
Ao longo da história, a literatura também foi um espaço de disputa para as mulheres. Durante séculos, escritoras enfrentaram silenciamento, publicaram sob pseudônimos masculinos ou tiveram suas obras relegadas a um segundo plano em um campo dominado por homens. No Dia Internacional da Mulher (8/3), revisitar a presença feminina na literatura é reconhecer não apenas autoras que abriram caminhos, mas também a força de narrativas que desafiaram padrões sociais, ampliaram vozes e transformaram a forma como histórias são contadas.
Tendo em vista a dificuldade de acesso primeiramente à alfabetização e, posteriormente, à inserção no mercado editorial, muitas mulheres foram desencorajadas a escrever ao longo da história, conforme explica Clarice Lima, mestranda em literatura e pesquisadora de autoria feminina na Universidade de Brasília (UnB).
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
“Existem inúmeros exemplos de escritoras que utilizaram o anonimato e pseudônimos para que pudessem ter a possibilidade de publicar suas obras sem serem confrontadas com o preconceito dos editores e do público”, afirma. “Autoras como Mary Shelley, as Irmãs Bronte e Louise May Alcott utilizaram nomes masculinos para que seus trabalhos fossem publicados, correspondendo, hoje, a clássicos da literatura mundial.”
Devido à restrição de sua presença no espaço público, muitas mulheres foram inicialmente limitadas a escreverem sobre temas alinhados ao doméstico. A especialista destaca que havia uma interdição velada no âmbito literário de assuntos que concernem mulheres, uma vez que eram considerados insignificantes para a vida social. “Com a publicação de narrativas que abordavam o que acontecia no interior secreto da casa e do casamento, houve a legitimação cultural desses assuntos e perspectivas, provocando rompimentos com ficções masculinistas e suas representações superficiais de mulheres”, crava.
Clarice evidencia nomes e obras que revolucionaram a literatura ao longo da história:
- “Mary Shelley revolucionou procedimentos estéticos e temáticos ao escrever a partir da perspectiva de um monstro que não é a ameaça, porém a vítima. O seu exercício de mudança da perspectiva gera até hoje debates produtivos sobre relações de poder, subalternidade e violência. Recomendo Frankenstein, lógico.
- Virginia Woolf se destacou não apenas por seu estilo experimental, como também por ser pioneira em discutir a condição da escritora mulher no âmbito machista da instituição literária. Seu discurso fragmentado e não-linear é um marco da literatura mundial, tendo influenciado a produção de muitas outras obras. Recomendo Orlando e Mrs Dalloway.
- Alice Walker foi a primeira mulher de ascendência africana a ganhar o Prêmio Pulitzer de ficção e se destaca não só na prosa, como também na poesia. Seu foco na vida da mulher negra nos Estados Unidos e nas desigualdades de gêneros e classes sociais continua relevante, sendo um ponto importante o fato de ela não discorrer apenas sobre a violência enfrentada, como também sobre a resistência e a alegria nas comunidades afro-americanas. Recomendo A cor púrpura.
- Octavia E. Butler foi uma figura importante no âmbito da literatura especulativa, sendo uma das primeiras mulheres a receber amplo reconhecimento no gênero. Suas narrativas sobre opressão sistêmica e colapsos sociais são especiais por centralizarem personagens negros e marginalizados e abriram caminho para outros livros de ficção científica que não ignoram o impacto das relações sociais na construção do futuro. Recomendo Kindred e A parábola do semeador.
No âmbito nacional, a especialista acredita que Clarice Lispector, Hilda Hilst, Ana Cristina Cesar e Carolina Maria de Jesus transformaram, cada uma a seu modo, formas convencionais de fazer literatura. “Lispector com seu discurso metafísico e repleto de fluxo de consciência, Hilst com sua prosa, dramaturgia e poesia eróticas, Cesar com sua poesia marginal que inseriu a cultura pop em um discurso erudito, e Jesus com sua prosa que discorria sobre o cotidiano cruel da fome e da pobreza a partir de uma linguagem lírica e, simultaneamente, realista”, disserta.
Clarice ainda expõe que o trabalho de muitas autoras segue esquecido e apagado não só do cânone, como também da circulação no meio social. Ela defende que a falta oportunidade de manutenção e difusão das suas criações reforça esse silenciamento. “Algumas escritoras brilhantes que, infelizmente, não têm as suas obras propagadas são Stella do Patrocínio, que fazia do seu 'falatório' um discurso de resistência, Márcia Denser, que revela a mulher como ser erótico que também deseja, age e pensa por si, e Olga Savary, poeta erótica que vislumbra a natureza do corpo e do sexo”, exemplifica.
Ao romperem com o monopólio discursivo masculino, autoras assumiram o discurso sobre si, seus corpos, desejos e pensamentos, passando da posição de objetos falados para sujeitas falantes. “Nesse sentido, não apenas a escrita por mulheres é relevante, como também a leitura de suas obras, tendo em vista que elas apresentam outras concepções sobre o lugar e a condição da mulher na sociedade, engendram outros imaginários e promovem outras gramáticas com as quais falar sobre a realidade”, defende Clarice.
Escritoras latino-americanas dominam o mercado atual para a especialista, cujas palavras revelam recortes diferentes da história e da realidade de seus países. “A literatura de horror está fazendo um trabalho especialmente interessante, visto que ela trata de traumas, violências e opressões sociais através de uma linguagem imaginativa, mas que ainda é capaz de revelar a brutalidade da perseguição e do medo impostos a várias comunidades marginalizadas”, aponta.
Clarice recomenda as argentinas Mariana Enríquez e Samanta Schweblin, as bolivianas Giovana Rivero e Liliana Colanzi, as brasileiras Verena Cavalcante e Irka Barrios e as equatorianas María Fernanda Ampuero e Mónica Ojeda.

Diversão e Arte
Diversão e Arte
Diversão e Arte