
Não só de imagem: o cinema contempla o som, e numa potência absolutamente alta, diante das atrações programadas para a telona, nas estreias alinhadas nesta semana. Das pistas abertas de festas eletrônicas até os shows setentistas de alcance estratosférico, passando ainda por uma relação delicada e bastante assentada na capacidade musical. Esses temas estão presentes nos filmes Sirât, EPiC: Elvis Presley in concert e A história do som.
No encalço das premiações do nacional O agente secreto, desde a disputa no Festival de Cannes do ano passado, o longa espanhol Sirât chega em cartaz selecionado como o representante espanhol na 98ª edição do Oscar, dentro da disputa de melhor filme internacional. "Você consegue imaginar sua morte, dançando?", já questionou o diretor Oliver Laxe, que, aos 43 anos, despontou no cenário internacional, com a proposta de fazer um filme sobre a morte.
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Quarto longa-metragem de Laxe, Sirât se descreve, no título, como "um caminho" e, por enquanto, faturou categorias do European Film Awards de melhor escalação de elenco, melhor fotografia (Mauro Herce) e ainda melhor edição (Cristóbal Fernández). Além da vitória do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, o longa está no Oscar (com vencedores divulgados em 15 de março) também na disputa pelo melhor som.
Fortemente ligado à elementos da contracultura e de vivências alternativas, Sirât é ambientado no Marrocos, durante a travessia de diferentes personagens pelo Saara. Sergi López, ator profissional que dá vida ao personagem Luis, comanda a trama de angústias, vivendo o pai de Esteban (Brúno Nuñez), ambos detidos na circulação entre nômades que buscam diversão das raves em pleno deserto.
Na missão da dupla está o desejo de buscar a extraviada parente Mar, outrora entretida nos festejos deserto adentro. "Ainda estou vivo, com uma perna a menos, mais ainda por aqui", já disse em entrevistas o ator de ocasião Tonin Janvier, integrado ao elenco. Jade Oukid, com mais de 20 anos nas pistas, também defende a origem turca, num projeto em que ficou receosa, dada a abordagem pela mídia das festas rave. Steffania Gadda, a Stef, é outra personagem incorporada à trama.
Resgate vocal
Anos depois de reconhecido por filmes como Romeo Juliet, Moulin Rouge! e O grande Gatsby, o australiano Baz Luhrmann investiu, em 2022, na conclusão de Elvis, cinebiografia com Austin Butler e Tom Hanks. Durante a pesquisa para o filme, despontou o material do documentário EPiC: Elvis Presley in Concert, que chega aos cinemas. Com raros ou inéditos registros de arquivo, o filme traz segmentos dos shows Elvis: That's the way it is e Elvis on tour.
Rolos de filme em 35mm e 8mm foram localizados pela Warner, e assim, o cantor interessado por gospel, blues e country voltou a brilhar na telona, no Festival de Toronto de 2025. Desde os ensaios até a gana do contato com o público, Elvis aparece em shows em Las Vegas, transcorridos desde 1969 e ao longo de sete anos, com uma maratona condensada em média de dois shows diários. O restauro estrutura um filme com pouco mais de 90 minutos e que investe ainda, em parte, no período no Havaí, em 1957, quando Elvis desponta com comentado paletó dourado.
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Notas de amor
O gosto pela ideia de "uma escuta ativa" junto com o sabor de testemunhar o silêncio levou o diretor sul-africano Oliver Hermanus à criação de A história do som, estrelado pelos atores Josh O´Connor e Paul Mescal e que, na tela, dão vida aos apaixonados David e Lionel, respectivamente. Com filmagens que demandaram circulação pelos Estados Unidos, Reino Unido e Itália o investimento financeiro, por pouco, não se tornou empecilho. "É uma produção de época e viajamos pelo mundo todo", explicou o diretor, em entrevista ao Screen Daily.
Como inspirações, o cineasta buscou Cinzas no paraíso (1978) e O paciente inglês (1996). Entre relacionamentos platônicos e a interferência do "se" no destino dos personagens, o ator Paul Mescal contou à imprensa estrangeira sobre a experiência de incorporar um personagem associado à tristeza e ciente da aceitação de uma dor: "É fato que existiu um grande amor", avaliou, ao falar do roteiro elaborado pelo escritor Ben Shattuck.
Na tela, o filme, que competiu a prêmios no mais recente Festival de Cannes, é impulsionado pelo encontro do cantor do Kentucky Lionel e o estudante de composição David, às vésperas dos anos de 1920, no Conservatório de Música de Boston. "Convivi com séries de músicas, que geraram inúmeras versões. Nisso, tive a percepção das diferenciadas tonalidades e arranjos que elas geram", comentou o diretor à revista Newsweek. A jornada da coleta de infinitas canções folclóricas aproximou, amorosamente, David e Lionel. "Embora o material do filme seja bastante denso, a sensação a que associei o trabalho com o diretor foi o de ir à casa de um amigo, numa sexta-feira, depois da escola", observou Mescal ao Screen Daily. "Não se trata de atuação ou exibicionismo, mas sim de se conectar de fato com músicas", completou o artista.
Horizonte perpétuo
São décadas de acúmulo de presenças no audiovisual das mais variadas, que vão da Princesa Isabel até um apanhado forte de personagens identificados pelos espectadores de novelas como A próxima vítima e Pecado capital, além das revolucionárias Pantanal e Kananga do Japão. Com toda a experiência e o diálogo anterior com reconhecimento entre espectadores, à época, jovens, de Estrela-Guia e ainda de Chocolate com pimenta, a atriz Rosamaria Murtinho chega aos 93 anos tateando a ampliação de público. "Acredito que este novo filme (É tempo de amoras) traz algo muito importante. Todos estão muito esquecidos dos atores da terceira idade. Parece que não existimos mais e, muito pelo contrário, estamos prontos para trabalhar", comemora a atriz, em entrevista ao Correio.
Rosamaria cita colegas como Laura Cardoso, Zezé Motta e Irene Ravache — "são pessoas muito ativas ainda na profissão e que sempre me dão alegria de poder vê-las", pontua. A familiaridade junto às crianças espectadoras promete ser ampliada com o longa assinado por Anahí Borges. No filme, Pasqualina é a personagem de Rosamaria que, ao acaso, afirma uma amizade com a pequena Petrolina (ou Pety), personagem de Analu Reis. "A experiência com a Analu foi muito boa.
Não dá para ver a diferença entre nós (em termos de contrastes de experiência) porque, na hora em que estamos representando, são duas atrizes em cena — fazemos o jogo sem ficar avaliando idade. São duas atrizes profissionais ali, juntas", comenta a atriz. Prêmios na Áustria e nos Estados Unidos cercam a produção que trata de proteção e de afeto. "Acho que o passado traz com ele a minha história, e ela tem que estar naturalmente associada a mim", comenta a intérprete.
No filme, há ainda a presença do personagem de Rafael Pereira, que realimenta os laços de Petrolina e de Pasqualina. Na vida pessoal, qual seria o segredo de tanta longevidade e vitalidade? "Realmente, não sei dizer. Eu apenas vivo, não fico pensando em morte ou em coisas ruins — eu vivo minha vida. Vou aos médicos, me cuido — sou muito atenta à minha saúde", desconversa a atriz. Formando um casal admirado, com extensa carreira, desde 1959, Rosamaria está casada com Mauro Mendonça. "O Mauro costuma dizer uma coisa muito engraçada (sobre nós): 'sempre foi uma luta, mas ninguém ganhou a guerra', diverte-se.

Diversão e Arte
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