
Lucas Wickhaus está vivendo um 2026 e tanto. O ator, que completa 16 anos de trajetória artística neste ano, pode ser visto atualmente em dois papéis de peso em plataformas diferentes. Na TV Globo, ele interpreta o doce e leal Luan, melhor amigo do astro sertanejo João Raul (Filipe Bragança) em Coração acelerado. Paralelamente, no streaming, dá vida ao advogado abolicionista Avelino em Dona Beja, produção da HBO Max. E a agenda ainda reserva estreias no cinema: dois filmes protagonizados por ele, A perdição de Lázaro (direção Diego Paulino) e A solidez da água (direção Aldri Anunciação), aguardam lançamento.
"Pois é, este é o ano da colheita, né?", afirma. "Eu acho que a trajetória desses 16 anos de carreira... quando eu olho para trás e vejo que foi uma trajetória trilhada com muita dedicação, muito estudo, muito apoio da minha mãe, da minha família, eu posso, sim, falar que é uma carreira — e me sinto muito orgulhoso disso."
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O ator de 30 anos, que estreou em 2024 em Mania de você, na TV Globo, destaca a oportunidade de observar sua própria versatilidade ao ver os dois trabalhos no ar simultaneamente. "Dona Beja foi a minha primeira novela que eu fiz, e quando foi gravada, há três anos, eu era um outro ator, uma outra pessoa, um outro Lucas. E agora, em Coração acelerado, me sinto mais maduro, mais íntimo com a câmera, mais íntimo com a linguagem da televisão", explica. "Está sendo muito especial porque eu consigo acompanhar e entender essa versatilidade do meu trabalho, que são dois trabalhos completamente distintos, propostas estéticas diferentes, épocas diferentes."
Viver Luan em Coração acelerado trouxe desafios e descobertas prazerosas para Lucas. O personagem, um violeiro vindo da roça, exigiu uma imersão no linguajar goiano. "Acho que o mais divertido de fazer o Luan é o sotaque, né? (A novela) se passa em Bom Retorno, que é uma cidade fictícia próxima à Goiânia. O Luan traz muito esse aspecto de cidade pequena e esse sotaque um pouco mais carregado, então é uma diversão só, mas com todo respeito e carinho", conta. O ator ressalta o trabalho de pesquisa com as preparadoras Iris Gomes da Costa e Rose Gonçalves, e revela que mergulhou até no TikTok para captar as expressões da juventude goiana. "É muito divertido, isso. E o que é mais difícil é a relação com o violão... Esse tem sido o meu maior desafio."
Para se conectar com o instrumento e ganhar a intimidade necessária para as cenas, Lucas buscou um objeto carregado de memória afetiva: o violão de seu avô, com mais de 60 anos. "Eu acredito muito nesses objetos que trazem história, que estão há muito tempo com alguém e tem uma memória", revela. "Então eu acho que foi um momento realmente de conexão com a minha família, com o meu avô, porque ele também era musicista. Minha família é uma família que vem do samba. Sinto que emocionalmente e, de alguma maneira, até espiritualmente meu avô está presente; É uma herança bonita."
Abolicionista negro
Em Dona Beja, Lucas interpreta Avelino, um advogado com ideias progressistas para o século 19. A preparação envolveu pesquisa histórica, revisitar obras como as de Machado de Assis e filmes como O sétimo selo, além de aprender a montar a cavalo. Para o ator, fazer parte de um projeto que reposiciona o protagonismo negro é fundamental.
"Sobre esse protagonismo feminino e o protagonismo negro em Dona Beja, eu acho que é importante ressaltar que essa novela não é um remake, é uma versão", pontua. "O ponto de vista pode ser deslocado, que eu acho que é o que o Daniel Berlinsky faz brilhantemente... para uma visão onde a mulher possa contar sua história." Lucas destaca a importância de desassociar a história do negro da história da escravidão. "A escravidão foi um processo violento que aprisionou pessoas, mas as pessoas nasceram e nascem livres, é importante a gente dizer isso. E no Brasil, ainda nesse período escravocrata, algumas pessoas que eram livres lutaram para libertar outras pessoas que estavam nesse processo de escravização."
O ator celebra a presença, na trama, de personagens negros com agência e complexidade. "Na trama existem muitos personagens negros que não existiam na primeira versão. E esses personagens negros não são subalternizados, não são escravizados em sua maioria - são personagens livres, intelectuais, pessoas que têm as suas questões humanas, que erram, acertam, estão em busca de um amor, tem desejos", explica. "Eu não lembro de ter visto no audiovisual brasileiro alguma produção retratar esse período escravocrata com tanta humanidade nesses personagens negros, eu tenho a impressão de que é a primeira vez, e acho que isso é um passo importantíssimo para a nossa dramaturgia."
A arte como ferramenta de questionamento
Os próximos passos de Lucas no cinema também prometem discussões profundas embaladas por gêneros pouco usuais no país. Em A perdição de Lázaro, curta-metragem de Diego Paulino, ele vive um técnico de TI que tem sua identidade questionada por um erro de reconhecimento facial. “A inspiração foi um caso que aconteceu de fato, há um tempo atrás um cara negro foi reconhecido pela polícia através desta tecnologia, só que não era ele que cometeu o crime”, contextualiza.
Já em A solidez da água, seu primeiro protagonista em longa-metragem, dirigido por Aldri Anunciação, Lucas dá vida a Omí, um doutorando em química que acredita piamente que a água é sólida. Ao perder o passaporte e ficar retido na imigração a caminho da França, ele encontra um personagem interpretado por Antônio Pitanga. “O filme vai virar ali um terror psicológico, com camadas de ficção científica, também, mas acho que muito mais voltada ao terror social, a la Jordan Peele, né? São essas discussões raciais, sociais, com elementos do terror”, adianta o ator, que vê com bons olhos a exploração desses gêneros. “Acho interessante porque são dois gêneros pouco explorados no nosso cinema e eu estou bem curioso.”
Da periferia de Cubatão para o país
Ao olhar para seus 16 anos de carreira, Lucas faz questão de enfatizar a origem e o caminho que percorreu. Criado na periferia de Cubatão, sua formação artística se deu inteiramente em escolas públicas e projetos sociais, como o “Inclusão Através da Arte”. “Eu sou cria da escola pública, do ensino público, e falo disso em qualquer oportunidade porque acho muito importante”, afirma com orgulho.
“Acho que o que me salvou de muitas outras possibilidades e outros caminhos foi a educação e a arte, e esses dois elementos me fizeram ser o ator e o ser humano que eu sou hoje. Eu nunca paguei para estudar até porque eu não teria essa condição”, revela.
Para ele, a educação e a arte proporcionaram algo transformador: a capacidade de imaginar. “A educação como um todo, e eu vou colocar a arte dentro da educação porque eu não consigo desassociar uma coisa da outra, pode mudar a realidade porque ela te ensina a imaginar outras realidades. E aí, a partir do momento que você começa a imaginar outras realidades, você passa a buscar aquela realidade que você imagina.”
Lucas credita à mãe, enfermeira e funcionária pública, o exemplo de que a herança mais valiosa é a cultural. “A gente sempre teve essa clareza do que é vencer na vida, e nem sempre isso tem a ver com dinheiro, mas tem também. Mas tem muito a ver com essa autonomia, com inteligência, com uma intelectualidade nossa e uma produção de pensamento que o ensino público me ajudou a produzir. E isso é meu, ninguém tira, tá comigo, né?”
Humanidade e fragilidade como fios condutores
Entre os diversos personagens que já interpretou, de um jogador de futebol a um músico sertanejo, passando por um malandro do litoral e um abolicionista, Lucas revela o que busca em cada um. “O que busco para todos é revelar a humanidade e, principalmente, certa fragilidade, com sutileza, porque acho que todo mundo tem a sua fragilidade, sua complexidade, e isso gera identificação e encanta o público”, filosofa. “O trabalho do ator é essa tentativa constante de construção.”
E os sonhos para o futuro incluem dar vida a dois ícones da música brasileira: Luís Melodia e Emílio Santiago. “Minha família é do samba, tenho isso como herança de família, e sempre ouvi o Melodia e o percebia muito disruptivo e revolucionário”, explica. “Isso me instiga no Melodia, essa coisa que também é meio felina, sensual, e isso de fazer o que quer fazer, não o que querem que ele faça. E o Emilio pra mim talvez seja o maior cantor do Brasil, uma voz perfeita... Certamente seria um presente interpretar algum dos dois - ou até os dois, quem sabe, né?”

Diversão e Arte
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