Música

Sobrinho de Lô Borges apresenta homenagem ao cantor nesta quinta-feira (5/3)

Rodrigo Borges, sobrinho do compositor mineiro, apresenta show nesta quinta-feira (5/3), no Clube do Choro, com um passeio pelo repertório e várias histórias de bastidores

Rodrigo Borges, sobrinho de Lô, faz homenagem ao cantor  -  (crédito: Divulgação)
Rodrigo Borges, sobrinho de Lô, faz homenagem ao cantor - (crédito: Divulgação)

Lô Borges era um compositor compulsivo. Acordava cedo, ia caminhar na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, voltava para casa e sentava para escrever. Dizia que a música precisava vir em 40 minutos e, se não ficasse pronta nesse período, passava para a seguinte. Ganhou destaque na música brasileira em 1972, com o primeiro álbum do Clube da Esquina, mesmo ano que lançou o projeto solo que viria a ficar conhecido como Disco do tênis, aos 20 anos. Em 2019, passou a lançar um disco por ano e, na carreira, acumula mais de 15 álbuns de estúdio. Um girassol da cor do seu cabelo, O trem azul, Paisagem da janela e Tudo que você podia ser são algumas das músicas mais marcantes de sua trajetória musical. 

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Em novembro de 2025, morreu aos 73 anos depois de um período de internação para tratar de um quadro de intoxicação medicamentosa. Mas a memória do cantor segue viva, seja pelos amigos, seja pela obra. Deixou quatro álbuns póstumos, dos quais dois já estão mixados. A família, recheada de músicos, também segue o legado do cantor. Hoje, Rodrigo Borges, artista e sobrinho do cantor, faz apresentação no Clube do Choro com o show Coisas que a gente se esquece de dizer, uma homenagem a Lô. A apresentação tem início às 20h, e o ingressos custam a partir de R$40, à venda no site Bilheteria Digital.

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Nesta entrevista, Rodrigo fala sobre os bastidores do Clube da Esquina, a dedicação de Lô à profissão de compositor e como o show de homenagem ao tio foi concebida.

Entrevista // Rodrigo Borges

Como é a homenagem foi pensada?

Eu pensei em estruturar a apresentação em alguns dos álbuns mais representativos, sobretudo na origem do Clube da Esquina de 1972 e no Disco do tênis, assim como canções como Faça seu jogo, O caçador e Canção postal, que são embrionárias da carreira do Lô, mas já com muita qualidade. Passo também pelos álbuns que consolidaram a carreira, como A Via-Láctea, de 1979, Nuvem cigana e Sonho real

A ideia é fazer o show a partir dos álbuns mais representativos e também pegando canções do álbum clássico do Clube da Esquina, para fazer esse passeio pelo repertório mais emblemático, mas também com canções que podem surpreender o público, como do Disco do tênis. É uma reverência e homenagem ao Lô. 

Como você decidiu as músicas do show?

Eu acho que tem essa representatividade do álbum do tênis, que não foi reconhecido imediatamente quando lançado, mas com o passar dos anos, teve reconhecida a qualidade e ganhou status de cult, cultuado, e muito influente, não só no Brasil, mas fora também. Até o vocalista do Arctic Monkeys, Alex Turner, descobriu Os barões. Nacionalmente, é um disco que as novas gerações têm descoberto. Falo até como professor de música, vejo alunos interessados no disco. 

Ao mesmo tempo, pego canções que têm a ver com a minha memória afetiva. Tive o prazer de acompanhar o Lô e cantar com ele, participei de um show dele em São Paulo e ele participou do meu DVD. No fim dos anos 1980, virada para 1990, lançou, com meu pai, Marilton Borges, um disco de piano, guitarra e violão e que teve participação do Milton. Viajei em uma turnê desse álbum no interior de Minas e do Rio de Janeiro, e construí uma ligação afetiva com o repertório que eles tocavam.

Algumas do Tênis, como Faça seu jogo, com uma letra que fala da questão da vida um pouco cigana do músico, de abrir o coração para pessoas, a música e a arte. Então, me lembro da adolescência. O repertório tem, para mim, essa carga afetiva muito grande, de  memórias da adolescência, convivência com o Lô e saudades que eu senti e as pessoas sentem. É um show com uma carga emocional muito grande.

Você sabe os bastidores de algumas dessas composições?

No Clube da Esquina 1, Marcinho, Lô e Milton estavam compondo na casa dos meus avós em Santa Tereza e, quando estavam para acabar, a luz acabou. Minha avó, Maricota, pegou uma vela e acendeu, para iluminar não só a ideia do Marcinho, mas também o papel com a com a composição e que leva o nome do movimento. 

O Marcinho nem considera o Clube como um movimento planejado, como foi a Tropicália. Foi algo mais espontâneo, a minha que cunhou o nome. Quando perguntavam para ela onde eles estavam, ela fala 'no clube da esquina', onde se reuniam para tocar violão e compor, bem na esquina casa dos meus avós. Então, ela cunhou o nome e teve essa participação especial quando estavam compondo. 

Como era o Clube da Esquina por dentro?

O que eu percebo do Clube é que é um encontro de amigos e pessoas que tinham a música de uma forma muito natural na vida. A música era uma parte importante do dia. O próprio Lô, que é um criador compulsivo, falava isso, que a música e a criação faziam parte da rotina dele, como quem toma banho ou almoça. Eu percebo isso dentro da família Borges, de ter a música no dia a dia de forma natural e presente.

Esse ambiente, dessa forma, facilita muito o processo criativo, a forma de encarar a profissão de compositor com seriedade, leveza e naturalidade. Percebo isso para além das histórias e desse pacto de amizade que tinham, existia um pacto de fazer a melhor música possível, de qualidade e originalidade. 

Milton e Márcio fizeram uma sessão do filme Jules e Jim - Uma mulher para dois, de François Truffaut, viram o filme a tarde inteira e saíram só à noite, inspirados pela relação de amizade que o filme mostra e pela arte, para compor. Foram para a casa dos meus avós, pegaram um violão e compuseram as três primeiras músicas. Fizeram um pacto de serem originais independentemente de qualquer coisa, que é algo que está no DNA do Clube e levaram para a vida inteira. 

Como o Lô te influencia?

Eu, para além de parente, também tenho Lô na condição de ídolo, sempre foi uma inspiração muito grande. Na verdade, as pessoas que o conhecem percebem essa genialidade dele para compor, a cabeça extremamente musical e a facilidade que tinha para criar. Como disse, esse comprometimento que tinha com a profissão. E não guardava também porque, quando ficava pronta, ia para o estúdio gravar. 

Ele deixou quatro discos e meio póstumos, dois já mixados, por encarar a música como forma de vida. Ensinou para as novas gerações e para mim a encarar o ofício da música com dedicação, onde se vai colocar com sensibilidade, lapidar o trabalho e ter cuidado com as coisas que cria. Sempre me incentivou. Ele segue vivo, não só na memória, mas nas coisas que fez que são maravilhosas. E que as pessoas conheçam trabalhos mais recentes dele, que procurem viajar na obra dele.

Serviço

Coisas que a gente se esquece de dizer

De Rodrigo Borges. Nesta quinta-feira (5/3), no Clube do Choro, às 20h. Ingressos a partir de R$40, à venda no site Bilheteria Digital


*Estagiária sob a supervisão de Severino Francisco

 


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postado em 05/03/2026 12:38 / atualizado em 05/03/2026 15:25
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