
Docy Moreira é dessas artistas que parecem estar em constante estado de transformação — e é justamente essa inquietude que a trouxe, nos últimos anos, para um lugar de destaque no audiovisual brasileiro. Com passagens pelo cinema, pela TV e, mais recentemente, pelo streaming, Docy coleciona personagens intensas e um público novo que a descobriu em séries como Pssica (Netflix), Hit Parade e Notícias Populares (Canal Brasil). Agora, com a estreia da terceira temporada de Os outros, disponível no Globoplay, a atriz entrega um trabalho que ela mesma define como "potente e diferenciado". Na série assinada por Lucas Paraizo e dirigida por Luisa Lima, ela vive Domingas, uma mulher atravessada por tragédias, que encontrou nos animais e na natureza sua única forma de sobrevivência emocional.
"Domingas, além de uma mãe disfuncional, perdida nas dores das tragédias de sua vida, sobreviveu pela conexão com a natureza. Ela direcionou todo o seu amor e paixão para os bichos, criando um mundo peculiar e muito rico", conta a atriz de 59 anos.
A relação conturbada com o filho Diego, interpretado por Adanilo, é o motor dramático da personagem — uma maternidade disfuncional, marcada por feridas que nunca cicatrizaram. "Tivemos à disposição um texto incrível e intenso. Um elenco apaixonado e extremamente talentoso", elogia Docy, destacando a parceria com Adanilo: "Ele tem uma identidade artística gigante".
Fora da ficção, Docy também é 'mãe' de pet. "Minha filha aumiga, Maria. Uma cadela incrível, que é tão misturada quanto eu nas raças. Chow-chow com pastor malinois, é belga", diverte-se ela, que, além de Os outros, estreia nos cinemas, em 23 de abril, o filme Um pai em apuros, comédia estrelada pelo Rafael Infante e Dani Calabresa, com direção de Carol Durão.
Amadurecimento que abre portas
Para a atriz com quatro décadas de teatro, a passagem para o protagonismo no audiovisual aconteceu naturalmente. "Os trabalhos do audiovisual começaram a pintar quando eu me disponibilizei a trabalhar solo. Parecia uma resposta ao investimento em autoconhecimento e alteridade que fui conquistando ao longo dos últimos anos", afirma.
Não houve planejamento estratégico, nem virada brusca. Houve, sim, um amadurecimento pessoal que abriu portas profissionais. E as portas se escancararam: em 2025, Docy esteve em Pssica como a delegada Camões, sob direção de Quico Meirelles, e no cinema ganhou Menção Honrosa no Festival do Rio por Espelho cigano, de João Borges. Ao todo, são seis longas, dois curtas, mais de quinze peças e trabalhos como diretora e assistente de direção — além de um prêmio de melhor texto adaptado no ano 2000 por O Gato de Botas.
Mas há um fio condutor que atravessa toda a trajetória de Docy Moreira, e ele não está apenas nos currículos ou nos personagens. Está no nome. Docy não é um acaso. Batizada Docimar pelo pai, a atriz cresceu ouvindo variações como “Dóci” e “Dulcemar”. Até que decidiu reinventar-se. Descobriu que, no tupi-guarani, a letra “Y” é uma vogal que significa água ou rio. Substituiu o “mar” por “y” — e nasceu Docy. “Pertencimento e identidade. Traz paz e rendição, aspectos fundamentais da maturidade”, resume ela sobre a escolha. Essa jornada identitária é profunda. Docy reconhece sua descendência indígena botocuda e carrega também a herança preta por parte do pai.
Perguntada sobre como isso atravessa sua arte, a resposta é enfática: “De forma definitiva! Sou o que penso e o que eu imagino ser. Desejo seguir representando minhas iguais: mulheres pardas, originárias, do Sul global, as mulheres invisibilizadas de uma forma geral.”
Ela lamenta, no entanto, o quanto ainda falta ser contado. “Falta contar tudo!”, dispara, citando uma fala da escritora Conceição Evaristo sobre o filme Se eu fosse vivo… Vivia, de André Novais Oliveira. “Ela disse que o filme mostrava uma família preta, sul-americana, diferente para a Europa. Que até hoje só viu retratado bem no cinema o sofrimento, a injúria, mas não a potência do amor dessas relações. Então veja: não mostramos nem o básico ainda”, reforça.
Ambiente de oralidade e música
Caçula de nove irmãs, Docy cresceu num ambiente de oralidade e música. A mãe, hoje com 92 anos, canta em corais. O pai era um exímio contador de histórias. Foi ali, na infância, que a menina que reunia vizinhas para recriar aberturas de novelas descobriu o impulso criativo: “Em um ambiente tão preenchido, abarrotado, eu diria, sobreviver dependia de chamar atenção. Foi algo instintivo.”
Esse instinto nunca a abandonou. Além de atriz, Docy canta, estuda acordeon, pratica tarô e se dedica às ciências esotéricas. Para ela, tudo se conecta. “Todo conhecimento é válido quando se trata da criatividade. Na verdade, estamos transformando conhecimento em signos, personagens… nada se cria, tudo se transforma, né?”, reflete, ecoando o mantra da alquimia artística.

Diversão e Arte
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