
Crítica//O olhar misterioso do flamingo ★★★★
Visto como "um ato terrorista contra a ditadura do bom gosto", nas palavras do próprio radical diretor (John Waters), o longa Pink flamingos, feito em 1972, guarda um curioso enlace com o longa do chileno Diego Céspedes, situado, na trama, dez anos depois. No filme de Waters, havia criminalidade associada à vivência de uma drag queen, enquanto os flamingos de Céspedes (agrupados numa perseguida comunidade transgênero de O olhar misterioso do flamingo) parecem dispostos a aprender, espernear e reagir, nem sempre de maneira plácida, mas longe de serem criminosos.
Representante chileno para tentar uma vaga na seleção final do Oscar 2026 (disputada pelo latino-americano O agente secreto), o longa venceu prêmio na mostra Um Certo Olhar, um segmento dentro do Festival de Cannes. Com intérpretes extremamente expressivos — entre os quais, Matías Catalán, que dá vida a Flamingo; Paula Dinamarca, a agregadora Mama Jiboia e ainda a jovem Tamara Cortés (Lídia, que terá duro aprendizado) —, o filme abraça um clima de desencanto e descontentamento, frente a um cenário inoperante em prosperidade e permeado por machismo, além de cercado de abusos.
Com um admirável refinamento de imagens (a cargo de Angello Faccini), o longa apresenta a criação diferenciada de Lídia, que terá a surpresa do primeiro amor e acompanhará festejos e dores do grupo, injustamente, acusado de espalhar uma peste (que as relega a um gueto e, inevitavelmente, desvela preconceitos relacionados a soropositivos dos anos de 1980).
Dentro de um casebre de madeira o diretor registra a precariedade de concursos de talentos das trans que entregam enorme respaldo para a criação de Lídia. De quebra, há inegáveis associações possíveis entre a produção e Os imperdoáveis (de Clint Eastwood, feito em 1992), a dolorosa despedida vista em Pixote (de Hecto Babenco) e o clássico Os incompreendidos, de François Truffaut.

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