sétima arte

Diretor comenta sucesso internacional do filme 'No Silêncio'

Em entrevista ao Correio, Alexandre Britto fala sobre a trajetória brilhante do longa em festivais nacionais e internacionais

Com inspirações que vão de Hitchcock a Mário Peixoto, o diretor estreante, Alexandre Britto, já levou para casa prêmios de diversos países do mundo com No silêncio, primeiro longa do autor. Considerada uma obra prima pelo Lakes Noir International Film Festival, na Itália, No silêncio aparece em oito categorias da premiação, selecionado entre 1.200 inscritos no festival italiano. O thriller brasileiro explora relações de poder, enfatizando como o silêncio pode ser agressivo.

Na trama, o diretor de séries Eduardo Porto foi agredido pelo pai de uma de suas atrizes e decide reunir a equipe na casa da diretora de arte para evitar um escândalo na mídia. Gravado em plano-sequência, o filme utiliza metalinguagem para evidenciar estruturas de poder e assédio moral. Alexandre Britto está trabalhando no longa há oito anos.

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O diretor conversou com o Correio sobre a ideia inicial, a força do silêncio em estruturas de poder e a repercussão internacional de No silêncio.

Entrevista com Alexandre Britto

Você trabalhou nesse filme por oito anos. Como surgiu a ideia inicial?

Foi bastante tempo. O filme foi filmado em 2018 e encaramos uma pandemia no meio disso tudo, que atrasou demais. Esse tempo também ajudou de alguma forma a pensar e refletir bastante sobre ele. A ideia se baseou nessa questão do silêncio. O silêncio como uma uma forma violenta, às vezes, apesar de ser silêncio. A gente acha que não é, mas o silêncio pode ter uma forma agressiva. Eu lembro de ter refletido sobre quando as pessoas ficam caladas e o quanto isso pode ser agressivo para alguém. Esse é um ponto. Mas a ideia mesmo, ela surge em um momento que eu comprei tinta, tela, para experimentar em outra arte, só para só para respirar, trabalhar a sensibilidade. Chamei uma amiga e nós passamos algumas semanas pintando quadros e conversando.

Ela acabou sendo a diretora de arte do filme. Enquanto eu estava pintando, me deu um clique de que o lugar que a gente tava, que era o porão da minha casa, poderia ser a casa de uma diretora de arte. E a história poderia acontecer ali. E, aí,  comentei com ela que eu ia fazer um filme e a chamei para ser a diretora de arte. Eu fui para o deck, sentei, peguei um caderno e comecei a fazer anotações dos personagens que eu já estava vendo. E ali eu comecei a escrever a história sabendo que esses personagens seriam uma equipe de audiovisual, com os seus sonhos, com os seus desejos, suas ambições. Foi um processo muito bonito.

O que te atraiu nessa metalinguagem de retratar uma equipe do audiovisual:

De alguma forma, a metalinguagem sempre esteve presente em outros textos que eu escrevi. Sempre esteve muito relacionado com as coisas que eu gosto de escrever. No caso desse filme, o fato de serem personagens do audiovisual, que trabalham com isso, mas eu queria deixar claro que eles já não são artistas. O ego e as suas ambições pelo capital, pelos desejos particulares do ofício, já consumiram a alma desses personagens. É um universo próximo então fica mais fácil beber dessa fonte.

Como foi abordar o silêncio como agressivo no filme?

No primeiro momento, isso foi um pouco estranho. Como que o silêncio é agressivo? A história é de um diretor de séries, que é agredido pelo pai de uma atriz e vai na casa dessa diretora de arte, onde está tendo um happy hour, um momento feliz, e tenta convencer essa equipe que trabalhou com ele a convidar essa atriz para tentar resolver a situação. Na verdade, ele quer tentar abafar isso para não virar um escândalo midiático. Esse diretor, de alguma forma, quer silenciar essa situação. É um tipo de diálogo que só acontece em quatro paredes em situações faladas de forma sussurrada.

Eu acho que existem assuntos que se evitam tocar e serem apresentados em festivais. A expressão artística libera realidades ficcionais de outras estruturas. Então, por exemplo, essa questão do silêncio nas estruturas de poder, isso acontece em diversos outros lugares, em instituições, no Estado, possivelmente em hospitais, universidades, escolas e até em estruturas familiares.

Como você percebe essa repercussão internacional?

O filme estreou na Mostra Brasileira Independente de Cinema de Rua. Isso me lembra muito o cenário do filme e a questão da pintura, e a gente ganhou por voto popular. Dali, nós fomos para Goiânia para a 16ª Mostra chamada O Amor, a Morte e as Paixões, que é uma mostra com uma veia psicológica, psicanalítica. E quem levou a gente foi o crítico Lisandro Nogueira. Quando eu cheguei lá e peguei o encarte do festival, havia filmes premiados no mundo todo. Estando no meio de vários filmes premiados,  percebi que tinha alguma coisa pessoal nesse filme, mas eu não sabia, nem tinha noção que o filme fosse entrar em outros festivais fora. O que eu acho bonito é que são curadorias que tiveram as suas formações com um cinema do seu próprio país.

A França tem uma história de cinema incrível, a Itália, os Estados Unidos, cada um com a sua veia e curadorias diferentes, culturas e idiomas diferentes.A gente foi agraciado com os prêmios. Isso me mostra que o tema do silêncio como uma ferramenta violenta de estruturas de poder e o ego de pessoas que trabalham com audiovisual está reverberando em outras culturas. Perceber o filme girar em diversas curadorias me faz entender que ele conseguiu dialogar com o mundo, com outras culturas e realidades, e isso torna tudo muito especial.

E isso tudo na sua estreia com longa-metragem. Como foi a sensação?

Quando o meu pai faleceu, eu tinha 14 anos, herdei uma câmera Super 8, um projeto, lentes e binóculos. Ele deixou objetos de observar. Isso de alguma forma ficou comigo. Eu comecei a escrever ali, depois eu fui fazer teatro, me formei como ator, mas sempre escrevendo. Comecei a ter vontade de dirigir minhas primeiras peças e as pessoas falavam que poderiam virar filmes. As pessoas não entendiam muito o que estava sendo encenado, achavam que não entendiam e, no final da peça, quando a gente ia conversar, estavam com medo de falar o que elas tinham entendido e estarem erradas.

Na verdade, elas tinham entendido, só que por uma veia da sensibilidade e não por uma veia racional. Visitando museus lá fora, eu vi algumas obras e desistia de entender racionalmente. Eu precisava me entregar a esse quadro, a essa escultura e perceber o que ela vai gerar internamente em mim. Nesse momento, caiu uma ficha muito grande sobre o filme, porque o filme faz você sentir muitas emoções e tem tantas conexões que você começa a montar na sua cabeça um segundo filme. O filme não é exatamente o que está na tela, mas o que se constrói dentro de você ao absorver o que assistiu.

O que você acha que mais mudou em você entre o início do projeto e a versão final?

O processo de um filme amadurece muito a gente. É demorado, é diferente de um processo de escrever poesia ou de fazer uma peça que é mais rápida. É um processo longo, você passa por muitos aniversários e muitos natais. Você começa a ter uma visão muito mais holística. É o meu primeiro longa. Por mais que eu tenha trabalhado como preparador, como assistente, e como ator em trabalhos audiovisuais, em curtas e outros projetos, quando você está como diretor, você vê que é coisa muito maior, muito mais complexa.Te dá uma visão muito bonita e profunda, do quanto é enriquecedor viver. É uma experiência única, coletiva e, ao mesmo tempo, muito solitária.

Muitos prêmios

O longa No silêncio foi agraciado como Grande Vencedor de 2025 no World Film Festival em Cannes. Na mesma premiação, o filme também conquistou os prêmios de Melhor diretor estreante e Melhor filme de suspense. Nos Estados Unidos, no Montgomery International Film Festival, Alexandre também venceu como Melhor diretor, Evandro Miúdo venceu Melhor ator e a fotografia também foi premiada.

O filme ainda conquistou o prêmio de Melhor filme de drama em festival no Peru, Melhor filme internacional de ficção em festival no Equador, Melhor filme live action na Hungria e Melhor diretor em festival russo. No Brasil, venceu a categoria de Melhor filme na Mostra Brasileira Independente de Cinema de Rua.

 


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