
Susana Vieira está no palco, prestes a viver uma das personagens mais icônicas da história da dramaturgia. Ela, finalmente, será Lady Macbeth, mas não é exatamente da mulher ambiciosa que convence o marido a matar o rei que trata Susana em Lady, em cartaz no Teatro Poupex, a partir de amanhã e até domingo. É a própria Susana o tema da peça. Ela, na verdade, interpreta uma atriz que se prepara para viver a Lady de Shakespeare enquanto relembra momentos da trajetória. Vida real e palco se misturam nesse monólogo dirigido por Leona Cavalli e com texto de Vana Medeiros.
Susana conta que foi um enorme desafio montar o espetáculo. "Eu amo, e o desafio estava em fazer isso da melhor forma possível e fazer isso chegar nas pessoas. E nós conseguimos, eu faço a Lady com tanta vontade, tanto prazer e isso chega na plateia", conta. O texto de Vana Medeiros não hesita em borrar as fronteiras entre ficção e realidade. Em muitos momentos, Susana fala dela mesma. "Quando é sobre a minha vida, sou eu mesma contando, e não é fácil tocar em alguns assuntos, então eu me sinto despida, por isso que a plateia se torna cúmplice e vive aquilo junto comigo", avisa.
Leona Cavalli teve participação importante nesse processo de mesclar ficção e realidade. Ela e Susana se conheciam há tempos. "E sempre admirei o trabalho dela. Quando convidei, ela aceitou na mesma hora e estava estudando Shakespeare, foi perfeito. Ela me ajudou muito com a Lady. E a parte sobre a minha vida, ela e meu produtor escolheram esse caminho de não ter personagem, ser eu mesma falando sobre tudo", diz a atriz, que conversou com o Correio sobre o espetáculo. Aos 83 anos, ela conduz o monólogo durante uma hora e quarenta minutos e lembra que um dos segredos em se manter ativa é nunca deixar de lado o humor, presente em Lady e na vida da atriz.
Entrevista//Susana Vieira
O que mais te fascina na personagem de Lady MacBeth? O que ela tem de particular?
A loucura e a força, acho que essa força é o que mexe comigo. Nós somos muito fortes, inclusive falo sobre isso na peça.
Como foi a decisão de intercalar momentos de sua própria trajetória no espetáculo? Como esses momentos conversam com a peça de Shakespeare?
Tudo foi acontecendo durante o processo, eu queria contar algumas coisas da minha vida e queria mostrar um lado meu como atriz que muitos não conheciam. Então fomos misturando junto com a Vana Medeiros, as histórias da minha vida com o Shakespeare. Eu fiquei muito feliz com o resultado, porque eu conto tudo de uma forma leve e engraçada, histórias que as pessoas nem imaginam, e faço momentos da Lady. O público vai acompanhando e torcendo, as reações são divertidas.
O que, na sua trajetória como atriz, mais se aproxima da atriz que você vive no palco nessa peça?
Tudo, quando é sobre a minha vida, sou eu mesma contando e não é fácil tocar em alguns assuntos, então eu me sinto despida, por isso que a plateia se torna cúmplice e vive aquilo junto comigo, não tem personagem, não tem máscaras. Sou eu de peito aberto, falando sobre tudo e quando vem a Lady, aí sim eu posso brincar com a personagem. Por incrível que pareça, é mais fácil você ter uma personagem como rede de proteção.
O que a maturidade traz quando se trata de interpretar Shakespeare? Ajuda? Como? E como a maturidade é importante na vida de uma atriz?
Eu não sou daquelas pessoas que falam que não se arrependem de nada. Eu me arrependo, eu aprendi com os meus erros. Sou uma mulher que viveu tudo intensamente, e isso tem o seu peso. Eu acho que o resultado da peça, para o público, tem essa maturidade. Eu tenho 83 anos e levo a plateia comigo durante uma hora e quarenta minutos, sem sair de cena. É uma loucura, mas é compensador.
Qual o maior desafio no teatro hoje para você, depois de ter feito tantos filmes, peças e novelas? O que te desafia?
Estar com 83 anos em cena não é fácil, mas, ao mesmo tempo, isso me motiva, o meu trabalho me mantém viva, atenta à minha saúde. O contato com o público, a resposta imediata. Eu levei essa peça para Portugal e fiquei três meses longe de casa. A resposta do público era o que me motivava. Você lotar todas as sessões fora do seu país, isso é maravilhoso.
A peça tem humor: como isso é importante para viver essa personagem?
Eu só cheguei aos 83 anos, bem como estou, porque levei a vida com humor, se não você não aguenta, e a peça tem a minha cara, esse humor, esse deboche um pouco Miguel Falabella. Esse olhar sobre a vida, que fala de coisas muito sérias, com leveza, com humor.
Você acredita em reinventar-se? Isso faz parte de ser atriz? Se reinventar a cada novo papel? A cada fase da vida?
Eu acredito no trabalho, na entrega. Eu digo sim pra tudo, para todos os trabalhos, pra vida. Então eu acho que você estar em atividade já te obriga a ir se reinventando.
O que você ainda tem vontade de fazer e não fez?
Eu tenho vontade de fazer tanta coisa, um programa de entrevistas por exemplo.
Você acha que a sociedade brasileira lida bem com o envelhecimento? Por quê?
Não, acho que não sabem lidar de jeito nenhum, eu recebo muitos xingamentos de velha nas redes, como se isso fosse uma ofensa. Eu falo sobre isso na peça. Porque não tem outro jeito, ou se envelhece ou se morre cedo. Eu estou com saúde, trabalhando, convivendo com as minhas dores, o corpo muda, a cabeça muda e as pessoas ainda não sabem lidar com isso.

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte