
Há personagens que chegam para desafiar; outros, para transformar. No caso de João Villa, Fortunato, o sensível e contraditório personagem de Dona Beja, fez as duas coisas. Em cartaz na HBO Max e também exibido na Band, o folhetim de época tem como um de seus pilares a relação intensa entre Fortunato e o personagem de Eduardo Pelizzari, com cenas de forte teor erótico que mobilizam o público e acendem debates sobre representatividade e afeto na dramaturgia brasileira.
Natural de Echaporã, no interior de São Paulo, João Villa construiu uma trajetória sólida na televisão, com passagens por Pega pega (TV Globo), Topíssima, Gênesis e Reis (Record TV), além de projetos no cinema e no streaming. Mas é com Fortunato que ele vive um dos momentos mais maduros da carreira. "O processo de construção do Fortunato partiu muito de um mergulho interno, de entender o que está por trás do silêncio dele. É um personagem que pensa, sente muito, então a construção veio muito mais das entrelinhas do que do texto direto", revela o ator.
- "Dona Beja" estreia na HBO Max com uma mulher à frente e além do seu tempo
- "Meu nome é movimento", avisa Daniel Berlinsky, autor de "Dona Beja"
Fortunato não é um personagem de excessos. Sua força está no que não diz, no que reprime, no que sustenta no olhar. Para João, foi justamente essa complexidade emocional que o atraiu: "Ele é um personagem cheio de contradições, que vive um conflito constante entre o que sente e o que acredita que pode ou deve sentir. Isso, como ator, é muito instigante". Essa construção silenciosa exigiu uma entrega diferente. "O Fortunato me colocou em um lugar de muita escuta e de uma entrega mais silenciosa. Ele não se sustenta no excesso, se constrói justamente no que é contido, no que é reprimido, no que não encontra forma de ser dito. Isso me exigiu um outro tipo de presença em cena, mais interna, mais precisa", afirma.
Intimidade e representatividade
As cenas de forte carga erótica entre Fortunato e seu parceiro em cena, Eduardo Pelizzari, têm sido um dos assuntos mais comentados da trama. Longe do improviso, tudo foi cuidadosamente construído com o suporte de uma preparadora de intimidade, Roberta Serrado. "Essas cenas só funcionam quando existe muito diálogo e confiança. Desde o início, houve uma troca muito aberta com a direção e com os colegas de cena. Esse trabalho de intimidade garante que todas as cenas sejam pensadas de forma técnica e segura, com limites bem estabelecidos e uma coreografia clara. Nada é feito de forma improvisada. Existe uma construção muito consciente de cada movimento, de cada intenção. Isso cria um ambiente seguro e permite que a gente foque no que realmente importa: a história que está sendo contada", explica.
A química entre os dois atores, no entanto, não é fruto apenas da técnica. "A química não é algo que se cria sozinho, ela nasce da escuta, da troca e da confiança. Eu e o Dudu construímos isso com muito respeito e muita disponibilidade em cena, entendendo que estávamos lidando com uma relação delicada, cheia de camadas e de silêncios", pondera.
A trama se passa no século 19 e mostra um relacionamento homoafetivo em uma sociedade patriarcal e repressora. Para João, contar essa história em um contexto histórico tão específico é também uma forma de falar sobre o presente. "Acho muito potente porque isso evidencia que essas questões não são novas, elas atravessam o tempo. Ao mesmo tempo, o fato de ainda nos identificarmos com esses conflitos hoje revela o quanto certas estruturas, infelizmente, permanecem", reflete. O ator vê na trama uma oportunidade de reflexão e transformação: "Dar visibilidade a essa narrativa é, de alguma forma, provocar uma reflexão sobre o presente e também um movimento para que isso mude. É olhar para o passado e entender o quanto ainda precisamos avançar para que as pessoas possam viver com mais liberdade".
Quando o assunto é a representação de personagens LGBTQIAPN+ na dramaturgia brasileira, João defende mais complexidade e naturalidade. "O principal é a complexidade. Personagens não podem ser reduzidos a uma única camada ou a um único aspecto da sua identidade. É importante que essas histórias sejam contadas com profundidade, com humanidade, com contradições, como qualquer outro personagem", frisa. Ele também acredita que é preciso avançar para narrativas em que a sexualidade não seja sempre o centro do conflito: "Precisamos começar a contar essas histórias com mais naturalidade. Falar sobre essas pessoas simplesmente vivendo, existindo na sociedade como qualquer outra. Ao mesmo tempo, ainda é necessário falar sobre as dores, porque elas fazem parte da realidade de muita gente hoje".
Transição entre linguagens
Além da televisão aberta, João Villa tem investido em projetos para streaming, como a série Amor da minha vida (Disney+) e a novela vertical A herdeira contra-ataca (ReelShorts). Para ele, a transformação do audiovisual é uma oportunidade de expansão criativa. "Estamos vivendo um momento de transformação muito potente no audiovisual. As plataformas de streaming e os novos formatos ampliaram não só o alcance das produções, mas também as possibilidades de linguagem", celebra o ator, que vê com entusiasmo a diversidade de narrativas que surge com essas mudanças. "Hoje, a gente não está mais preso a um único formato. Existem diferentes tempos, diferentes estéticas, diferentes formas de contar uma história. Isso abre espaço para experimentação, para diversidade de vozes e para projetos que talvez não encontrassem espaço em modelos mais tradicionais", completa.
Sobre a novela vertical, ele destaca o novo tipo de exigência que o formato traz: "Ela traz uma dinâmica completamente diferente de consumo, mais imediata, mais fragmentada, e isso também exige do ator uma outra consciência de ritmo, de construção e de presença".
João Emocionado
Fora das telas, João Villa mantém um projeto autoral nas redes sociais chamado João Emocionado, onde compartilha poesias e reflexões sobre a vida. O espaço, que alcança milhões de pessoas mensalmente, é uma extensão do seu olhar artístico. "O João Emocionado é um espaço muito íntimo, onde eu consigo me expressar sem mediação, de uma forma mais direta e pessoal. Ali, eu exercito uma escuta interna, um olhar mais sensível para as emoções, para o cotidiano", explica. Esse lado mais sensível, segundo ele, alimenta diretamente o seu trabalho como ator: "Eu acredito muito em uma arte que toque, que provoque algum tipo de identificação, que faça as pessoas se reconhecerem ou se questionarem. Não necessariamente uma arte confortável, mas uma arte que mova alguma coisa internamente".
Com uma carreira construída na diversidade de papéis e na consistência da formação acadêmica, João Villa segue em movimento. Entre os desejos para o futuro, estão novos desafios artísticos e a expansão para outros territórios. "O que me move é justamente a possibilidade de continuar me transformando através das histórias que eu conto. Cada personagem é uma oportunidade de olhar o mundo por outra perspectiva, de acessar lugares que talvez eu não acessasse na vida pessoal", assinala ele, que também sonha com voos mais altos. "Tenho vontade de expandir a minha atuação para outros territórios, estudar fora, trabalhar em outras línguas, entrar em contato com outras culturas e outras formas de fazer arte. E, ao mesmo tempo, seguir construindo uma trajetória consistente aqui, com projetos que tenham relevância artística e que dialoguem com o público de forma verdadeira", destaca.
Ao olhar para trás, João reconhece o peso do que já construiu, mas é para frente que ele aponta. "Acho que, no fim, o que eu busco é isso: uma carreira que faça sentido, que tenha propósito e que continue em movimento", finaliza.
Saiba Mais

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte