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Com emoções à flor da pele, Marcéu Pierrotti se entrega na tela e no palco

Entre um apóstolo rústico na tevê e um caubói homossexual no teatro, o ator Marcéu Pierrotti navega por águas sagradas, monstros internos e paixões reprimidas — sempre encarando o humano. "É isso que conecta e move o espectador", defende

Em um ano particularmente prolífico, Marcéu Pierrotti transita com uma versatilidade rara entre os extremos da televisão e do teatro, da fé e da repressão, do épico bíblico ao drama intimista. O ator de 38 anos deu as mãos a dois personagens que, à primeira vista, poderiam habitar universos paralelos. De um lado, ele revisita o apóstolo Pedro na superprodução Ben-Hur, da Record TV, após já tê-lo interpretado em Paulo, o apóstolo. Do outro, ele se despe de qualquer armadura para viver a dor contida de Ennis Del Mar na adaptação teatral do blockbuster O segredo de Brokeback Mountain, em cartaz em São Paulo. 

"Vou sempre atrás do humano. É isso que me interessa, e é isso que conecta e move o espectador", resume o ator, em entrevista, deixando claro que, no caso de Pedro, faz um estudo histórico e bíblico, mas o seu trabalho está na compreensão da complexidade daquele homem. "Seus medos, seus sonhos, suas sombras", enumera.

Interpretar uma figura central do cristianismo poderia ser uma armadilha para qualquer ator, que precisa equilibrar a solenidade religiosa com a fragilidade humana. Para Pierrotti, o caminho foi justamente o oposto da estátua de gesso. Em Paulo, o apóstolo, ele viveu um Pedro sábio, líder da Igreja primitiva, já forjado pela dor e pelo propósito; agora, em Ben-Hur, o público encontrará a versão bruta do pescador da Galileia.

"Em Paulo, ele era mais velho, mais sábio. Agora, temos um Pedro bruto, um homem simples que quer sobreviver para sustentar a família. Tudo que eu havia criado em relação à sua impulsividade, que estava controlada pela sabedoria, eu precisei não controlar mais. Deixar as emoções à flor da pele", explica. É um exercício cronológico inverso que poucos atores têm o privilégio de vivenciar. "É um privilégio raro na carreira de qualquer ator — poder voltar a um mesmo personagem em outra obra", celebra.

Seriella Produções - Marcéu Pierrotti vive o apóstolo Pedro em duas produções da Record

Dupla densa

Se o Pedro de Ben-Hur exige uma entrega física e emocional bruta, foi em um personagem contemporâneo que Marcéu — cujo nome foi inspirado na junção de "mar" e "céu" — encontrou seu maior desafio profissional. Em Até onde ela vai, também da Record/Univervideo, ele deu vida a Sidney, um antagonista complexo que comete abusos psicológicos e sexuais contra a própria esposa, além de atuar no tráfico de drogas. "Sidney foi o personagem mais difícil que já fiz na minha vida", confessa.

Para dar conta da densidade do papel sem adoecer, o ator estabeleceu um protocolo rígido: "Desde o início, eu só estudava e trabalhava o Sidney fora da minha casa". A estratégia funcionou apenas em parte. "Senti minha energia mudar nos meses de gravação. Conseguia seguir minha vida, mas sentia uma frequência diferente. Só consegui abandonar totalmente a energia do Sidney quase um mês depois de finalizar as gravações", desabafa.

Divulgação - Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira: "Brokeback Mountain" no teatro

No teatro, o desafio é outro, mas igualmente visceral. Em O segredo de Brokeback Mountain, Pierrotti vive Ennis Del Mar, o cowboy reprimido que não consegue aceitar o próprio desejo. Diferente da energia densa e agressiva de Sidney, Ennis é uma dor contida, que implode silenciosamente a cada cena.

"Ennis Del Mar é fascinante, mas muito doído de se viver. É um homem que não consegue compreender e expressar tudo que está sentindo. Falta coragem para mover ou enfrentar os próprios medos e traumas — e ele paralisa. Esse homem implode ao longo dos anos", observa. Quem assiste à peça percebe o estrago. "Eu termino a peça muito mexido. Mesmo nos aplausos, não consigo falar. Demoro uma boa meia hora para voltar ao prumo", revela.

Um olhar analítico

A qualidade técnica do trabalho de Pierrotti não é fruto apenas do talento nato, mas de uma busca incansável pelo ofício. A formação em direção teatral pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ampliou seu olhar como ator. "Sinto que a cada nova peça ou filme que dirijo, meu trabalho de ator melhora. Consigo colaborar mais com os diretores", pontua. Prova disso é a disciplina na preparação: para viver Pedro, leu todos os 50 capítulos de Ben-Hur duas vezes. "Preciso entender a estrutura dramatúrgica da obra toda para fazer minhas escolhas artísticas", completa.

Vinicius Mochizuki - Marcéu Pierrotti: "humanos complexos com verdade"

Em um momento em que a indústria criativa e o público tendem a etiquetar artistas com base nos gêneros que interpretam, Pierrotti prefere não se limitar. Enquanto está no ar em uma produção de temática religiosa, emociona plateias com uma história LGBTQIAPN+. Para ele, a escolha é simples: "Busco histórias importantes para serem contadas e personagens que me atravessam. Não venho pensando em criar uma carreira versátil. Venho escolhendo construir dramaticamente humanos complexos com verdade".

E o público corresponde. "Eu dialogo bem com meu público. As interações têm respeito, admiração, torcida. Mas não podemos esquecer que as redes sociais criam bolhas. Ainda assim, me alegra ver que a minha bolha é bem diversa, afetuosa e respeitosa", argumenta. Sobre o risco de ser engolido pela imagem das obras que interpreta, o ator é ponderado: "Acho que a indústria tem uma necessidade mercadológica de etiquetar. Mas nem sempre os atores têm a possibilidade de escolher o que fazer. É preciso pagar as contas, é preciso comer."

 

 

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