
"Não é um set normal de gravação. É como se fosse uma coreografia, uma dança". É dessa maneira que a atriz carioca Taísa Gomes, de 36 anos, descreve a rotina na série médica The Pitt, da HBO Max, que retrata o dia a dia do hospital fictício Pittsburgh Trauma Medical Center, no estado da Pensilvânia, EUA. Assistente figurante do programa durante a segunda temporada, Taísa integra as produções da obra altamente premiada, com vitórias no Emmy Awards e Globo de Ouro.
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Em entrevista ao Correio, a atriz conta que fazer parte da produção é "realizar um sonho". Embora não seja integrante do elenco liderado por Noah Wyle, protagonista da trama na pele de Dr. Michael "Robby" Robinavitch, Taísa conta ter "ralado muito" para chegar onde está, mesmo que em uma posição fora do foco dos principais holofotes.
Experiências no Brasil passaram por TV, teatro e até área da saúde
Carioca natural do bairro de Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a brasileira conta ter percorrido diferentes empregos na Cidade Maravilha até chegar à cidade mais badalada da Califórnia: Los Angeles. De acordo com ela, a mudança aconteceu há seis anos, em 2020, após mais de uma década de trabalhos na terra natal. "Ralei muito no Rio antes de chegar aqui. Trabalhei muito. Passei pelas principais escolas de atuação da cidade, como O Tablado e a Escola de Teatro Martins Penna, onde aprendi muita coisa", relembrou.
As experiências seguintes foram vividas na televisão. Já na casa dos 20 anos, Taísa ingressou na TV Globo como dublê de ação. Apesar de ter aproveitado bem a oportunidade, decidiu dar um pause na vida diante das câmeras para seguir o coração. Ao receber a chance de trabalhar no Instituto Nacional do Câncer (Inca) como voluntária, optou por uma breve mudança de rota.
"Quis ser voluntária no Inca por uma questão espiritual, de vocação. Fiquei ali por três anos, onde fiz muitos laços. No fim, saí por ter perdido muitas crianças, era muito duro. Criava relações, mas as perdia. Ainda assim, muitos pacientes me procuram até hoje", orgulha-se.
Ida ao exterior foi determinante para virada de chave
Depois de já ter descartado uma oportunidade para ir aos Estados Unidos a trabalho, aos 23 anos, decidiu, aos 30, agarrar a segunda chance. O destino apareceu com a possibilidade de gravar comerciais de televisão. Logo, se enfronhou no complexo enredo da chamada "Union", rede das grandes produções cinematográficas, e conseguiu espaço após vencer as dificuldades trazidas pela pandemia de Covid-19.
"Dois meses depois que cheguei, veio a pandemia. E foi muito, muito complicado. Mas, com perserverança, as coisas foram dando certo. Fiz o que pude para entender o funcionamento das coisas. Para você ser ator aqui, é muito difícil. É preciso de uma indicação ou de um agente muito bom", explicou.
Segundo explicou a atriz, as pessoas que têm esses recursos estão inseridas no que é chamado de 'Union'. O termo também faz referência às produções das principais empresas do ramo, como a Marvel Só é possível entrar lá se um trabalho de figuração for feito. Para isso, é preciso pegar vouchers, que custam, em média, 3 mil dólares. E, de preferência, em empresas grandes.
"Ou seja, é algo muito nichado, e muito difícil. Há poucos anos atrás, eu peguei alguns, e as oportunidades vieram. Cheguei a estar no set de filmes importantes, como 'Uma Batalha Após a Outra' e 'O Contador 2', com atores como Leonardo Di Caprio e Ben Affleck", celebrou.
Depois de alguns comerciais e curta-metragens, The Pitt apareceu para a carioca. De acordo com Taísa, a oportunidade veio por meio de uma agência em que trabalha, em junho de 2025. A função proposta seria a de "backgrounds actress" — figurantes regulares. Mais precisamente, como uma das assistentes médicas durante os enredos mostrados no hospital, mas não como uma personagem. Quando perguntada se tinha experiência médica, o passado no Inca acabou determinante.
"Muita gente não consegue participar, mesmo como figurante. Pesou o fato de eu ter tido essa experiência no Inca pois a série é muito realista, simula, de fato, um hospital dentro do set. Não há focos de filmagens específicos. A câmera é 360º, então pode gravar qualquer um a qualquer momento. Preciso estar sempre preparada", detalhou.
Gravações trazem desafios tanto a nível pessoal quanto coletivo
A artista conta que o nível de exigência no seriado premiado é alto. Há, no set, equipes médicas de verdade, responsáveis por acompanhar os atores para auxiliá-los com detalhes relacionados à àrea de saúde. Inclusive, todos os profissionais, desde produtores a figurantes, vestem-se de médicos ou enfermeiros durante os longos períodos de gravação. Foram, ao todo, 90 dias, com diárias de "12, às vezes até 14 horas, durante todos os dias da semana, de segunda a sexta, com gravações e passagens de roteiro".
Além disso, é obrigatório que todos saibam os nomes uns dos outros, explica Taísa. Caso seja necessário contar com alguém para ter em mãos um instrumento médico, por exemplo, é preciso saber o nome do colega responsável para entender aonde ir para pegar o objeto.
"É tudo de verdade, é muito louco. Estamos simulando um hospital cheio, caótico, então é tudo muito rápido. Desde próteses de pernas amputadas e substâncias de verdade, como mercúrio, até um coração de mentira batendo, mas que parece muito real. Como estamos sempre com pressa, as falas são corridas. Muitos, também, estão correndo. Não é um set de gravação normal. É algo coreografado, como uma espécie de dança. Todo dia é um workshop para mim", relatou.
Hoje envolvida em produções hollywoodianas, Taísa relembra que, anos atrás, o sonho parecia apenas uma realidade muito distante. Em meio ao auge da carreira, como a própria descreve, se diz orgulhosa pela trajetória e ressalta a importância do trabalho feito dentro do set, mesmo que não protagonize cenas diante das câmeras com falas escritas em roteiros.
"É super legal ver que meu país quer me dar esse reconhecimento, pois foi muita, muita luta até chegar aqui, mesmo que seja um pequeno papel. Suei muito para chegar aonde cheguei, e planejo crescer cada vez mais, inclusive, dentro da série", afirmou.
A série The Pitt teve o 15º e último episódio da segunda temporada lançado no último dia 16 de agosto. Todos os 30 capítulos da produção estão disponíveis na plataforma de streaming HBO Max. A terceira temporada tem previsão de lançamento em 2027.

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