Cinema

Ao Correio, Lúcia Morat fala sobre novo filme e juventude brasileira

No contato com uma geração antenada e esforçada, cineasta Lúcia Murat constrói o documentário Hora do recreio, atração, a partir de quinta, nos cinemas

É de maneira leve, como se fosse tempo de recreio, que a diretora de cinema Lucia Murat conversa com o Correio sobre a mais recente obra, talhada de viés crítico, embalada em forma de documentário-híbrido, o longa-metragem Hora do Recreio. No filme, ela conversa de verdade com uma classe muito preparada: os jovens de hoje em dia. "Desde cedo, eles estão vivendo e discutindo questões que antes você não discutia com a mesma força. E pesa o fato de os meninos negros estarem na escola e poderem chegar à universidade, através de cotas. Tudo faz com que questões sociais sejam muito mais discutidas no filme", observa a cineasta.

Conhecida por filmes como Que Bom Te Ver Viva (1989) e Maré, Nossa História de Amor (2008), Lucia investe num gênero eternamente ligado ao nome de Eduardo Coutinho, morto há 12 anos e autor de longas como Cabra Marcado para Morrer (1984) e Edifício Master (2002). "Coutinho foi meu vizinho, meu amigo de muitos anos; faz uma grande falta. Mas, se você me pergunta o que me ensinou... Acho que ele não me ensinou assim, porque eu sempre tive inveja dele, que transbordava um humor delicioso. Ele nunca conseguiu me ensinar, porque eu não tenho a capacidade do humor que ele tinha", diverte-se, entre doces memórias.

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Foi na nova fita, premiada no Festival de Berlim, que Lucia voltou à carga combativa. "Houve momento em que a produção do filme chegou e falou: 'Olha, vai ter que suspender os depoimentos dos alunos do ensino médio; a gente só pode fazer com o ensino fundamental 1 e 2'. E eu falei: 'Olha, eu não vou aceitar isso, porque ensino médio é fundamental de estar no filme. São os meninos mais velhos e que conseguem articular melhor várias questões'. Alugamos uma locação e levamos os meninos para lá, para as entrevistas", destaca.

Das sessões feitas para alunos da rede pública, veio parte da satisfação da profissional. "Teve uma menina (do corpo de entrevistados) que fez questão de anunciar (numa das sessões): 'Fomos muito bem tratados (pela produção), puseram uma van para levar a gente, e nos deram comida'. Seguimos os processos normais usados na ficção...", orgulha-se Murat. Confira a entrevista: 

Entrevista //Lucia Murat, cineasta

Qual foi o maior problema da falta de politização do Festival de Berlim, em 2026? Foi lá que você conquistou citação em menção honrosa do ano passado, com o teu filme Hora do Recreio...

A minha experiência com Berlim é a experiência justamente desse local politizado. Eu não estive lá, em fevereiro, quando das reclamações. Não participei dessa história, só acompanhei pelas notícias de jornal. Foi um pouco espantoso. Porque não é a tradição de Berlim. Você "entende", porque a extrema direita cresce muito e pressiona o festival. A prefeitura de Berlim está nas mãos de pessoas que não são tão progressistas. A questão da imigração lá é uma discussão. Você entende, mas não aceita. Acho que o abaixo-assinado (de personalidades) sobre a questão foi fundamental ter de ter sido feito. Provavelmente, eles devem ter se preocupado com isso.

Uma pessoa que enfrentou problemas com a ditadura, como é teu caso, se viu novamente envolta numa espécie de censura com relação ao novo filme?

Explicando a situação: no Brasil inteiro, o ensino médio é ligado ao governo do Estado, e o fundamental é ligado à prefeitura. Estávamos liberados para filmar no Fundamental. O problema foi com a Secretaria de Educação do Governo do Estado: tentamos, com insistência, e, no final, eles disseram: "Agora, só daqui alguns meses nós vamos responder". Praticamente vetaram. Acho que é falta de interesse mesmo, de interesse na cultura, em discutir a educação. Obviamente que o meu currículo (contestador) é conhecido também (risos). Eles sabiam do que é que eu ia falar...

Não existe mais lugar para ingenuidade no jovem de hoje?

Estamos em idades diferentes. Se a gente pensar, na minha época, meninas de 12, 13 anos eram muito ingênuas. Você, tendo uma ditadura, não tinha essa discussão e as famílias geravam algo muito conservador. Questões como racismo, violência doméstica, não eram discutidas. Hoje, questões identitárias são centrais. Não são novidades também, tanto é que eu faço essa relação (no filme) com a literatura de Lima Barreto — ele, do início do século 20! Quer dizer, o Clara dos Anjos é um livro que trata de trata de racismo e abuso.

Algo central hoje. Há uma juventude que, hoje, por maio das cotas e tal, consegue ir para a universidade. Eles conseguem fazer diferença e discutem sob outro ponto de vista, com outro lugar de fala. Coisas muito mais fortes. O mundo, com todas as informações que existem hoje, trouxe retrocessos, nas questões de foco, de concentração, cada vez mais difícil. Um gerente (de cinema), dia desses, falou: "Há pessoas que pagam e entram atrasados (na sala) e ainda ficam ligando o celular durante um filme". Há evidente problema da concentração, é muito sério. É algo debatido por professores. Há retrocessos.

O que houve de inesperado na feitura do filme?

Vi a capacidade de articulação e de resiliência dos jovens. Houve, na minha carreira, a experiência com o grupo Nós do Morro (presente no filme Quase dois irmãos). Percebi, agora, de forma mais ampliada. E a segunda coisa foi ter encontrado, apesar dos baixíssimos salários, da falta de recursos, professores tão dedicados e preocupados.

Educação ainda tem jeito no Brasil?

Há professores maravilhosos ainda. Isso é uma dádiva para o Brasil. A gente tem pessoas que, apesar de tudo, estão ali, trabalhando, e muito bem. O filme, no fim, propõe isso: "Vamos ter que se voltar para a educação mesmo". Há de darmos condições para os professores, melhorar os salários e dar recursos para eles poderem justamente levar os alunos em teatro, em cinema e em museu. É necessário esse diálogo, esse encontro. Acho que o que a gente levanta com o filme é esta discussão.

O filme pega em aspectos polêmicos, tópicos como gradação de tom de pele e mais preconceito racial...

Acho que os jovens são assim, né? Acho que a gente teve foi muita escuta. A gente deu o microfone para eles. Jovens não têm nada de fantasioso, veio a postura deles. Outra coisa é que o Lima Barreto (e o uso da literatura dele no filme) sempre foi uma ideia que eu tive. Gosto muito do Barreto, um grande escritor. E Clara dos Anjos é um livro que trata de racismo e de abuso no início do século 20, com questões muito contemporâneas.

Barreto dá base para as encenações que estão contempladas no filme, por personagens atores...

Minha ideia, no início, era fazer fazer o texto com atuação do Nós do Morro. Aí a preparadora de elenco Luciana Bezerra nos apresentou outros dois grupos: o Vozes!, no Pavão/ Complexo de Cantagalo, e o Instituto Arteiros (Cidade de Deus). Trabalhamos com esses grupos. Minha ideia original era fazer um teatro e eles discutindo, o que no fundo era uma ideia totalmente acadêmica. Confrontar passado e presente, algo meio sociológico. O que era o racismo na época, o que é o racismo hoje. Quando fizemos, foi um desastre.


Como resolveu?

A verdade é que não temos tradição de ser Shakespeare (risos). O texto do Lima é muito difícil, longo, com muitas palavras que você não conhece e falta embocadura para a encenação. Eles (os jovens do filme) começaram a brincar, com humor, o texto. Quem nos deu a saída do filme foram eles. Fizemos ensaios, teatro e, depois, abrimos para a discussão. Eles falaram o que quiseram. Eles tinham controle do livro. Na parte documental, pusemos duas câmeras ligadas, direto, e passei a não querer cortar, nunca. Tudo para não atrapalhar a discussão.


O que é um "tipo bem brasileiro" na tua opinião, como enfatizam no filme?

Isso veio da parte do texto do Lima Barreto, quando ele critica o Caci, que é o o branco abusador na trama do livro. Quando ele critica o Caci (personagem persuasivo), que fazia pequenos biscates, "pequenas ladroagens". No texto do Lima surge a fala "do tipo bem brasileiro". Isso é o Lima criticando os brancos, no poder. É isso aí: ainda temos muitos deles, infelizmente, ainda hoje.

Imovision -
Taiga Films/Divulgação -

 


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