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'Estamos em festa', celebra Suzy Lopes, atriz do filme 'O agente secreto'

Atriz paraibana que vive Carmen em "O agente secreto", Suzy Lopes celebra as cinco indicações ao Oscar 2026 e reflete sobre a emoção de ver o país unido em torno da sétima arte. "O Brasil unido pelo cinema nacional, acho isso tão bonito!", comemora

Ela já havia sentido o gosto do reconhecimento internacional quando integrou o elenco de Bacurau, filme que conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2019. Agora, Suzy Lopes vive um novo momento de euforia profissional: O agente secreto, longa de Kleber Mendonça Filho (o mesmo diretor do anterior), em que atua ao lado de Wagner Moura, igualou o marco de Cidade de Deus ao receber quatro indicações para o Oscar 2026 na categoria de Melhor Filme Internacional — feito que, somado à indicação de Adolpho Veloso por Sonhos de trem, coloca o Brasil com cinco nomeações na maior premiação do cinema mundial. "Estamos em festa", resume a atriz paraibana, em entrevista exclusiva ao Correio, coincidentemente, no dia do seu aniversário. 

Natural de João Pessoa, Suzy construiu uma trajetória que transita com naturalidade entre o cinema autoral, a televisão aberta e os palcos — sua mais longeva paixão, celebrada em 2025 com os 20 anos de seu sarau poético. Na teledramaturgia, conquistou o grande público duplamente com a personagem Cira, em Mar do sertão (2022) e No Rancho Fundo (2024). No cinema, acumula parcerias com alguns dos mais importantes diretores brasileiros, como Marcelo Gomes, Gabriel Mascaro e, claro, Kleber Mendonça Filho.

Campanha pelo Brasil

Quando viu circular nas redes sociais a imagem de Fernanda Torres transformada em "santinho" durante a campanha de Ainda estou aqui, de Walter Salles, Suzy se emocionou. Mais do que a torcida por uma colega, enxergou ali um movimento maior. "Não sei de quem foi a ideia, mas achei genial. A campanha dela foi muito linda e eu desejava que a de Wagner Moura fosse assim também. É uma campanha por nosso cinema, por nossa cultura. Uma campanha por uma afirmação mundial do audiovisual brasileiro", defende.

Para a atriz, o fato de pessoas "fora da bolha do cinema nacional" terem ido às salas assistir ao filme e torcer pelo Oscar já configura "uma grande premiação". Ela compara o clima ao de uma Copa do Mundo: "O Brasil é um país muito dividido em diversas formas, e a Copa é um momento de união nacional. Até quem não gosta de futebol torce pelo Brasil. E era esse clima que eu queria, todo mundo torcendo pelo 'O agente secreto', o Brasil unido pelo cinema nacional. Acho isso tão bonito."

No filme, Suzy interpreta Carmen, funcionária pública que trabalha em uma repartição em Recife durante os anos da ditadura militar. A personagem, aparentemente coadjuvante na trama protagonizada por Wagner Moura, revela-se peça fundamental na arquitetura narrativa de Kleber Mendonça Filho.

A construção da personagem partiu de uma observação muito concreta da realidade brasileira. "Eu a vi inicialmente como uma cidadã brasileira comum, como tantas outras que completam a renda mensal vendendo algo dentro das instituições nas quais trabalham", explica ela, que foi coordenadora de teatro dentro de uma fundação de cultura do Estado da Paraíba e, segundo conta, "isso de vender algo é uma coisa muito comum, colegas que levam lanches para vender entre os colegas". "Achei inusitado isso na escrita de Kleber. Ele fala de uma classe social trabalhadora sem precisar falar, ele bota ali, naturalmente, no meio dos acontecimentos", pontua.

Jorge Bispo - Paraibana, Suzy Lopes vive Carmen em "O agente secreto"

Mas Suzy foi além na investigação da personagem. "Depois, pensei que ela não pode ser tão isenta assim, pois foi chamada ali para participar daquele 'teatro' que ia acontecer, portanto era uma pessoa de confiança do chefe? Depois, pensei que não era o caso de ser de confiança, mas de precisar atender sua ordem, pois vender coxinha dentro da repartição não é permitido, ela tem um trabalho dentro do trabalho. Então pensei que o Anísio (Buda Lira) deixa que ela venda suas coxinhas para tê-la como uma pessoa que quando ele precisar, ou para 'dar o coro' como ele mesmo fala, irá atendê-lo", pondera a atriz.

Ela destaca a profundidade do roteiro de Kleber, que entrega camadas de significado no não dito. "Ao estudar a cena da janela, na qual as colegas contam para Marcelo o que está se passando, ela não fala nada… Isso, para minha criação, disse muito. Depois, tem a cena que ela fica totalmente tocada pela situação da mãe do Marcelo. Percebe como a construção do roteiro de Kleber é profunda e de muitas camadas? Tem muita coisa que não é dita, mas está ali, nos corpos, na cena", reflete Suzy.

O olhar que acolhe atores

O agente secreto marca a segunda parceria de Suzy com Kleber Mendonça Filho. A primeira foi em Bacurau, e a atriz não esconde a admiração pelo diretor — aliás, confessa que era um desejo antigo trabalhar com ele. "Eu sou completamente apaixonada pelo cinema de Kleber. Sabe aqueles momentos que você conversa com o universo, com Deus? Sabe quando você expressa algo que você deseja muito? Como se Deus ou o universo precisasse que você falasse algo para eles saberem? Então, profissionalmente quando eu tinha essas conversas com o sagrado, eu pedia para ser dirigida por Kleber", confidencia.

Ela relembra que chegou a enviar material para o filme Aquarius — de 2016, protagonizado por Sônia Braga —, mas recebeu uma resposta negativa. "Eu respondi: 'Olá pessoal, agradecida pelo retorno e que pena, porque vocês estão exatamente no perfil que eu estou procurando'", conta, aos risos. A espera valeu a pena. Em Bacurau, veio a vivência mais aprofundada, com longos períodos de preparação em Parelhas, no Rio Grande do Norte.

"Eu adoro o humor de Kleber, as histórias que ele conta, ele é um diretor divertido. Vi outro dia o Leo Lacca (diretor assistente) dando uma entrevista em que ele falava que Kleber é um diretor que gosta de ator, isso é muito claro no modo como ele conversa com o seu elenco, como respeita as situações… O que mais me atrai em seu trabalho é como ele gosta de ator, ele se deixa em liberdade no set, ele cria situações na hora. Como ele é muito seguro, sabe muito o que quer e o que pode conseguir ali, ele entra na atmosfera e vai junto", elogia. E adianta: "As duas vezes que fui dirigida por ele foram experiências incríveis, por isso quero a terceira".

Um olhar nordestino

A ambientação de O agente secreto na Recife da ditadura militar carrega um significado especial para a atriz paraibana. "Ter um filme que desloca esse olhar de uma parte da história do Brasil tão importante é muito instigante", afirma. Ela credita ao olhar do diretor — ele próprio pernambucano — a autenticidade da representação: "O olhar de Kleber sobre o Nordeste é desmistificado porque ele é do Nordeste e gosta de ser do Nordeste, então ele escreve a coisa de forma muito natural e verdadeira. É bom de ler, de fazer e naturalmente de assistir".

Para Suzy, a força da produção audiovisual nordestina não é fruto do acaso. "Afirmo e reafirmo: os melhores filmes brasileiros são feitos no Nordeste. O nosso cinema é como é justamente por isso que você fala em sua pergunta, a nossa força está na nossa identidade", defende. 

Reprodução - Suzy Lopes em cena de "O agente secreto", com Wagner Moura

Wagner Moura: encontro de gigantes

Dividir a tela com Wagner Moura foi, para Suzy, "outro sonho realizado". E o que mais a impressionou foi a postura do ator fora das câmeras. "Wagner é um grande ser humano, coisa que é fundamental para ser um grande ator. Seu comportamento no set é muito lindo porque é muito humilde e simples. Não tem afetação alguma, tem consciência que ali ele é uma peça chave como todas as outras e se comporta com muita dedicação para que a coisa aconteça. Conversa e brinca quando tem intervalo e, na hora da filmagem, concentração total, pega na mão de todo mundo da cena, e vai e puxa. Troca em um nível real de estado de presença. 'Marcelo' existia de verdade ali na nossa frente", ela relata, com alegria.

A admiração se estende à postura do colega fora dos sets. "Estou torcendo muito que ele ganhe o Oscar de Melhor Ator. Essa notícia de que ele vai levar o amigo Lázaro Ramos para cerimônia do Oscar me deixou muito emocionada, e acho que diz muito sobre a pessoa dele. Como aquele ditado que diz que quem come o sal com você precisa tá no banquete. Isso é muito lindo."

Mulheres reais, esperança real

Ao lado de Fernanda Torres e da revelação Tânia Maria, Suzy celebra um momento de protagonismo feminino no cinema brasileiro. E enxerga um significado que transcende a sétima arte.

"Isso é tão confortante! Porque vivemos um tempo muito louco em que as pessoas estão todas perdendo a identidade com tantos procedimentos estéticos na cara, perdendo a identidade mesmo, se transformando em caras pasteurizadas, sem expressão. Aí vem Fernanda, maravilhosa com sua cara real, com seu tempo real, realizando um trabalho inesquecível e mostrando que tudo isso é uma bobagem!", ela assinala.

Sobre Tânia Maria, que aos 80 anos vive uma primeira experiência única no cinema em O agente secreto, Suzy é só encantamento: "Dona Tânia é surreal. Na nossa coletiva em São Paulo, ela falando que a velhice está no espírito, foi demais! A história de Dona Tânia é muito incrível, recomeçar uma profissão com a idade que ela começou, é tão esperançoso isso! Num tempo estranhamente etarista, é fortalecedor!"

Para a atriz, essas trajetórias dialogam com um país que precisa aprender a respeitar mais suas mulheres. "Tem uma entrevista de Fernanda que ela fala que um tio dela disse que ainda ia vê-la no Oscar, e ela riu achando que o tio estava viajando… Dona Tânia, artesã que não se imaginava como uma estrela, é a expressão de, como disse o poeta, 'tudo na vida pode acontecer'. Tudo isso é muito esperançoso, ainda mais pra um país como o Brasil, que é tão violento com suas mulheres. Para mim, como mulher, é uma esperança em um futuro de mais respeito", pontua Suzy.

Teatro, televisão, cinema: um equilíbrio possível

Com formação que passa pelo teatro universitário na UFPB e UEPB e uma longa trajetória nos palcos, Suzy construiu uma carreira multifacetada. "Eu acho que eu sei lidar muito bem com os ônus e os bônus da minha profissão", brinca.

Ela observa com humor como o público a enxerga de formas distintas: "Acho engraçado que quem me conhece do cinema só conhecia meu lado dramático e quem me conhece da televisão só conhece meu lado cômico". O equilíbrio veio em 2025, com Guerreiros do Sol, seu primeiro trabalho dramático na televisão. "Eu gosto do popular, da televisão, e gosto dos festivais internacionais. Eu continuo com o mesmo desejo desde os meus 15 anos: quero viver atuando", conclui.

E é nos palcos, mais especificamente no sarau poético que completou duas décadas em 2025, que ela encontra renovação. "O sarau é um projeto que tenho muita paixão. Foi uma brincadeira para me ajudar a viver, que ficou séria e durou 20 anos ininterruptamente, até 2019, quando começou a pandemia. Ainda fiz alguns online, e agora faço sempre que vou em João Pessoa, porque tenho paixão por recitar e ouvir poemas. Para mim, funciona como vacina, sabe? Vacina contra vírus e outras doenças. Fazer sarau me cura", acrescenta.

O futuro do audiovisual brasileiro

Para Suzy, o momento vivido pelo cinema nacional — com cinco indicações ao Oscar — representa mais do que celebração. É oportunidade de fortalecer políticas públicas para o setor.

"Esse reconhecimento internacional acaba sendo uma reafirmação mundial. Aquela velha história de nos validar depois que o de fora nos valida. Um fortalecimento da nossa indústria que ainda não é respeitada como indústria e alvo de tanta notícia falsa sobre apoio e financiamento às artes. Penso que o cinema brasileiro ter sido colocado entre os maiores do mundo fortalece as políticas públicas", defende.

Ela lembra que o sucesso de filmes como O agente secreto e Ainda estou aqui — vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2025 — reflete anos de investimentos em editais e leis de fomento, e defende a descentralização dos recursos. "Sabemos por estudos sérios que o audiovisual brasileiro gera mais renda e empregos que a indústria automobilística. Isso não é um dado a ser ignorado, muito pelo contrário, isso tem que ser valorizado e reconhecido, e receber o interesse e investimento que merece", afirma.

Enquanto aguarda a cerimônia do Oscar, Suzy Lopes segue atuando, equilibrando projetos — e torcendo. Pelo colega Wagner Moura, por Tânia Maria, por Kleber Mendonça Filho, pelo cinema brasileiro. E, claro, por mais encontros com o diretor que tanto admira. "Quero a terceira parceria", avisa, com o sorriso de quem provou que conversar com o universo pode dar muito certo.

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