
No universo artístico, vez ou outra, é necessário fazer mergulhos mais profundos. Isso, sobretudo, quando a chama que existe no peito implora pela busca de novos sentimentos, sejam eles bons ou ruins. Cantor e compositor, o paulista Rael, em seu mais recente álbum, Nas profundezas da onda, vai além das águas turvas e claras, unindo instrumentais vibrantes e letras que tocam em feridas abertas, como saúde mental, perdas pessoais e a indústria musical.
Em entrevista ao Correio, o artista revelou que o novo disco — composto por 11 faixas inéditas — é diferente de qualquer projeto que já tenha feito, considerado por ele, inclusive, como o mais maduro realizado na carreira. "Ele tem a luz, essa ideia de ir para o litoral da Bahia, mas também tem um pouco de sombra. Quando você mergulha no mar, você vê outro universo lá embaixo. Na profundeza você vê uma coisa turva, mas também pode ver clareza”, destaca.
Assim, essa profundidade é um tema explorado no álbum. Não ter medo de dizer o que pensa foi um dos caminhos utilizados por Rael. Entre as pautas levadas à mesa, Rael destaca discussões sobre ecocídio, conhecimentos medicinais e a necessidade de humanizar o artista. "A gente não é só um hit ou um disco de sucesso, tem muito mais por trás", afirma.
O processo criativo foi impulsionado, também, por um dos anos mais difíceis da vida do músico. Após a perda de sua mãe no ano passado, Rael encontrou no estúdio um espaço de cura. "Usei essa grande perda e outras questões como combustível. Em vez de ficar lamentando, usei essa raiva e essa dor. Entrei no estúdio e, em 30 dias, fizemos o disco. Foi um processo que me deixou mais leve. Externar isso é gratificante e uma cura", confessa Rael.
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A defesa da identidade
O instrumental alto astral e a energia vibrante do disco é, sem dúvidas, um pilar para o projeto do artista. Mas, em contraste com essa luz, as letras marcantes e a lírica ácida, tão conhecida pelo público que o tem acompanhado durante todos esses anos. Um dos pontos centrais é a crítica ao sistema atual de consumo de música. Citando o cantor Silva como inspiração para a primeira faixa, Rael questiona como o mercado e os algoritmos tentam "encaixotar" artistas em gêneros pré-definidos para facilitar o funcionamento das plataformas digitais.
Para ele, o maior desafio da carreira hoje é manter a autenticidade sem se render às trends passageiras. "A gente vive em uma era de fila de tendência, mas pouca gente tem coragem de ser original. Quando você tenta manter sua autenticidade, paga o preço de não caber em playlists, porque as pessoas não sabem quem você é”, completa.
A caixa citada por ele, nasce para rotular o que o mercado não consegue definir. Instruindo artistas e fãs a seguirem rótulos, como uma espécie de caminho sem volta. "Se eu faço um disco pop, os caras falam que é urbano. Como chegar em mais pessoas se o algoritmo te manda só para um nicho?", questiona o artista.
O futuro do rap
Apesar das críticas ao sistema, Rael se mostra otimista com o momento vivido pelo rap brasileiro, que define como um cenário em "auto ebulição". Com muito entusiasmo, ele ressalta a ascensão feminina no gênero. "As minas têm ocupado um espaço importantíssimo que eu nunca tinha visto. Isso fortalece muito a cena e sai da mesmice de sempre os mesmos nomes dominando. Para a saúde do nosso movimento, é necessária essa diversidade."
Para ele, os anos que virão estão em boas, sobretudo pelas boas conexões entre as gerações atuais e as que vieram antes dessa. Esse bom diálogo, de acordo com o artista, só engrandece a cena e faz do rap um lugar melhor. “Sempre estive conectado com a música dos mais novos. Não tenho essa restrição, estamos no mesmo lugar.”
Misturando samba-rock, boom bap, reggae e um "Rael da rima" mais ácido e melódico, o novo álbum se apresenta como o trabalho mais maduro do artista até aqui. O semblante leve e feliz corrobora com a afirmação. É um novo momento para um artista que sabe bem como desfrutar desses instantes. "Considero esse o melhor disco que fiz até na minha carreira", finaliza.

Diversão e Arte
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