez de ficção", explica o autor. "Pretos no topo, que ascenderam social e politicamente, tentando abraçar a experiência do povo preto que está em destaque."

Grazi Massafera é protagonista de Dona Beja
Grazi Massafera é protagonista de Dona Beja (foto: Divulgação/HBO MAX)

A Beja possível

Mas quem foi, afinal, Dona Beja? A pergunta perseguiu Berlinsky durante todo o processo de criação. A mitificação da personagem, que agora é interpretada por Grazi Massafera, ganhou camadas ao longo dos anos. A desconstrução do mito, aliás, só se revelará plenamente ao final da trama, segundo o autor. Antes disso, foi preciso investigar.

A pesquisa o levou a Araxá, cidade mineira que guarda a memória da personagem. Visitou o museu, procurou registros — mas encontrou pouco mais de meia página. "Pouca coisa", admite. A saída foi mergulhar no humano: "O que me interessava era olhar para a Beja como uma personagem profundamente humana, que erra, deseja, paga preços e, ainda assim, não abre mão de ser quem é".

Na nova versão, Beja surge como uma mulher em busca de si mesma, atravessada por escolhas, afetos e contradições, em um contexto social rígido que tensiona liberdade e pertencimento. "Essa é uma história sobre autoaceitação e liberdade, temas que continuam absolutamente atuais", afirma Berlinsky.

A construção contou com ajuda de historiadores e consultores de diversidade. "Olhar masculino, feminino, branco, negro, diversidade, plus size", enumera. "Estamos empenhados em resolver nossos próprios preconceitos. Um dia não estaremos mais aqui, mas a obra vai ficar. Tudo tem a ver com o que fica, gera um ciclo", conclui.

O ritmo do streaming

Se a novela de 1986, assinada por Wilson Aguiar na extinta TV Manchete, desenvolveu a personagem de acordo com o que a época permitia, a nova versão dialoga com um público que busca camadas, complexidade e envolvimento emocional prolongado. "A ponte com o contemporâneo é necessidade do streaming, não foi uma algema", garante Berlinsky.

A sinopse, iniciada por Renata Jhin, foi retrabalhada e desenvolvida em quase 200 páginas ao longo de 12 a 13 meses. O texto foi entregue em 2023/2024, mas o autor acompanhou a edição até 2025, participando da finalização. "A novela sempre foi um espaço de conversa com o comportamento do seu tempo", reflete. "No streaming, ela ganha outra respiração, outro ritmo, mas continua sendo um lugar potente para falar de quem somos", pondera.

Sobre a pressão de encabeçar um projeto pioneiro — ainda que Beleza fatal, gravada ao mesmo tempo, tenha aberto caminho ao ser exibida antes  —, Berlinsky é sereno: "A expectativa veio na carpintaria na época da escrita, mas houve o feedback da Floresta e da HBO, encontros com atores." Ele acredita que o público está pronto para o ritmo e a complexidade dos personagens.

Projetos futuros e a arte como recomeço

Mesmo com a estreia recente, Berlinsky já se debruça sobre novos projetos. Um deles é profundamente pessoal: uma série de ficção inspirada na luta judicial de sua irmã pela guarda dos filhos. A trama parte de um episódio real para abordar maternidade, justiça e desigualdade de poder, com atenção às consequências emocionais desses processos. "É uma história muito íntima, que fala de vínculos, de dor e de resistência", afirma.

Outra produção em fase de escrita é a comédia romântica Encadeados, desenvolvida em parceria com a Boutique Filmes e focada no fim de um casamento. "Toda separação faz parte de uma história de amor", defende Berlinsky, enquanto avança no seu mergulho sobre o que somos.

Daniel também está envolvido com Vambora, primeira ficção seriada da TV Brasil, ambientada entre Brasil e Portugal e escrita em parceria com Fabrício Santiago e Chico Amorim.

A frase que escolheu para resumir a si mesmo — "Meu nome é movimento" — encontra eco na forma como descreve a própria trajetória na Globo. "Eu nasci ator, mas não queria estar só no palco. Comecei a escrever, a produzir elenco na publicidade, fiz a pesquisa de elenco do segundo BBB, junto com jornalistas e produtores procurando pessoas para contar uma história", relembra.

A transição dentro da empresa veio após dois anos, passando ao roteiro como colaboração. "Sempre dando um passo para frente, um caminho de sorte de ir me preparando para o que vem pela frente", define.

No fim, o que permanece é o princípio que orienta toda a sua obra: contar boas histórias, com personagens vivos e conflitos reconhecíveis. "Quando a história emociona, ela cria conexão. E é essa conexão que atravessa o tempo, o formato e a tela", finaliza.

 


  • Daniel Berlinsky, autor
    Daniel Berlinsky, autor Foto: Jorge Bispo
  • Grazi Massafera é protagonista de Dona Beja
    Grazi Massafera é protagonista de Dona Beja Foto: Divulgação/HBO MAX
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postado em 01/03/2026 17:43
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