SEXUALIDADE NAS TELAS

Sexo sem prazer? Bridgerton provoca debate na trama de Francesca

Personagem interpretada por Hannah Dodd enfrenta um casamento sem sintonia sexual, marcado pela falta de informação sobre o próprio corpo e pelo silêncio imposto às mulheres sobre prazer

Na nova fase de Bridgerton, a história de amor entre Benedict Bridgerton e Sophie Baek ocupa o centro da narrativa, mas não é a única a provocar reflexões nos episódios iniciais da quarta temporada, disponibilizados na Netflix nesta semana. Uma das tramas que mais chama atenção é a de Francesca Bridgerton, interpretada por Hannah Dodd, cujo percurso lança luz sobre temas como sexualidade, prazer e a histórica exclusão das mulheres desse debate.

Após passar uma temporada nas Highlands, Francesca retorna a Mayfair já casada com John Stirling e assumindo o título de Lady Kilmartin. Para a sociedade da época, um casamento recente costuma vir acompanhado de expectativas muito bem definidas: intimidade intensa e, logo depois, uma possível gravidez. O que se vê, porém, é um casal que não consegue encontrar sintonia na vida sexual, algo que gera desconforto e insegurança, sobretudo para ela.

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A dificuldade de Francesca em compreender o que acontece em sua relação não nasce apenas da dinâmica com o marido, mas de um vazio maior. Como muitas mulheres da Inglaterra do século 19, ela nunca teve acesso a informações sobre o próprio corpo ou sobre prazer. A série já havia abordado esse tema anteriormente, quando Daphne descobre a masturbação a partir de uma orientação de Simon, evidenciando o quanto o conhecimento feminino era limitado. Agora, Francesca revive esse mesmo cenário de ignorância imposta, sentindo-se perdida, sem parâmetros e sem saber quais sensações seriam esperadas em uma experiência sexual.

É nesse contexto que surge uma pergunta simples, mas profunda, feita por gerações de mulheres: o que é, afinal, o auge do prazer e como se chega até ele? Sem respostas prontas, Francesca recorre a figuras femininas em quem confia, como a mãe, Lady Bridgerton, e a cunhada Penelope. Ao comentar esse aspecto da trama em entrevista à BBC News, Hannah Dodd destacou a importância dessas trocas: “Foi muito bom ver Francesca contando com as amigas para conseguir essas informações, mas é injusto que os homens possam ter experiências e as mulheres, não.”

A fala da atriz dialoga diretamente com a lógica social da Regência retratada em Bridgerton. Naquele período, homens jovens tinham liberdade para explorar relações amorosas e sexuais antes do casamento, enquanto mulheres solteiras eram mantidas na ignorância absoluta sobre o próprio corpo. “A menos que você possa ter essas conversas, não entendo como as mulheres tinham acesso a essas informações sobre o corpo, sobre a anatomia. Francesca não faz ideia sobre o que deveria estar acontecendo”, afirmou Dodd.

A atriz também comentou como a relação entre Francesca e John se transforma à medida que ambos passam a se comunicar melhor. Para ela, esse processo reforça a importância da honestidade dentro dos relacionamentos. “John e Francesca se conheceram apenas um ano antes, então tiveram que se conhecer melhor, mas existem lacunas, já que ambos são introvertidos… eles realmente precisam sair de suas zonas de conforto para sequer ter essas conversas”, disse.

Embora a série esteja ambientada em um tempo em que falar sobre sexo era ainda mais proibido do que hoje, a discussão proposta pela trama encontra ecos no presente: dados recentes mostram que o prazer feminino continua cercado de obstáculos. O Censo do Sexo, pesquisa realizada pela startup de bem-estar sexual pantynova, revelou que 66% das mulheres afirmam alcançar o orgasmo sempre quando estão sozinhas, mas esse número cai para 19% durante o sexo com outra pessoa. Entre os homens, 86% dizem atingir o orgasmo sempre na masturbação, enquanto 54% afirmam o mesmo no sexo a dois.

Quando a pesquisa considera a orientação sexual, as diferenças se tornam ainda mais evidentes. No sexo com outra pessoa, apenas mulheres lésbicas apresentam índices mais altos: 28% afirmam gozar sempre, um percentual 9% superior ao das mulheres heterossexuais. Mesmo distante no tempo, o dilema vivido por Francesca mostra que a falta de informação sobre prazer feminino não é apenas um traço do passado, mas sim um problema que atravessa séculos.

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